Thursday, May 15, 2008

Horror do vazio

O texto que se segue foi escrito pelo Pepetela, um dos mais famosos escritores angolanos. Achamos interessante e pertinente publicá-lo, abrindo espaço ao debate de mais um assunto tão polémico como contemporâneo.

“Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se
apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação
a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo
Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao
longo do mar. Não é forçosamente para amealhar umas comissões, como
imediatamente pensam os nossos cérebros borrados de preconceitos,
embora uns tantos aproveitem. Nada de novo, afinal: o mundo está cheio de
processos por causa do imobiliário e o cinema e a literatura até já
esgotaram o tema. O que me preocupa é muita gente estar sinceramente
convencida que isso é que é bonito e assim é que será viver bem. Têm
horror ao vazio que nas suas cabeças significa uma praça, um jardim, um
parque, um desperdício de espaço que ficaria melhor com uma torre no
meio (antes dizia-se arranha-céus, mas reconheço o exagero americano ao
inventar o termo, porque os céus não têm costas, são da natureza dos anjos,
e ninguém imaginaria um edifício a arranhar as costas de um anjo). Torre é
melhor, lembra logo aquelas construções onde se enfiavam os prisioneiros
para morrerem lentamente, como a célebre Torre de Londres, ou onde se
aninhava o povo da Europa medieval para se defender de ataques. Torre
sim, pois os seus utentes/prisioneiros vivem no medo de sair à rua, de viver
a cidade, enclausurados e protegidos da miséria que espalham à volta de si.
Queixamo-nos do trânsito na baixa da cidade (não só na baixa,
sejamos justos) e nem sempre escapamos de lá cair, porque ali está
concentrado mais de metade do capital financeiro e dos serviços do país. E
querem fazer mais torres, para atrair mais gente e mais carros? Que as
torres vão ter parques de estacionamento, dizem os defensores das ideias
futuristas. O problema é entrar ou sair dos parques, porque as ruas estão
atulhadas de carros. Claro que há uma solução do mesmo estilo: fazer as
ruas da baixa com andares, género auto-estrada em fatias sobrepostas, ou
até com viadutos por cima dos prédios, a arranharem as nuvens. Isso seria
um arranhanço útil. E já agora peço, façam um túnel por baixo da baía ou
uma ponte a ligar o bairro Miramar à Ilha, assim chegamos à praia em
cinco minutos, como era há vinte anos atrás. Como de todos os modos a
ideia geral é dar cabo da baía e da Ilha, também tanto faz, mais ponte
menos ponte… Suponho também que já deve haver negociações para se
tirar a Igreja da Nazaré do sítio onde está, a ocupar indevidamente um
espaço nobre para mais uma torre. Uma pequena concessão não fica mal,
mantém-se a igreja na cave do edifício. A História que se lixe, não foi a
lição da destruição do palácio de D. Ana Joaquina? Então continuemos.
Neste afã de ocupar todos os espaços, proponho também acabar com o
prédio dos correios, bem feio e sem valor arquitectónico por sinal, e já
agora com a praceta à sua frente, outro desperdício de espaço. E aquele
compacto e azul edifício que serve a polícia? Um quarteirão inutilizado! A
polícia pode ocupar um andar da nova torre. Com menos agentes, claro,
para se fazer encolher o Estado, assim mandam os compêndios do
liberalismo económico, nossa nova Bíblia.
Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções
vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar
gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da
subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser
lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os
prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os
responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.”

Pepetela

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 11:54:19 | Permalink | Comments (19)

Wednesday, April 23, 2008

Ainda sobre o racismo

A academia ocidental e ocidentalizada

E sua estrutura medieval é incapaz de explicar

E entender a dor do não europeu

Assim as ciências humanas se mostraram

E se mostram preconceituosas

E racista por essência desde seus?!?”

Começo este devaneio com a fala acima pra mostrar e demonstração o meu primeiro e ponto de partida em relação à academia ocidental e ocidentalizada, que suas matrizes teóricas e pais fundadores de todas as áreas desde a Grécia antiga e Roma até osnossos dias foram e são racistas, por este motivo é que afirmo ser um erro os povos não europeus insistirem em uma forma, modelo e estrutura quer teóricaquer estrutural para, constituírem suas “academias”. Não venho aqui afirmar e fazer figura de cabo eleitoral do contra em relação a esta academia. - pelo contrário, a partir de meu ponto de partida e ângulo de visão, como freqüentador dela, defendo que os não europeus (brancos de acordo a concepção eurocêntrico), devem freqüentar conhecê-la, estudá-la, desmascará-la e apresentarem uma nova configuração e alternativa a partir do ângulo do Outro (o não europeu).

Falar de racismo com certa propriedade ou pretensão de propriedade, pressupõe antes de tudo ser o homem letrado, treinado e preparado de acordo à instrução e modelo acadêmico eurocêntrico, o único capaz de realizar esta façanha. Quero deixar bem claro usando a celebre fala “só sei que nada sei” para expressar que não venho e nem tão pouco tenho a pretensão de esclarecer e chegar ao finito em relação ao objeto deste devaneio e sim trazer umas bases teóricas de forma a elucidar e clarear nossas mentes ávidas, pelo que li e vi apresentados neste meio e ferramenta de interação digital, que apenas sou um ser fugindo da minha própria ignorância.

A discussão, visão e estudo do racismo e sua interpretação, por parte da academia durante todo o séc. XX, foi de duas bases e pilares: o holocausto judeu e a escravidão do africano da chamada África preta fazendo parecer e transparecer que tal comportamento ser algo moderno e não milenar. Por este motivo os maiores defensores e disseminadores do racismo como, o conhecemos foram e são os intelectuais ou os formados e formadores de opinião, antropólogos, sociólogos, historiadores, psicólogos, biólogos, fisiologistas, físicos, químicos, economistas, etc. - com suas teorias e luta para uma manutenção de um status quomundial.

RAÇA

Num futuro muito próximo, em tempo medido em séculos, as raças civilizadas (brancos-europeus ocidentais) exterminariam as raças inferiores (os não brancos-europeus)”.

Darwin

A primeira classificação dos homens em raças foi a “Nouvelle division de la terre par les différents espèces ou races qui l’habitent”(“Nova divisão da terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam”) de François Bernier, publicada em 1684. No século XIX, vários naturalistas publicaram estudos sobre as “raças humanas”, como Georges Cuvier, James Cowles Pritchard, Louis Agassiz, Charles Pickering e Johann Friedrich Blumenbach. Nessa época, as raças humanas distinguiam-se pela cor da pele, tipo facial (principalmente a forma dos lábios, olhos e nariz), perfil craniano e textura e cor do cabelo, mas considerava-se também que essas diferenças refletiam diferenças no conceito de moral e na inteligência, pois uma caixa cranial maior e ou mais alta representava um cérebro maior, mais alto e por conseqüência maior quantidade de células cerebrais).

O Evolucionismo e teoria da evolução

A teoria da evolução, também chamada evolucionismo, afirma que as espécies animais e vegetais, existentes na Terra, não são imutáveis. Em 1859, Charles Darwin publicou The Origin of Species (A origem das espécies), livro de grande impacto no meio científico que pôs em evidência o papel da seleção natural no mecanismo da evolução. Darwin partiu da observação segundo a qual, dentro de uma espécie, os indivíduos diferem uns dos outros. Há, portanto, na luta pela existência, uma competição entre indivíduos de capacidades diversas. Os mais bem adaptados são os que deixam maior número de descendentes.

Origem das raças

As mutações, as recombinações gênicas, a seleção natural, as diferenças de ambiente, os movimentos migratórios e o isolamento, tanto geográfico como reprodutivo, concorrem para alterar a freqüência dos genes nas populações de animais e são, assim, os principais fatores da evolução.


Raça político - cientifica

A definição de raças humanasé uma classificação de ordem social, onde a cor da pele e origem social ganha, graças a uma cultura racialista, sentidos, valores e significados distintos. As diferenças mais comuns referem-se à cor de pele, tipo de cabelo, conformação facial e cranial, ancestralidade e, em algumas culturas, a genética. O conceito de raça humana não se confunde com o de subespécie e com o de variedade, aplicados, a outros seres vivos que não o homem (embora humanos e animais estejam exatamente sobre o mesmo tipo de seleção genética, apesar das pomposas fachadas pseudo-civilizatórias). Em alguns casos utiliza-se o termo raça para identificar um grupo cultural ou étnico-lingüístico, sem quaisquer relações com um padrão biológico. Nesse caso pode-se preferir o uso de termos como população, etnia, ou mesmo cultura.

Em zoologia geralmente raça é um sinônimo de uma determinada subespécie, caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. Na espécie Homo sapiens- a espécie humana - a variabilidade genética representa 93 a 95% da variabilidade total, nos subgrupos continentais, o que caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas do ponto de vista bio-político matematicamente convencionado pela maioria, o que não significa que esta hipótese é 100% imutável, como de fato nada o é em ciência. No “Código Internacional de Nomenclatura Zoológica” (4ª edição, 2000) não existe nenhuma norma para considerar categorias sistemáticas abaixo da subespécie.

Em biologia (Long e Kittles, 2003).

Conceito Referência Definição Essencialismo Hooton (1926) “A raça é a grande divisão do gênero humano, caracterizado como grupo por partilhar uma certa combinação de características derivadas da sua descendência comum, mas que constituem um vago fundo físico, normalmente obscurecido pelas variações individuais e mais facilmente apreendido numa imagem composta.”

População Dobzhansky (1970)

“Raças são populações mendelianas geneticamente distintas. Não são populações individuais nem genótipos específicos, mas consistem em indivíduos que diferem geneticamente entre si.” Taxonomia Mayr (1969) “Raça é um agregado de populações fenotipicamente similares duma espécie, habitando uma subdivisão da área geográfica de distribuição da espécie e diferindo taxonomicamente de outras populações dessa espécie.” Linhagem Templeton (1998) “Uma subespécie (raça) é uma linhagem evolucionariamente distinta dentro duma espécie. Esta definição requer que a subespécie seja geneticamente diferenciada devido a barreiras à troca de genes que persistiram durante longos períodos de tempo, ou seja, a subespécie deve ter uma continuidade histórica, para além da diferenciação genética observada”.

