Quinta-feira, Julho 19, 2007

DEVANEIOS DE UM, ENTRE 15 MILHOES DE CULPADOS


Os jovens começaram a regressar das férias de décadas no estrangeiro. Férias, assim disse nosso presidente.
É revigorante ver tanto sangue novo a ser injectado nessa máquina caquéctica, manuseada por lapas incompetentes e por novos ricos que desfilam diariamente a sua prepotência, esfregando-a na cara daqueles outros que não sabem se amanhã vão poder fazer 400 kwz lavando um carro ou outro, vendendo um mata-mosquitos, transportando mercadorias no seu kangulo (roboteiros), esses que querem trabalhar, mas não lhes deixam, como já quiseram um dia estudar e não puderam, para quem o pão que se come à noite é ganho arduamente ao longo do dia, que têm bocas para alimentar, mas não podem, porque o despacho governamental ordena uma caça às bruxas, os fiscais batem e roubam os desgraçados que ousem ganhá-lo honestamente, empurrando-os para sabe o diabo o quê. Esses jovens que nunca tiveram meios de abandonar o país, os jovens que foram carne para canhão durante o longo período que durou a nossa guerra fratricida, que estão condenados a continuarem a sê-lo e já estão a deixar como herança os seus descendentes, que constituirão eles próprios, no futuro, o núcleo da população esquecida, os nossos empregados, os nossos motoristas, os nossos pobres e os nossos criminosos.
É lindo demais ver os jovens regressar, jovens com vontade de dar o litro, jovens que querem transformar o país em que vivem e torná-lo um sítio melhor para fazer também crescer os seus filhos, para que não tenham de ser obrigados a ir para fora estudar, correndo também eles o risco de por lá ficarem.
Mas será que assim é? Será que esse regresso é motivado por factores tão puros e altruístas?
Eu fico confuso, às vezes tenho impressão que há muita gente com muito boa vontade, mas que não têm propriamente uma ideologia sedimentada, que não sabem bem por onde começar, que estão meio perdidas e que se acabam acomodando na trincheira do argumento “sozinho faço o quê?” e assim se vão tornando em mais bichos domesticados pelo sistema, mais uma dobradiça na engrenagem. Tentam confortar a sua culpa pensando que vão fazendo o que podem, dando uns kwz aqui e ali, ao empregado que já recebe no fim do mês o que nós gastamos num fim de semana (ou em algumas horas) e que não tem nada que pedir mais, mas pronto, “toma lá para comprares medicamentos para a tua filha que tem paludismo”, ao moço que nos carrega as compras para cima, que nos lava o carro, na verdade, há quase sempre um serviço que se recebe em troca da tal de “ajuda”. Essa “ajuda” é em si, um catalizante para o estado de gangrena crónica em que vivemos. Quantos “sozinhos” existirão por aí fora, que não fazem o mínimo para se encontrarem e juntar forças? Haverá realmente vontade de fazer alguma coisa? Entristece-me muito constatar que NÃO. As pessoas são como ovelhas, precisam de um pastor, precisam de alguém que lhes ensine a canalizar essa vontade e torná-la em convicção porque cada uma sozinha não vai lá. Estão muito mais preocupadas em pavonear-se, mostrar o que o seu salário e uns bons “biznos” à esquerda e à direita podem comprar, muito além da roupa, dos óculos escuros e penteados da Beyonce, além dos terrenos, dos apartamentos de mais de um milhão de dólares em prédios que ainda nem estão construídos, além dos hummers e tubarões, muito além do legítimo.
Estamos a devorar as entranhas à nossa Angola, a deteriorar a nossa gangrena com a filosofia do “eu” e os abutres agradecem, mas um dia, por mais que tranquem as portas do carro, por mais que se barriquem atrás de muros de 3m com arame farpado electrizado e guardas armados, por mais que comecem a deslocar-se de helicóptero… a miséria irá bater-vos à porta e, nesse dia, não vale a pena chorar lágrimas de crocodilo, porque ela saberá quem vocês são!

 

KulpadoKomum

Escrito por (R)EvolucaoEmAngola em 22:31:52 | Link permanente | Comments (2) |