ETNIA/ O OUTRO

Uma etnia ou um grupo étnico é, no sentido mais amplo, uma comunidade humana definida por afinidades lingüísticas e culturais e semelhanças genéticas. Estas comunidades geralmente reivindicam para si uma estrutura social, política e um território. A palavra etnia é usada muitas vezes erroneamente como um eufemismo para raça, ou como um sinônimo para grupo minoritário.

Raça X Etnia

Embora não possam ser considerados como iguais, o conceito de raça é associado ao de etnia. A diferença reside no fato de que etnia também compreende os fatores culturais, como a nacionalidade, a afiliação tribal, a religião, a língua e as tradições, enquanto raça compreende apenas os fatores morfológicos, como cor de pele, constituição física, estatura, traço facial, etc.


Etnologia

A palavra “etnia” é derivada do grego ethnos, significando “povo”. Esse termo era tipicamente utilizado para se referir, a povos não-gregos, então também tinha conotação de “estrangeiro”. No posterior uso Católico-romano, havia a conotação adicional de “gentio”. A palavra deixou de ser relacionada com o paganismo em princípios do Século XVIII. O uso do sentido moderno, mais próximo do original grego, começou na metade do Século XX, tendo se intensificado desde então.

RACISMO

O racismoé a crença do pensamento, ou do modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras. Onde existe a convicção de que alguns indivíduos e sua relação entre características físicas hereditárias, e determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais, são superiores a outros. O racismo não é uma teoria científica, mas um conjunto de opiniões pré-concebidas onde a principal função é valorizar as diferenças biológicas entre os seres humanos, em que alguns acreditam ser superiores aos outros de acordo com sua matriz rácica. A crença da existência de raças superiores e inferiores foram, utilizado muitas vezes para justificar a escravidão, o domínio de determinados povos por outros, e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade.

Preconceito

Preconceitoé um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória contra pessoas ou lugares diferentes daqueles que consideramos nossos. Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são: racial e etnocentrismo, sexual: sexismo, machismo e femismo, lingüístico, homofobia, transfobiae heterossexismo, xenofobia, discriminação, chauvinismo, social, estereótipo e intolerância.

Genótipo X Fenótipo

É a constituição genética de um individuo e o fenótipo é a expressão observável de um genótipo como um caráter morfológico, bioquímico ou molecular. Fenótiposão as características visíveis de um indivíduo ou organismo, que são definidas pela expressão do seu genótipo (isto é, do seu patrimônio hereditário), somada à influência exercida pelo meio ambiente.

O racismo histórico

Os textos sagrados

Encontrámos evidênciasclaras da existência do que podemos chamar de proto-racismo. No mais antigo texto da trilogia dos livros sagrados indianos os “Veda” a raça preta é apresentada em duplo contexto o conflito e o maléfico, o Rig-Veda composto entre 1000 e 500 a.c demonstra a impossibilidade de sustentar uma tese de que o racismo era um fenômeno desconhecido na antiguidade. Encontramos nestes textos autodenominações de “tribos” leucodérmicas invasoras procedentes do sul do Irã e da Ásia central os ária ou arri (os de pele nobre) e seus oponentes os pretos dravidianos são designados globalmente por dasyu (denominação coletiva de preto) ou anasha (gente de nariz chato).

Assim o Rig-Veda relata que Indra líder dos invasores arianos, transformado em semi-Deus ordenou seus súditos guerreiros para “destruir” o dasyu” e eliminar a pele preta da face da terra. Neste texto a descrição de combates entre os brancos e os autóctones os pretos em uma “luta entre a luz e as trevas”. Da mesma forma encontramos referencias ligadas a conflitos e malefício nos demais textos sagrados, a bíblia, o alcorão, a torá entre outros.

A Bíblia, o livro de judeus e cristãos, não condena a escravatura. Quanto ao racismo, as posições são mais equívocas. O Cristianismo, por exemplo, defendia inicialmente que todos os homens eram filhos de um mesmo Deus não se distinguindo quando à sua natureza, mas sim quando à sua condição social. Maomé, o profeta do Islamismo, não condenou a escravatura, possuindo e comercializando inclusive escravos. Fato que tendeu a favorecer a aceitação da escravatura entre os muçulmanos. Em todo o caso estes não reconhecem distinções raciais, mas apenas religiosas.

Grécia-Roma “Europa, Norte de África Oriente Médio e Ásia meridional”.

Gregos e romanos entre os povos antigos, sabe-se que foram profundamente xenófobos, tiveram seus alicerces na explicação distintas do ser humano entre inferior e superior, bárbaros e civilizados e os que nasceram para serem escravos e os que nasceram para serem livres, e todo estrangeiro era chamado de bárbaro e assim constituíram suas sociedades baseadasna escravidão do Outro. Assim podemos encontrar em várias obras e pensamento destes povos a ideia fundamentada sobre o racismo o que mostra que para os gregos e romanos tanto a natureza quanto a inteligência humana era definida abertamente segundo critérios baseados no fenótipo em obras como a Ilíada de Homero referências sobre o racismo entre a cor clara “xantus” e a cor preta “melantus”, em Aristóteles sua fisionômica, (procedimento que baseado na observação da anatomia e no fenótipo que conjugado dariam uma visão da personalidade humana).

E a partir destes princípios que as características dos africanos foram frequentemente catalogadas de maneira negativa à medida que a disciplina cientifica se desenvolvia e se desenvolveu é racialmente determinada fixando qualidades e defeitos morais do ser humano segundo fenótipo segundo o qual a cor demasiada preta seria a marca dos covardes e a cor rosada naturalmente enunciada as boas disposições o que leva a designação genérica do africano como “etiop” cara queimada”, o que desconstrói a idéia de que o racismo é um fenómeno moderno a partir do processo de escravidão do africano pelo europeu. Na antiga Grécia foi criada um pensamento que caracterizava o Outro como o monstruoso ou as “raças monstruosas” porque imaginavam existir em lugares distantes (África/Egipto e Etiópia, Índia) raças ou povos com características monstruosas (pessoas com cabeça de cachorro (cynocephali); sem cabeça (blemmuae); com apenas uma perna (sciopods); canibais (antropophagi); pigmeus e raça de mulheres de apenas um único seio, encontramos essas evidências claras na obra do antigo escritor romano Plínio “ A Historia Natural”. Pensamento criado para justificar as teorias sobre a influência climática, pressupondo que as pessoas que habitavam lugares extremamente frios ou quentes não poderiam ser consideradas totalmente humanas.

Quem acreditaria nos etíopes antes de vê-los?”

Plínius

Na Antiguidade Clássica houve grandes debates sobre a escravatura, nomeadamente se escravos eram-nos por natureza (tese racista) ou por condição social. No primeiro caso partia-se do princípio que tinham uma natureza diferente dos outros seres humanos; no segundo caso, a sua natureza era idêntica, mas o que mudava era apenas a sua condição social, devido às causas mais diversas (guerras, dívidas, raptos, etc). Na antiga Grécia, filósofos como Platão e Aristóteles (séc.IV e III a.c.), procuraram fundamentar a escravatura em aspectos particulares da natureza humana dos escravos. A sua argumentação racista que estava, contudo longe de ser aceite. A escravatura era em geral entendida como um ato de violência do mais forte sobre o mais fraco.

Em resumo, podemos dizer que até ao fim da Idade Média, admitia-se que todos os homens podiam ser livres ou escravos, não estando esta condição inscrita na sua natureza. A discriminação era justificada por diferenças culturais, e, sobretudo por diferentes condições sociais entre os indivíduos.

A pior herança dos povos africanos

Do período de cativeiro físico e agora mental

É a programação cognitiva que ate hoje os mata?!?”

O Racismo Moderno

As primeiras concepções racistas modernas surgem na Espanha, em meados do século XV, em torno da questão dos judeus e dos muçulmanos. Até então os teólogos católicos limitavam-se aqui a exigir a conversão ao cristianismo dos crentes destas religiões para que pudessem ser tolerados. Contudo, rapidamente colocam a questão da “limpieza de sangre” (limpeza de sangue). Não basta convertê-los, “limpando-lhes a alma”, era necessário limpar-lhes também o sangue. Só que chegaram à conclusão que este uma vez infectado por uma destas religiões, permaneceria impuro para sempre. E a religião determinava a raça e vice-versa.

No século XVI esta concepção é estendida aos povos africanos de pele preta e os das Américas. Nenhuma conversão ou cruzamento destas raças, afirma o espanhol Frei Prudêncio de Sandoval, é capaz de limpar a sua natureza inferior e impura. A única cura possível, nestes casos, era o extermínio. Ainda no século XVI, surge em França uma nova concepção racialista retomada por outros ideólogos racistas mais recentes, ate o século XVII, tanto um branco como um preto podiam ser vendidos como escravizados.

Teorias Racistas Contemporâneas

As teorias contemporâneas racistas surgem no século XVIII. Os cientistas do tempo esforçaram-se por identificar e classificar as diferentes raças. Umas foram consideradas inferiores (em especial a raça preta africana) e apenas uma foi assumida como superior (a raça branca européia), e a escravidão passou a ser recusada entre brancos, mas aceitável para os pretos.

No século XIX, as teorias racistas conhecem um enorme desenvolvimento. Superioridade da raça “ariana”. Em 1854, o diplomata francês Arthur de Gobineau publicou um livro acerca da “Desigualdade das raças Humanas”, onde defendia que a raça “ariana” era superior a todas as outras, embora contivesse algumas “impurezas” devido a misturas com raças inferiores. Em 1899, o germano-inglês H.S.Chamberlain, publica um livro onde defendeu que a raça “ariana”, conduzida pelos povos germânicos, haveria de salvar a civilização cristã européia do seu inimigo, o “judaísmo”. Com base nesta idéia se desenvolverá na Alemanha, as teorias racistas que AdolfHitler (morto em 1945) fora o seu principal executor e que levou ao extermínio e a escravização das raças consideradas “inferiores” (judeus, árabes, pretos, ciganos, etc) e outros seres humanos considerados degenerados (homossexuais, deficientes, etc).


Darwinismo Social

A teoria sobre a geração e evolução das espécies de Charles Darwin, trouxe elementos novos para a fundamentação da desigualdade entre os homens. Com base nestas idéias originou-se o chamado darwinismo social que defendia o direito natural dos mais “fortes”, governarem os mais “fracos”. No século XIX houve uma tentativa científica para explicar a superioridade racial através da obra do conde de Gobineau, intitulada Essai sur l’inégalité des races humaines (Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas). Nesta obra o autor sustentou que da raça ariana nasceu a aristocracia que dominou a civilização européia e cujos descendentes eram os senhores naturais das outras raças inferiores. As últimas descobertas sobre o DNA foram concludentes sobre a falsidade deste tipo de argumentos o que não amputa seu caráter político-social.

OBS:Este é sem conclusão porque ainda pretendo escrever a questão especifica olhando Angola como Objeto.

O processo de dês-civilização do homem preto

É o caminho para real libertação?!?”

Referências

Racismo e Sociedade “novas bases epistemológicas para entender o racismo” - Carlos Moore

Testemunha ocular “historia e imagem” - Peter Burke

Etnia e Nacionalismo na Europa de hoje - Eric Hobsbawm

Nações e Nacionalismo Desde 1780 Programa, Mito e Realidade - Eric Hobsbawm

O guru, o iniciador e outras variações antropológicas - Fredrik Barth

Comunidades Imaginadas - Reflexões sobre a origem - Benedict Anderson

www.wikipedia.org

Por: Nkuwu-a-Ntynu Mbuta Zawua

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 22:56:26 | Permalink | Comments (5)

Monday, April 7, 2008

Vida humana: 3 -$500

Ao contrário do que muitos podem pensar, não sou daqueles que criticam Angola “só porque sim”. A cada análise critica que faço (certa ou errada) do meu Pais, uma onda de vergonha invade a minha alma. E ultimamente, a vergonha é um sentimento que predomina em mim. Vergonha de ver que no meu Pais, a vida humana não tem valor. O que aconteceu em Luanda no passado dia 29 de Março é o fruto duma negligência aberrante por parte dos governantes (e não só) e é sem dúvida o reflexo do desleixo “Satânico” em tudo que se faz nesse Pais. Esse desleixo tem um preço que nem o Bill Gates pode pagar: vidas humanas.

O desabamento do prédio da DNIC resultou na morte de 30 pessoas: 10 mulheres, uma criança e 19 homens. A criança de 3 meses estava lá para ser amamentada pela sua mãe. Já tinham sido feitos vários avisos: relatórios punham em evidência o eminente desmoronamento do edifício, mas mais uma vez, a filosofia do “deixa andar” e do “a maka não é minha” foi mais forte do que a convicção que vidas podiam ser perdidas. Essa negligência que se vê em TUDO que se faz em Angola, desde o respeito (inexistente) pelas regras de segurança rodoviária, até à postura de médicos ,que deviam ser os primeiros a reconhecer o valor duma vida humana, mas deixam morrer pacientes que não corriam risco de vida. Essa negligência que ataca “os mais fracos”, aqueles que não tomam as decisões mas que sofrem as consequências das mesmas, porque são esses que vão perder a vida, são esses cujas vidas não têm valor. Esses “Zé-ninguém” serão sempre vítimas desse desleixo de uns e outros. A queda do edifício não me surpreendeu, pois há muito que lido com essa negligência “angolana”. A minha consciência estava prevenida. Contudo, não posso nunca ficar insensível à morte de pessoas, é inadmissível.

Não estou a criticar só o Governo, critico também a postura de TODOS nós, que entramos no “esquema” e fazemos exactamente o mesmo. Já estamos tão habituados com a expressão “Fazer mais como então?!” que já nada nos parece aberrante e adoptamos a mesma postura de negligência ao fecharmos a boca quando devíamos abri-la. Não é porque “foi sempre assim” que devemos continuar a encolher os ombros e chorar a desgraça. Chega. Rico ou pobre, preto, branco, ou mulato, não interessa. Todos têm o direito à vida, e ela não pode, nem deve, estar sujeita aos caprichos ou à preguiça de uns.

Que esta desgraça acorde certas pessoas…
Que a morte de uns, salve a vida de outros.

N’Manga

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 20:17:11 | Permalink | Comments (5)

Saturday, March 8, 2008

Capitalismo angolano

O seguinte artigo foi publicado pelo jornal de Angola, na edição de 25 de Fevereiro de 2008. Decidimos publicá-lo porque achamos ser um artigo  interessante na medida em que faz uma análise da “nova” sociedade angolana e vai ao encontro de tudo aquilo que temos discutido aqui no blog.

O capitalismo angolano entre o presente e o futuro O velho Marx dizia (cito de cor): - “Historicamente, o capitalismo nasceu com as mãos sujas de sangue”. A frase pode parecer exagerada, mas basta lembrar os desenvolvimentos das revoluções burguesas na Europa para confirmá-lo. Para aqueles que acham que “ler muito atrapalha as ideias”, recomendo um western qualquer, para apreciarem como nasceu o grandioso capitalismo americano.
Como é que o capitalismo angolano está a nascer? Qual o seu futuro imediato? Nos outros países, há livros sobre o surgimento do capitalismo e como se formaram as grandes famílias burguesas que até hoje controlam o respectivo poder. Por todas as razões, ainda é cedo para surgir um livro desses acerca da burguesia angolana nascente. Seja como for, gostaria de deixar aqui alguns contributos para algum estudioso que esteja interessado em escrevê-lo.
Com efeito, acho que já é possível, pelo menos, identificar os passos principais que a burguesia angolana emergente seguiu para se transformar, gradualmente, naquilo que é hoje: um grupo altamente restrito e endinheirado, com um apetite incontrolável e uma forte tendência para o exibicionismo e a arrogância, que está mais preocupado com os seus negócios do que com os problemas da sociedade, possuidor de um discurso nacionalista, mas que confunde cultura nacional com o “Caldo do Poeira” e, além disso, não hesita em aliar-se a interesses estrangeiros, para melhor prosperar.
Como aconteceu em outros países pós-coloniais, a formação dessa classe (ou é melhor dizer grupo?) teve (tem) de ser feita à sombra e com o apoio do Estado. Os raros capitalistas que sobreviveram à aventura socialista de 1975 eram de origem europeia ou seus descendentes; de resto, mais ninguém herdou nada de ninguém, pelo que, quando a aventura socialista foi dada por encerrada, só havia uma forma de enriquecer: via Estado.
Assim, o primeiro passo foi lançar mão da estratégia das comissões. O segundo foi adquirir o património estatal a preços irrisórios. O terceiro foi a especulação cambial, enquanto durou a taxa de câmbio “administrativa”. O quarto foi usar informação privilegiada. O quinto foi utilizar as posições ocupadas no aparelho administrativo para fazer negócios consigo mesmo, assim como exigir participações em projectos apresentados por terceiros, pedir propinas para viabilizar esses projectos ou, pura e simplesmente, desviá-los e fazê-los em nome próprio ou de “testas-de-ferro”.
Talvez com a excepção da especulação cambial, as outras “ferramentas de capitalização”, digamos assim, continuam a ser utilizadas. Graças a elas, formou-se um grupo restrito, mas poderoso, que estende os seus tentáculos a praticamente todas as áreas de actividade.
O capitalismo angolano não poderia nascer de outra maneira. Do ponto de vista histórico, não há capitalismo higiénico. Daí, por conseguinte, as histórias de vigarices, trapaças, tráfico de influências e outras, que circulam nas conversas de bar, nas tertúlias, nos encontros familiares, nas farras ou nos óbitos (é aí onde os angolanos fazem a política real e não nas instâncias de tipo ocidental que, como todos os outros países periféricos, fomos forçados a adoptar).
Entretanto, a fase de acumulação primitiva de capital por parte do grupo que controla o poder efectivo em Angola está virtualmente concluída. Dois sinais apontam nesse sentido: a criação do Banco Angolano de Desenvolvimento – que é, assumidamente, uma tentativa política e financeira de criar uma classe empreendedora nacional alargada e com critérios mais ou menos democráticos e racionais, uma vez que o núcleo dominante da burguesia emergente está praticamente formado – e a entrega da gestão dos seus negócios, por parte desse núcleo, aos seus filhos e sobrinhos, muitos deles cursados no exterior, em especialidades escolhidas “estrategicamente”.
O que esperar, assim, do futuro imediato do capitalismo angolano? A avaliar pela “pose” dessa nova geração – entre os 30 e 40 anos de idade – que começa a gerir os negócios dos seus antecessores, não estou muito optimista. Jovens cuja primeira ambição é ser milionários, que andam todos os dias de fato preto, gravata encarnada e óculos escuros, gostam de “estilar” de Hummer e acham que a juventude angolana é só aquela que sabe o que é “tchilar” e frequenta o Miami Beach fazem-me ficar preocupado com os meus filhos mais novos e os meus (futuros) netos.

João Melo

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 09:19:21 | Permalink | Comments (4)

Thursday, February 21, 2008

Racismo: parte I

No decorrer dos meus estudos em psicologia social e das organizações, estudei bastante preconceitos e estereótipos. Estou certo que o tema do racismo é detentor de um estatuto lendário dentro de ambos os conceitos. Ainda assim não sou sociólogo nem antropólogo portanto não me vou estender muito sobre os aspectos científicos do racismo, a sua génese ou definição. Todos sabemos o que é, mesmo que não consigamos colocá-lo em Palavras. Todos já o sentimos ou perpetramos actos que se podem chamar de racistas.

Antes de me debruçar sobre Angola especificamente acho que faz mais sentido, dar a minha perspectiva daquilo que é o racismo e os passos que nos levam até lá. “O RACISMO É INEVITÁVEL”, a frase é certamente controversa, e analisada a superfície pode chocar. Mas aprendi que o nosso processo cognitivo, ou a forma como processamos a informação do mundo exterior é feita a partir de selecção e redução da informação, ou seja há tanta informação no mundo que é impossível conhecermos tudo, portanto seleccionamos a maior parte das coisas que sabemos e reduzimos aquilo que não podemos conhecer a partir da experiência prática com abstracções, para depois categorizarmos as coisas, ou seja, fazer com que elas façam sentido na nossa cabeça. E aí é que entram os estereótipos, que são precisamente a análise redutora de um grupo, nós percepcionamos o mundo e as coisas de uma forma necessariamente redutora pela quantidade massiva de informação que existe. Lógico que temos a capacidade de ser experts e conhecer com mestria fenomenal as coisas que nos interessam, mas tudo o resto vem em caixas de categorias, reduções e estereótipos.
Por exemplo, eu nunca fui à China, mas a noção que tenho é que os Chineses são baixinhos, bons no karaté, têm olhos rasgados, comem bué de arroz branco e que são colectivistas e trabalhadores. Assim como é essa a noção que qualquer um de vocês tem, porque há precisamente esse estereotipo, essa redução inevitável da realidade, por serem esses os dados do chinês em media. Esta linha de argumentação, diz-nos que os estereótipos ou redução de informação sobre determinado grupo ou categoria é inevitável portanto, nesse contexto “O RACISMO É INEVITÁVEL”. Todos nós somos racistas quando na bifurcação preferimos andar no lado da rua do casal caucasiano ao invés de irmos para o lado onde repousam os manos de pele escura, tu és racista quando te ris das anedotas do Fernando Rocha, eu sou racista quando um cigano vem ter comigo e dou por mim a abanar a cabeça em negação a negar trocos sem que o mesmo sequer tenha aberto a boca. A redução da realidade e inevitável.
O que não nos podemos esquecer numa abordagem mais filosófica e das coisas mais bonitas que há neste planeta. A singularidade das coisas, das pessoas. As pessoas não são grupos ou categorias são pessoas, cada um e apenas 1 e só independentemente da raça, religião cor dos olhos que partilhe com determinado grupo. O Yao Ming é chinês, assim como há bué de chineses que não gostam de arroz. Eu sou Angolano e não gosto de funge. A atitude e forma como sentimos percepcionamos um mambo, o comportamento e a manifestação da atitude. Temos de treinar a nossa atitude, e mudar o nosso comportamento em relação ao racismo. Os estereótipos estão lá, mas devem servir como uma luz, uma pista não como uma sentença ou dado adquirido. É estúpido fingir que os estereótipos não existem para evitar ser-se racista, mas é mais estúpido ainda ignorarmos a individualidade de alguém, para ser-se racista e tentar confirmar um estereotipo reduzindo-nos a ignorância.
O Brasil é dos países mais ricos e diversos culturalmente que já vi, e ao mesmo tempo o pais mais racista que já vi. Angola é dos países mais ricos e diversificados que África possui e ainda assim sofre severamente de racismo. Os critérios de entrada na discoteca, são dos que mais gosto para exemplificar os estereótipos, mesmo porque já fui vitima deste exemplo varias vezes. Os estrangeiros(brancos/mulatos) têm dinheiro
Logo são os candidatos naturais para entrarem nas discotecas, porque consomem muito e são civilizados. Segundo esta lógica, quem é proveniente de Angola provavelmente não tem emprego, ou seja é pobre e não vai consumir e não tem educação, ou seja é marimbo e vai provocar lutas e partir os bens da propriedade. Faz sentido, portanto o que os porteiros das discotecas fazem, todos escuros e grossos (e cá estou eu a estereotipar dentro da explanação do estereotipo) é deixar passar todos os claros e banir todos os escuros que não são celebridades, se é que se pode dizer que Angola tem tal coisa. Não interessa a forma com que essa pessoa se apresenta, se esta bem vestida, se apenas se quer divertir como os estrangeiros. O que interessa é a cor. Portanto toca a ser racistas, e mais triste ainda, legitimar mais direitos de entretenimento aos estrangeiros do que a ti, é como se esses porteiros estivessem a dizer: “Olá estrangeiro entra na minha casa, dorme na minha cama que eu durmo no chão, bebe a minha capuca que eu bebo agua, come o meu funge que eu passo fome e não te esqueças de f**** a minha bela mulher enquanto eu fico sem nada,” e a desvirtuação do ditado “a minha casa é a tua casa” para “a minha casa deixa de ser a minha casa e passa a ser a tua casa”. Como estes casos de racismo há muitos outros. O clássico complexo de superioridade dos mulatos em relação aos negros. A redução ilusória que os negros fazem, já vi muitos e muito bem formados, a argumentarem que os mulatos é que são detentores do poder e capital, quando não é verdade e assim. O habito dos negros e mulatos Angolanos serem racistas com os brancos muitas vezes sem fundamento, o que por ser uma tema sensível pode-se justificar. O que não se justifica é o racismo para com os chineses da mesma forma que os portugueses foram racistas connosco quando trabalhámos lá. Muitos dos casos que originam racismo são reais, mas não são regras, cada individuo é singular, tem livre arbítrio e o seu carácter não deve ser automaticamente categorizado e rotulado pela raça ou grupo a que pertence. Temos de descobrir quem somos e como queremos ser vistos pelos outros. Aprender com o Ruanda com o Quénia, é ver o que é que o ódio pela diferença trouxe a essas pessoas. Pensem nisso Angolanos, o futuro do mundo passa pela globalização pela capacidade de nos relacionarmos e negociarmos com outras culturas. Se não nos conseguimos relacionar connosco como é que vamos sobreviver no mundo globalizado?

Salvamarte

Branco ou mestiço? Perguntou-me a senhora que estava a preencher o formulário do meu bilhete de identidade. Branco, mestiço e negro são as 3 raças que podem ser colocadas no bilhete de identidade Angolano. Alguém muito ingénuo poderia dizer, “não existe racismo em Angola”. E eu responderia a essa pessoa : olhe para o bilhete de identidade, e veja a prova mais que oficial como o nosso pais é um pais racista e que fomenta o racismo.

Motivos por ser um pais racista? São dos mais diversos, sendo a colonização para mim o “motivo base” do racismo em Angola, e em todos países do Mundo. Todos países do mundo? Sim, todos os países do mundo! A colonização não resultou só na exploração e ocupação de um povo, mas também resultou na “migração” desse povo durante anos e anos. Os que foram ocupados e explorados fora misturados como é o caso de Angola. Misturados coisa que não aconteceu muitos com os outros países colonizadores, sendo Portugal o mais “mente aberta” quando se tratava de “conhecer” melhor o povo ocupado. E os que colonizavam e que são muitos deles conhecidos como países do primeiro mundo hoje em dia, não estavam contentes por terem sobre sua guarda os povos explorados, portanto resolveram começar a “trazê-los” para os seus países “super-desenvolvidos” onde o ser humano não era um “selvagem”,mas sim um “civilizado”. Isto tudo mesmo com o fim da escravatura e da colonização deixou marcas e vestígios enormes na nossa sociedade.

O “branco” hoje é olhado de lado, porque lembra os tempos da colonização e vai passar o resto da vida dele a ouvir : “vai lá p’ra tua terra seu branco de m****!!!” O mesmo “branco” ira olhar de lado para os “mestiços” e “negros”, porque ainda carrega com ele inconscientemente o pensamento colonialista, onde ele é o civilizado, e os outros são um bando de selvagens que tão a destruir o pais. O “mestiço”, é olhado de lado pelas outras duas “facções” porque cometeu o erro de ficar no meio, quem mandou ficar em cima do muro? E olha de lado os outros, porque se acha superior ao “negro” mas não se sente suficientemente respeitado pelo “branco”. E finalmente o “negro” e olhado de lado porque sempre foi considerado inferior e o que tinha de ser “assimilado”. E também olha de lado os outros dois grupos porque um (“mestiço”) ta em cima do muro e o outro ( “branco”) não ta na terra dele. E assim nos encontramos neste ciclo VICIOSO que fomentamos claramente em documentos oficiais.
Hum..e já me esquecia, a resposta que eu dei a senhora que tratava do bilhete foi : EU SOU ANGOLANO!! e ela deu-me um bom xoxo à moda da terra e escreveu RACA: MISTA.

Paz,
Mukuolua Kinamatos

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 22:30:39 | Permalink | Comments (46)

Corrupção

Segundo os relatórios anuais da Transparency International, em 2006 entre 163º, Angola foi o 142º país mais corrupto e em 2007 ocupou a 147º posição em 179º (ordem decrescente). O embaixador de Angola no Brasil, Alberto Neto, numa entrevista à Globo diz que o objectivos de Angola é não chegar aos níveis de corrupção do Brasil e da Nigéria e que as pessoas querem ser ministros não pelo bem estar do povo mas por causa da bufunfa. Neste momento, tiramos a corrupção do saco dos crimes e dos tabus, normalizando e integrando-a nas práticas correntes de todo o bom cidadão. São meros dados que só servem para confirmar o que vemos diariamente nas nossas ruas.
Qualquer conversa sobre Angola que dure mais de 10 minutos, independentemente do assunto, acaba sempre por cair no tão afamado tema: Corrupção. Afinal que outro problema tanto afecta o nosso país?
Este discurso que nos acompanha há decádas para aonde é que nos leva? Depois de debates intermináveis, de tantas horas de discussão chegamos a uma conclusão, ao ponto de partida: Angola é Corrupta! E AGORA??
É imperativo que comecemos a abordar este problema de maneira diferente. Em vez de constatarmos a corrupção pensarmos em formas de combatê-la.
Aqui vai uma sugestão: Todas as escolas, hospitais, obras públicas e investimentos do Estado devem ter uma placa a afixar o valor que foi destinado a cada obra. É uma medida que não só é uma prova de transparência como também promove um maior envolvimento e responsabilização por parte de todos os benificiários.
Por exemplo, segundo a proposta de orçamento geral de Estado para 2008 vão ser investidos 36.885.328.921 KZ no Ensino Primário 1,45% do orçamento, sem dúvida muito dinheiro. Mas o quê que um número como este diz a um cidadão comum como eu? Rigorosamente NADA. Agora se por exemplo eu souber que a escola aonde eu estudo recebeu 10.000.000 Kz para garantir o funcionamento da mesma, os professores sabem que existe $ para pagar salários e podem exercer maior controlo, os alunos sabem que há $ para remodelar as instalações e começam a questionar-se porque que não têm cadeiras suficientes na sala de aulas; e o próprio director de escola tem as rédeas bem mais curtas porque agora tem contas para prestar não só aos seus superiores mas também às pessoas que dele dependem. Já não podes dizer que a culpa é exclusivamente do Estado, porque neste momento tu é que não defendeste o que é teu.
Outra sugestão: a existência de prémios nacionais e regionais para os melhores profissionais nas diferentes áreas, que fizerem uma gestão eficiente e eficaz dos recursos e mostrarem entrega e dedicação.
Um dos grandes problemas actuais, é a ausência de incentivos para se agir honestamente. Há muita gente que tenta ser o mais correcto possível, mas depois de ver todos à sua volta a desvalorizarem ou simplesmente não reconhecerem o esforço, acabam por desistir, é normal, não são de ferro, são humanos. É comum não se valorizar uma pessoa que não rouba, porque parte-se do pressuposto que é errado roubar e que não faz mais do que a sua obrigação. Pressuposto este que não se verifica em Angola, considero que dificilmente conseguiremos combater a corrupção sem estimular a honestidade, sem transformarmos a honestidade num valor essencial.

Medidas como estas não são suficientes para resolver tão profundo problema, mas, sem dúvida, limitam abusos e uma governação totalmente despreocupada e irresponsável.

“…Sei que não vai dar para mudar o começo, mas se a gente quiser vai dar para mudar o final!”

Jorge

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 16:25:05 | Permalink | Comments (1) »

Sunday, January 20, 2008

Quénia e Angola : realidades paralelas?

A situação em que se encontra Angola hoje, não é exclusiva: um país que economicamente tem crescido bastante e muito rápido. Contudo essa riqueza poucos vêem. O governo ignora e menospreza o povo, que se tem mostrado bastante pacífico e submisso. Muitos dizem : “A situação em Angola é estável”. Sim, mas até quando? Até quando o povo ficará calado, vendo toda a sua riqueza sendo pilhada? Admito que fui uma das pessoas que ficou espantada com a notícia das manifestações violentas no Quénia, um país reputado pela sua estabilidade e pelo seu alto crescimento económico. O que aconteceu? Os média preferem reduzir tudo a um conflito etno-tribal, obviamente para continuar a passar a imagem de “esses africanos são uns selvagens”, mas a verdade é que as coisas são mais complexas do que isso. Vamos tentar mergulhar nesse país e analisar o que se passou.

As eleições de 27 de Dezembro de 2008, disputadas entre o presidente em exercício Mwai Kibaki e pelo membro da oposição Raila Odinga, foram altamente contestadas pela oposição, pelo Kenya Domestic Observation Forum, pelo KHRC e pela União Europeia. Os resultados dessas eleições foram favoráveis a Mwai Kibaki, embora o presidente da Comissão Eleitoral, Samuel Kivuitu, tenha afirmado numa entrevista ao jornal queniano The Standard, que ele foi pressionado para revelar rapidamente o vencedor, numa altura em que ele nem sequer podia afirmar se Kibaki tinha realmente ganho.

Depois de anunciado o resultado, a oposição organizou várias manifestações pelo país.  Essas manifestações(que têm sido altamente reprimidas pela polícia) rapidamente saíram do controle, resultando na morte de 300 pessoas e  dezenas de feridos, assim como na  perseguição aos kikuys, etnia a qual pertence o presidente Kibaki. Uma igreja ocupada na sua maioria por mulheres e crianças (pertencentes à etnia kikuyu) foi queimada por jovens da etnia luo (do Raila Odinga). A repressão policial tem sido extrema: a polícia tem disparado balas verdadeiras contra os manifestantes, tendo já resultado na morte várias pessoas.
 

O tribalismo está sem dúvida presente, mas será ele o único motivo para tal catástrofe? Os analistas do Quénia têm outra explicação: é certo que certos grupos étnicos têm sido perseguidos, contudo a origem do problema encontra-se no sistema económico queniano: um capitalismo selvagem que privilegia a concorrência, o poder, a riqueza e que marginaliza todos os “outros”, deixando-lhes apodrecerem num musseque qualquer. Em Nairobi, 60% da população vive em musseques (que não estão muito longe das zonas mais “finas” do país). Segundo um relatório publicado pelo SID (Society for International Development) de Nairobi (Pulling Apart: Facts and Figures on inequality in Kenya), o Quénia é o 10º país no mundo com maior desigualdade entre os ricos e os pobres, 5º em África. Segundo o relatório do PNUD, os 10% mais ricos do país controlam 42% da riqueza, enquanto que os 10% mais pobres controlam 0,76%. As disparidades alastram-se por todos os sectores: saúde, educação, etc. Em certas províncias do país, há um médico para 200 000 habitantes.

É importante relembrar que o Quénia é uma das maiores economias da África subsariana. Contudo, esse crescimento económico beneficia bancos, agências de viagens, agências de comunicação, enfim, beneficia o lucro em vez de criar postos de emprego e erradicar a pobreza. Os mais pobres têm cada vez menos poder de compra. Kibaki concentrou-se no desenvolvimento económico, negligenciando as desigualdades. Vendedores ambulantes foram perseguidos (como em Angola), muitos jovens encontram-se desempregados, a corrupção (que Kibaki prometeu erradicar durante a sua primeira campanha) atingiu níveis record. Tudo isso fez do Quénia um barril de pólvora pronto a rebentar. O povo continuava a ser ignorado, em benefício do tão desejado lucro e crescimento económico, que no fim só traz mais pobreza e desespero à população, que já se sentia completamente abandonada e traída. Sou o primeiro a condenar o tribalismo que se vive hoje no Quénia (e em muitos outros países em África), mas também sou o primeiro a condenar essas discrepâncias e esse mania de imitar o ocidente e de prosseguir cegamente nessa desenfreada corrida ao “magnífico” crescimento económico, com gráficos bonitos e exponenciais, enquanto grande parte do povo passa fome e desespera todos os dias, só para poder ter um pedaço de pão. A situação económica de Angola é similar a do Quénia: o crescimento económico é óbvio, com prédios e prédios que se levantam na cidade de Luanda, cada vez mais altos e portentosos, mas que muitas vezes, ocupam terrenos aonde antes viviam pessoas, que terão de ir viver bem longe… bem longe da nossa vista. A presente situação do Quénia é uma ilustração do que eventualmente pode acontecer em Angola se continuarmos a pensar que a paciência do povo é infinita e que não há sofrimento que um Afrobasket não faça esquecer.

N’Manga

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 23:49:00 | Permalink | Comments (31)

Wednesday, December 19, 2007

INDEPENDENCIA CULTURAL — I ACTO

Família Blog,

Antes de entrar no tema que pretendo abordar, quero dizer que estou extremamente contente em ver que o blog tem sido um ponto de encontro, onde se têm promovido debates intensos e frutuosos. Debates esses que têm dado origem a dois fenómenos muito importantes :

. A multiplicidade de opiniões que tem sido digerida, debatida e reconhecida pelas várias partes envolvidas;

. O estímulo à pesquisa, recorrendo às mais variadas fontes disponíveis, com intuito de aprofundar e sustentar os nossos argumentos.

Isto, por mais simples que pareça, acontece cada vez menos hoje em dia, nas nossas sociedades superficiais onde as ideias são de plástico e os argumentos tem a cor verde!

No ultimo “post” e comentários foram debatidos os mais diversos assuntos, mas lá para o fim, os mais aprofundados estavam mais ligados à economia. O tema que eu pretendo lançar para a nossa mesa de debate é um bocado diferente do anterior, mas também está ligado e tem como título :

“Despertar de consciências para uma ‘independência cultural’ em Angola”.

Arrisco-me a dizer que alguns de vocês já estarão a desenvolver um preconceito sobre o que vou falar, mas peço para manterem as vossas “tabúas em branco” e não julgarem o livro pela capa.

A MAKA

O “M.N” disse num dos seus comentários há alguns dias atrás, que nós “somos muito ocidentalizados”. Nesta frase eu tirava só o “muitos” e deixava “SOMOS OCIDENTALIZADOS” e mais nada!!! E não vale pena me virem dizer que “sei dancar kizomba e como funji, então sou Africano”. Quer queiram quer não, Angola tal como TODOS os países de Africa, foi “colonizada” (“desenvolver as condições de vida e a civilização dos indígenas”, Dicionário UNIVERSAL da Língua Portuguesa). Esta definição do dicionário mete nojo, deveriam das duas uma, ou mudá-la, ou arranjar outra palavra que pudesse exprimir mais fielmente a tamanha monstruosidade praticada pela Europa contra África.

Não venho aqui culpar a Europa pelos males todos de Angola, como fez um senhor há algum tempo, aqui no Blog. Venho relembrar este “pequeno” factor que foi a “colonização”, pois Angola e os Angolanos encontram-se num estado em que se pode dizer que conseguiram a sua independencia política há 30 anos, mas continuam dependentes de Portugal e da Europa culturalmente. Mudanças económicas, políticas e sociais positivas só poderão acontecer quando nós os Angolanos despertamos as nossas consciências e recuperarmos a nossa identidade há muito tempo perdida. O angolano não fala da sua História, continua a passar para trás as suas línguas nacionais, não é activo politicamente e tem como objectivo de vida fazer-se à imagem do homem do ocidente! Com a situação assim não chegaremos a desenvolvimento nenhum como Naçao, só se vocês concordarem que a construção de prédios de luxo com mais de 20 andares e ilhas falsas em frente à marginal de Luanda é desenvolvimento!

Então qual a minha sugestão ou palpite para realmente chegarmos a um desenvolvimento económico,político e social ?

. Eu acredito que o futuro de qualquer nação pode ser mudado se investirmos na educação e na cultura ! Porquê de não se ensinar linguas nacionais nas escolas angolanas? Poderão dizer que são línguas mortas e que não têm utilidade nenhuma no mundo de hoje. Mas uma língua vai mais além de interesses de mercado de trabalho deste mundo globalizado. A língua de um povo, é a História e a cultura do mesmo. Frantz Fanon, médico e escritor revolucionário que inspirou maior parte dos movimentos de libertação em África disse: “Eu atribuo uma importância fundamental para o fenómeno da lingua. Falar significa estar na posição de utilizar uma certa sintaxe, entender a morfologia deste ou daquele idioma, mas acima de tudo significa assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização “. Não pensem que estou aqui a pedir como fez Jomo Kenyatta antigo presidente do Quénia que disse a quem não conseguisse viver sem falar inglês poderia fazer as malas e ir-se embora. Mudar a nossa língua principal, o português, neste momento seria uma loucura, isto deveria ter sido logo após a independência e mesmo assim acho que teria sido complicado. Mas pronto, o que peço aqui é que voltem a pôr o ovimbundu, kimbundu, bakongo e as outras línguas a serem ensinadas como segunda língua nas escolas das suas regiões.

. Vamos também começar a exaltar mais os nossos heróis nacionais (a independência nao foi só Agostinho Neto) e o resto dos grandes africanos que lutaram pela independência nos seus países. Pessoas como : Steve Biko, Amílcar Cabral, Patrice Lumumba, Sekou Touré, Samora Machel, Jomo Kenyatta,Kwame Nkrumah entre muitos outros, devem ser lembrados e as suas lutas estudadas. Obras literárias africanas escritas por africanos têm que ser lidas nas escolas. Foram pessoas que foram mais além do debate e da conversa, inspiraram movimentos e mudaram mentes!

. Deixemos de dizer quem “encontrou” Angola e vamos falar de quem lá estava antes, vamos investir nas pesquisas sobre a nossa História antes dos portugueses terem chegado. Não pensem que quero voltemos a viver como há 5 séculos atrás, mas pelo menos quero que os jovens de hoje em dia tomem consciência de onde viemos , quem somos, por onde passámos e aonde estamos, pois os jovens hoje vivem numa Angola na qual aspiram “ascender” à cultura da coca-cola numa mão e telemóvel na outra. Os mais velhos que sabem da História e a viveram, não falam e parecem não ter força para esta segunda e decisiva luta que é a indentificação de Angola em África e no mundo !

Precisamos de ter a nossa própria personalidade para conseguirmos lidar com o presente e enfrentar o futuro. O petróleo pode dar-nos muito dinheiro para construirmos a torto e a direito, mas só a cultura e a educação darão ao povo angolano uma ALMA!

Por agora é tudo , quero que isto sirva mais como abertura ao debate a este tema importante. Aguardo ideias,críticas e sugestões.

Deixo-vos o incio de um poema de Maurício de Almeida Gomes do livro “Poesia de Angola”

Exortação

Ribeiro Couto e Manuel Bandeira,

Poetas do Brasil,

do Brasil, nosso irmão,

disseram :

” - É preciso criar a poesia brasileira,

de versos quentes, fortes, como o Brasil,

sem macaquear a literatura lusíada”.

Angola grita pela minha voz,

pedindo a seus filhos nova poesia!

Deixemos moldes arcaicos,

ponhamos de lado,

corajosamente

suaves endeixas

brandas queixas

e cantemos a nossa terra

e toda a sua beleza

Angola, grande promessa do futuro,

forte realidade do presente,

inspira novas ideias,

encerra ricos motivos.

É preciso inventar a poesia de Angola!

(…)

E só mais uma coisa, queria relembrar a todos visitantes que estão connosco na luta pelo voto dos angolanos na diáspora, para fazerem o vosso curto vídeo e mandarem para revolucaoemangola@gmail.com

Paz,

Mukuolua Kinamatos

Posted by Mukuolua Kinamatos at 05:30:49 | Permalink | Comments (24)

Dois em um como um cosmético

Tinha eu começado a reunir o material para desenvolver o meu próximo tema, “A identidade africana e a angolanidade como elementos de união e coesão entre os povos africanos” que devem, na minha singela e irrelevante opinião, escrever a sua História e não esperar encontrá-la na informação que os outros historiadores vieram recolher para as suas teses de fim de curso, quando…

Depois de uma acesa discussão com o meu queridíssimo irmão N’manga, apercebi-me que talvez estivesse a dar um passo maior que a perna, pois temos muito ainda a discutir sobre essa “angolanidade” que todos defendemos, cantamos, dançamos, mas que para além do conceito fluído de linhas imaginárias na areia, de alguns pratos típicos, umas fotografias de paisagens, antílopes em extinção, e de uma língua que nos sobrou de herança, não sabemos bem definir.

Existe uma identidade angolana?

Quantos de nós conhecemos verdadeiramente a fantástica diversidade e complexidade histórica de todos os povos que de repente se encontraram sob uma administração comum e a quem, desde então, temos vindo a tentar “impingir” uma identidade única? Quantos de nós conhecemos os hábitos e os costumes dos Koï-San (quantos sabemos que/se ainda existem, quantos sobraram? Quantos se interessam?), das Mumuílas que nos suscitaram uma mobilização mundial na reacção de repúdio visceral à maneira como foram retratadas num qualquer programa, de um qualquer Jô, que é em ocorrência, mais conhecido (e reconhecido) em Angola do que o José Sayovo?

Esse eterno falso orgulho cantado pelo meu bom amigo Keita Mayanda, de gente que nem sabia que tal povo ainda pudesse existir e que está muito menos preparada para discutir os seus hábitos do que o tuga que as “estudou” e ilustrou (e aqui junto-me ao coro) como beldades de tradições retrógadas e inferiores à ilustre cultura urbana da sociedade ocidental, merecendo por isso aquela generalizada risota de ignorantes que não conhecem mais do que Mcdonald’s e novela das oito.

O desporto seria um dos métodos talvez mais eficazes de imbuir aos elementos circunscritos por essas linhas imáginarias, em todos os seus 1 246 700 Km2, uma noção de coesão e unicidade, mas enquanto o Jô for mais conhecido que o José Sayovo, sinto muito, essa missão é um fiasco completo.

Então o que nos faz gritar com tanto orgulho VIVA ANGOLA, DE CABINDA AO CUNENE, UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO!!!?? Os nossos métodos são bons? Estão a ser bem aplicados?

Vejamos, eu ia começar o que deveria ser o meu próximo artigo comentando o facto da minha assumida vergonha aquando de discussões com os meus amigos africanos de outras nacionalidades, de não dominar, nem ao menos remotamente, nenhuma das nossas línguas nacionais (dialectos se preferirem), nem sequer a da região a qual pertenço, o kimbundu. Isto para eles é aberrante e por mais que eu tente explicar que talvez a razão da não inclusão de línguas nacionais no programa escolar tenha sido para tentar eliminar o tribalismo, a verdade é que eu próprio, ouvindo-me proferir estas palavras, não me convenço do fundamento desta justificação atabalhoada.

Não se tenta forjar uma identidade nacional ofuscando a beleza e a riqueza cultural inerentes de cada uma das partes constituintes desse território, com o risco de darmos um tiro no pé, causando um profundo desagrado da parte dos visados e uma reacção de repulsa aos novos valores comuns que lhes tentam inculcar, podendo levar a choques extremos, que servem de combustível ao fogo que se tenta arduamente extinguir: “Esses kimbundus, assimilados, vendidos ao branco, querem agora vir nos dizer os códigos comportamentais ocidentalizados que devem constituir o nosso cantinho comum? Não passam de lobos em pele de cordeiro! …” Pataty-patatá, conhecemos as sequências de adjectivos qualificativos depreciativos, normalmente nada abonatórios aos “opressores” e sabemos muito bem que as pessoas são altamente receptivas a este tipo de discurso, sobretudo quando se sentem mesmo discriminadas (e aqui falo de um ponto de vista geográfico e económico e não em relação à cor da pele) interiorizando uma raiva, um asco, um desprezo por todos os que sejam da “tribo” dominante e que tomam as decisões por eles (já aqui incluíndo todos os anteriores adicionados da côr de pele, na qual metem, não raras vezes, ênfase).

Toda esta fastidiosa introdução para chegar ao ponto essencial, que me levou a começar este artigo, preliminar ao meu próximo e que toca a uma questão muito sensível e frequentemente evitada da nossa actualidade:

CABINDA: Um assunto tabu?

Sabemos bem que desde antes de 1975, isto é, antes de N’gola se tornar Angola, que há um movimento de libertação activo nesta província, reivindicando a sua desanexação administrativa com o que consideram ser uma potência invasora. Também sabemos (ou imaginamos com alguma segurança arrogante) quais são os motivos principais por detrás deste ardente desejo de secessão, pelo menos da parte dos cabecilhas desses movimentos: Cabinda é pura e simplesmente a mais rica província de Angola em petróleo e Angola tem a sua economia completamente “agarrada” à este combustível fóssil.

Certamente Cabinda sentir-se-á injustiçada, achando que a riqueza do seu solo não lhe revém em forma de investimento, perdendo-se muitos dos petrodólares em negóciospouco transparentes e bolsos de uns e outros tubarões no governo central. É possível. Mas este não é o argumento principal utilizado, os argumentos raramente são os verdadeiros (normalmente económicos) porque as “massas” precisam, para se implicarem ou se aliarem à uma causa, que a luta seja nobre, por valores muito mais profundos que o poder de compra. A legitimidade vão buscá-la nas fronteiras deliberadas e impostas após a conferência de Berlim, ou por cláusulas não respeitadas do tratado de Simulambuco que estabelecia Cabinda tão somente como um protectorado português e não como parte da província ultra-marina de Angola.

A História é sempre um argumento mais eficaz atribuindo um peso solene e e dignificante à qualquer luta pela auto-determinação. Poderemos nós, do cimo da nossa arrogância sempre repleta de certezas, afirmar que tudo o que eles querem é o petróleo todo para eles, que não passam de egoístas egocêntricos, recusando ver uma parte da sua riqueza ser distribuída por gente mais necessitada com a infelicidade circunstancial de ter nascido numa zona onde as riquezas, se as houverem, ainda não começaram a ser exploradas, ou se o são, ainda não trouxeram frutos? Sinto muito, mas acho que também não podemos cair nesse erro de asserções absolutistas sem antes nos deslocarmos a Cabinda e “tirarmos a temperatura” ao povo cabindense e tentarmos entender como podem cair nesse conto do vigário, ou se caíram efectivamente, ou mesmo, se tal conto sequer existe. Também não podemos saber qual a franja dessa população que é realmente pela secessão, do âmago da sua convicção política e que apoia o movimento de libertação de coração.

Mas não será certamente escamoteando o assunto como nos habituamos a fazer na capital, evitando o debate público de uma questão tão profunda, que o governo conseguirá tornar a sua posição (justa ou injusta), mais credível para os cabindenses e para o resto dos angolanos que vão seguindo os desenvolvimentos pelos periódicos da capital, não sem uma certa dificuldade em localizar-se historicamente e compreender o cerne da questão (eu incluo-me nesse rol). Autonomia, FLEC, Mpalabanda, são as três palavras que compõem o grosso das matérias, mas elas são desesperadamente insuficientes e mostram, uma vez mais, a incapacidade, ou a falta de vontade, do Estado em fazer participar a sociedade civil nas discussões sobre problemas que nos tocam a todos, as suas dimensões e implicações reais, preferindo continuar a tratar o seu “eleitorado” como bebés de colo que não podem entender diplomacia (ou uso de artilharia), usando a sua estratégia rídicula de sempre: “Quanto menos poeira levantar, mais fácil e menos bandeiroso será “arrumar o assunto”. “

A questão para mim é esta: não terá o governo angolano as mesmas razões simplistas e puramente económicas, simétricas à dos líderes cabindas, e nos vá alimentar do nosso lado a conversa de uma união nacional que nunca existiu (plenamente, nos corações de TODOS os angolanos)? Da mesma maneira que podemos querer acreditar que há, de verdade, um fundo puro, sadio e sincero (mesmo que na sua maneira ímpar de o demonstrar) da parte do governo e que ele queira mesmo preservar essa identidade nacional, os cabindas estão no seu direito de preferir acreditar no discurso dos seus supostos libertadores que terão certamente algumas provas da má gestão da “sua” riqueza na capital do país e as usem como argumento para convencer os mais cépticos que a unidade nacional é só uma desculpa. Isto é sempre assim, as verdadeiras intenções de cada lado, não são nunca assumidas, têm de ser apontadas de um dedo acusador pelo nosso adversário. Grande dilema não é?

A solução, para mim, é muito simples, não vejo a razão de tanto “fuzwé” (para alegrar os fãs incondicionais do Jô e dos nossos queridos irmãos brasileiros) com desculpas para aqui e para ali e tentativas de negociatas que certamente envolvem promessas obscuras de maquias irrecusáveis em contas offshore se “nos entendermos todos como irmãos e amigos”: promova-se a realização de um referendo!

Dá-se um tempo de campanha para os dois lados tentarem o seu melhor para passar uma ensaboadela aos cérebros das pessoas, que eles sempre hão de julgar como sendo estúpidas, engolindo as suas ideias mal explicadas como se de papa Cerelac se tratasse e que, depois disso, se deixasse nas mãos do povo a deliberação com a sua consciência e com as suas convicções, registada em forma de voto. Não é esta a forma mais legítima de se tomarem decisões numa democracia? É numa democracia que alegamos com elevada frequência viver ou estou enganado? Ou o Chavez, que já fez 11 (!) referendos desde que foi eleito pela primeira vez em 1998, é que é o ditador?

Não posso considerar credíveis os líderes da FLEC/FLAC que “lideram” a guerrilha directamente das suas confortáveis “mansões” em Paris ou seja lá em que outras cidades da Europa se encontrem a difundir a sua causa, é muito feio decidir lutar, mas não se envolver físicamente na batalha. Também não sei a que ponto poderia reconhecer na Mpalabanda uma verdadeira representação do sentimento generalizado do povo desse enclave, mas, que raios, que alguém me explique a razão pela qual não lhes perguntamos directamente?

Se fosse eu um enviado em nome do povo angolano para tentar convencer os cabindas a não abandonarem o barco, este seria o tipo de discurso, sem papel (será que mais ninguém consegue exprimir genuinamente o que sente, com frontalidade, sem ter de recorrer a um discurso de tecnocrata apodrecido, dactilografado num papel amarelado?), com o qual tentaria convencer o povo de Cabinda a não levantar a âncora tão prematuramente:

Querido povo de Cabinda, oh, perdão, queridos angolanos de Cabinda. Finalmente, depois de tanto sangue inútil dos nossos irmãos ter sido derramado pela luta que escolheram abraçar, resolvemos, lá na capital, parar de ignorar essa garra, essa fibra que vos caracteriza e com a qual têm diligentemente demonstrado a vossa determinação de ferro pelo direito a escolherem o vosso destino sem que este vos fosse, mais uma vez, imposto. Hoje admitimos ter sido uma estratégia infantil de tão arrogante. Deveríamos, naturalmente, tendo vindo de concluir uma luta similar pela independência dos nossos povos das garras do colonialismo, ter sabido fazer melhor do que reprimir pura e simplesmente as manifestações de descontentamento que emanavam e continuam a emanar de tantos povos por esse nosso Angola à fora, mas ao invés disso, ouvi-los, discutir com eles sobre as razões e as soluções plausíveis que nos permitissem a todos estar de bem e, juntos, lutarmos pela edificação dessa identidade comum que tão sequiosamente, mas com pouca maturidade procurámos. Não quero ser repetitivo e tocar sempre o mesmo kuduro desculpando-me com a guerra fratricida que eclodiu logo após a proclamação da independência e que impediu de gatinhar a nossa jovem Nação, obrigando-a a arrastar-se mutilada, física e mentalmente, durante 3 décadas, mas , meus irmãos, é um facto e dizer o contrário seria incorrer numa mentira grosseira pela qual não ousarei aventurar-me, ela foi a nossa prioridade primeira e por isso, o termos descurado a vossa digna luta, relegando-a para segundo plano. Não vamos fingir de avestruz o resto da vida, até porque não temos um resto de vida se não resolvermos esta nossa querela o mais rapidamente possível, entre nós, irmãos.

Unidos por força das circunstâncias históricas ou não, é contraproducente negar que temos HOJE, uma História em comum. Ela depassa-nos e une-nos como jamais. Pode parecer contraditório querer escorraçar o colono e depois usar a única coisa que ele nos deixou de herança como elo de ligação para justificar as nossas fronteiras, mas, queridos irmãos, será que queremos também voltar ao período pré-colonização em que ora nos entendíamos, ora andávamos à porrada uns com os outros? Não será que, do mal o menos, deveríamos apoiar-nos na nossa História “recente” comum de 500 anos e nela fundar o nosso futuro e estreitar os nossos laços? Num primeiro tempo usando o português, mas quem sabe mais tarde, uma fusão das várias línguas nacionais que compõem este vasto, belo e rico país que agora temos a responsabilidade de, JUNTOS, dirigir? Eu sei e reconheço que, até agora, não temos demonstrado sinais de querer agir nesse sentido, sei também que vocês se sentem “justamente injustiçados” por não verem como gostariam, frutificarem-se as receitas provenientes dos lençóis de ouro preto que se estendem no vosso subsolo enriquecendo a vossa costa, mas, caros irmãos, apesar de todos nós sabermos passarem-se obscenidades com o nosso dinheiro, derivadas da fraqueza do ser humano que cede à tentação da luxúria e da aparente facilidade e impunidade com a qual se pode adquiri-la no país que estamos a tentar edificar, todos sabemos que isso não pode durar para sempre e que, com o fim da guerra, será muito mais difícil arranjar justificações para os rombos dos anos precedentes e que os malfeitores serão admoestados com penas severas por privarem os donos desse dinheiro, vocês, povo de ANGOLA, de também se alimentarem, se vestirem, se alojarem, se divertirem e o estourarem como bem entenderem.

Em breve cada um de vocês terá a ocasião, depois de todos esses anos em que vos negamos esse direito, de se exprimir por pleito eleitoral e nessa altura, queridos angolanos de Cabinda, peço-vos que pensem com o vosso coração e não com a promessa que querem vender-vos de enriquecimento pessoal vertiginoso. Porque essa riqueza pessoal não saberia fazer-se senão em detrimento do aumento da miséria dos outros, por essa Angola fora. Será que vocês querem ter isso na consciência? Povo de Cabinda, não vim aqui para dar continuidade a falsidade política que prefere usar artifícios de retórica para convencer as massas, como se de uma competição entre pseudo-intelectuais com o vocabulário mais rebuscado se tratasse. Ao invés disso, uma sincera abordagem do problema com o qual nos confrontamos, que possa ser compreendida pelo menos iluminado dos estudantes do secundário. Se estou aqui hoje com o coração aberto, assumindo os nossos erros e implorando que vocês tenham a bondade de espírito e sabedoria (coisas essas que entre nós, homens de poder, são recursos de extrema raridade) para nos perdoarem, é porque, nós precisamos de vocês, vocês não são dispensáveis, vocês não são algo do qual possamos abrir mão. É certo, precisamos da vossa riqueza para podermos dar continuidade à nossa expansão económica, isso é lógico e seria absurdo da minha parte omiti-lo, como se vocês não fossem crescidos o suficiente para se darem conta sozinhos. Mas, essencialmente, precisamos de vocês para perseverar na busca pelo sonho, sonho pelo qual tão arduamente lutámos, por quem tombaram juntos, nas mesmas frentes de combate, cabindenses, luandenses, benguelenses, malanjinos, todos esses povos corajosos do mais recôndito dos cantos, esse sonho que foi utópico e depois só irrealista e depois já tangível e hoje uma quase realidade, esse sonho que agora cabe a nós, juntos, concretizar, esse sonho chamado Angola.”

Algo do género. Acabaria por, tentando provar a minha franqueza, lhes pedir humildemente que me pusessem à prova perguntando-me o que quisessem sem receio nenhum, esse receio que se tornou uma constante quando fala um responsável político, de se lhe colocarem perguntas que possam ser constragedoras e que se generalizou aos supostos recolhedores de informação, muito por culpa da cultura de revanchismo implementada por esses mesmos políticos que odeiam ver-se confrontados por gente que “não percebe” o seu empenho e dedicação. Fá-lo-ia, insistindo que não era diferente nem superior a nenhum dos presentes, pelo contrário, um funcionário que tinha no povo a minha entidade empregadora e que me submeteria ao que ele deliberasse como sendo o melhor para a colectividade.

Se os resultados do voto fossem favoráveis à continuidade no território nacional, restaria esperar que os combatentes soubessem render-se à vontade popular e entregassem as armas, sendo-lhes prometidas as baboseiras de sempre, amnistia por todos os males e crimes cometidos e fraternidade eterna etc; Caso contrário, passariam a ser oficialmente um grupo de meliantes, pois a legitimidade política ter-lhes-ía sido subtraída pelo povo que dizem representar.

Mas imaginemos o caso inverso. Os votos dão, digamos que por larga vantagem para evitar argumentos de fraudes e essas merdas que gostamos de acusar os adversários de ter cometido para recusar a derrota, vitória para CABINDA INDEPENDENTE. Pergunto-vos caros amigos, patriotas e democratas, o que acham que deveria o Estado angolano fazer nessa situação?

Aguardo-vos na secção de comentários? (Que tal esta para estremecer um pouco os ânimos?)

KulpadoKomum

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 02:16:03 | Permalink | Comments (11)

Sunday, December 16, 2007

As guerras e as desculpas esfarrapadas que as justificam, pt. II

No post passado tentei chamar a vossa atenção para a importância da manutenção do dólar como moeda referência nos intercâmbios comerciais, para a continuidade dos Estados Unidos de América na pole-position da economia mundial.

E até que ponto estariam eles preparados a ir para preservar essa hegemonia? As apostas são elevadíssimas, trata-se de defender um modus vivendi ao qual foram habituados os cidadãos americanos e que só é sustentável se estiverem asseguradas algumas comodidades económicas.

Os visitantes deste blog, que até são poucos, já se devem ter questionado como funciona essa “coisa” das dívidas externas e porque que uns países são pressionados para a pagarem quando as maiores dívidas do mundo são detidas pelos países mais desenvolvidos, correndo solitário à frente, nada mais nada menos que os EUA com 10 triliões de $. A verdade é que quanto mais “sólida” a economia, mais fiável é o devedor (pensem no rico e no pobre que se dirigem ao mesmo banco para pedir um empréstimo) e os Estados Unidos são nada mais nada menos que a entidade emissora do dinheiro mundial, podendo dar-se ao luxo de imprimir mais quando fizer falta.

Mas, há também o facto dessa dívida ser sustentada pelos detentores de dólar mundialmente, que realizam as suas compras e investimentos nessa moeda, garantindo assim a sua afirmação como moeda rainha. Ou seja, um país em vias de desenvolvimento faz-se financiar pelo FMI ou pelo Banco Mundial (empréstimos esses fixados, logicamente, em dólares), esse financiamento não vai servir para ficar parado no banco à espera de taxas de juro, será utilizado para meter em prática a estratégia de relance da economia do país debitor (comprar ou investir) e remunerado com juros. Essa circulação de dólares além-fronteiras permite aos americanos endividarem-se tranquilamente sem recear o futuro.

Quais seriam os cenários a considerar de uma possível diminuição do dólar nas reservas mundiais?

Digamos que por uma razão qualquer, os vários países do mundo começam a reduzir a quantidade de dólares que armazenam e o substituam gradualmente por outra(s) moeda(s), para negociarem com cada parceiro comercial nas moedas que melhor lhes convém.

Uma das consequências mais evidentes seria que a procura pela moeda americana diminuiria, diminuindo assim o seu valor e, se continuarmos na lógica anterior, a dívida passaria a ser mais premente do lado do seu verdadeiro detentor e isso abanaria as consciências americanas, entorpecidas pelo “american dream”, que seriam forçadas a acordar para o pesadelo da incerteza.

A incerteza faz parar o dinheiro, aqueles que o detêm têm medo de o investir e perdê-lo, os credores vão buscar o que lhes é devido com medo de os seus clientes se tornarem insolventes (incapazes de honrar a dívida contraída). Uma ilustração bem recente disto foi a crise do mercado imobiliário nos EUA onde, devido à taxa de juros baixíssimos, os bancos se meteram a emprestar dinheiro como se o amanhã não viesse e como consequência os preços dos kubicos subiram em flecha (pensem sempre na PROCURA/OFERTA, com créditos baixos o pessoal vai querer aproveitar para comprar a sua casa, só que toda a gente se mete a fazer isso e o resultado é que as casas disponíveis não acompanhando o rítmo da procura, vão se valorizar).

O dólar anda um coxe coxo!

Verdade seja dita e assumida, o dólar tem vindo a perder muito valor nos últimos tempos, sobretudo em relação ao euro, com uma tendência a acentuar-se o fenómeno no futuro próximo. Fiz-vos um quadro abaixo em que limito a comparação da taxa de câmbio do dólar com algumas moedas, recolhendo apenas o câmbio no início de Janeiro e o actual (Dezembro). Se quiserem divertir-se a fazer as vossas comparações, carreguem aqui para €, Libra, Yen e Yuan e aqui, para o nosso Kwanza.






Euro

Libras

Yen (Japão)

Yuan (China)

Kwanza

Janeiro 2007

.758

.51

119

7.8

80

Dezembro 2007

.683

.49

112

7.4

74

Isso é bom ou mau? Depende do ponto de vista de quem analisa, mas há sempre ganhadores e perdedores.

As empresas americanas que se dedicam sobretudo a exportação, ganham clientes europeus (mundiais) que vão fugir do euro forte e poupar muito dinheiro importando dos EUA, mas as empresas americanas que são essencialmente importadoras e que têm na Europa o seu fornecedor principal, vêm-se gregas para suportar o custo imposto pela taxa de câmbio desfavorável. O cenário na europa é igual, é só aplicar a lei do “vice-versa”.

No caso de Angola, os EUA e a China são dois dos seus maiores clientes, um paga em dólares porque é a sua moeda nacional e o outro porque é a moeda dos intercâmbios internacionais. Por sua vez Angola vai importar os bens mais baratos possíveis para o seu consumo e , sendo detentora de dólares, sai-lhe muito mais em conta adquirir o que falta lhe faz, nos Estados Unidos ou na China, a Europa revelando-se um mercado mais caro.

Suponhamos agora que a China queira reduzir a sua importantíssima reserva de dólares (mais de um trilião) e comece a dar primazia ao euro como moeda de troca, Angola teria mais dificuldades em negociar com a China e provavelmente procuraria outros mercados, ou então, Angola poderia, também ela, desamarrar-se mais do dólar, moeda depreciada e acumular mais euros no seu lugar, moeda mais estável e mais fiável e que lhe garantia um melhor acesso (mais barato) ao mercado europeu, cada vez mais importante (27 países, mais de 490 Milhões de habitantes). Só que essa é uma decisão que não podemos tomar de ânimo leve, porque ante ameaça à estabilidade interna do “american dream”, os “maldosos” que tiveram a audácia de o arruinar, terão de pagar as consequências e nós, penso eu, estamos fartos de ouvir as armas a falar e não creio que tenhamos a força anímica e de espírito para nos fazermos rebentar em restaurantes.

A liberdade de escolha, sedimentada na soberania nacional

Os países do Médio Oriente têm todo o interesse, economicamente falando, em dar esse salto. Todos os indicadores são favoráveis ao € e à dispensa do $, a balança comercial é excedentária, a dívida externa europeia comparada com a americana é modesta e as taxas de juro são significativamente mais altas (interessante para os investidores e credores, sector bancário e imobiliário essencialmente). Para complementar, o mercado europeu é agora o mais importante em termos de efectivos, o principal parceiro comercial dos países do Médio Oriente e, finalmente, quase tudo que se pode adquirir em $, pode-se também adquirir em €, excepto… adivinhem… o petróleo!

A experiência iraquiana mostrou o melhor e o pior. Na altura da mudança do dólar para o euro, o câmbio estava em 1$ = 0.83€, dois anos depois… preciso de dizer mais? Logicamente o pior, foram as consequências políticas, ainda hoje podemos testemunhá-las no jornal das 13 (eles são muito “chateados” esses iraquianos, não aceitam a derrota com a veleidade que gostariam os seus “libertadores”).

Mesmo assim, os outros países parecem inclinados em dar seguimento ao timoneiro Hussein. O Irão já tem a sua reserva em euros constituída, indicador mais do que evidente da sua vontade. Hugo Chavez ferrenhamente anti-americano, vê com bons olhos esse distanciamento em relação ao dinheiro do império, tendo ele próprio já tomado medidas que fizeram ranger os dentes em Washington, nomeadamente a troca de petróleo com professores e médicos cubanos.

A libertação dos povos oprimidos por ditadores

Os EUA consomem 25% da produção mundial de petróleo, são mais dependentes do bruto que qualquer outro país e, ter de adquiri-lo numa moeda apreciada em relação a sua, seria o fim da macacada, a queda do ogre, o terminus para o comboio do tio Sam. Algo tem de ser feito né? Jogue-se o ás de copas (sendo o de espadas o petróleo), a carta secreta número dois no baralho dos estadunidenses para controlarem os negócios mundiais: a acção militar.

KulpadoKomum

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 01:40:01 | Permalink | Comments (12)