Sábado, Março 08, 2008

Capitalismo angolano

O seguinte artigo foi publicado pelo jornal de Angola, na edição de 25 de Fevereiro de 2008. Decidimos publicá-lo porque achamos ser um artigo  interessante na medida em que faz uma análise da "nova" sociedade angolana e vai ao encontro de tudo aquilo que temos discutido aqui no blog.

O capitalismo angolano entre o presente e o futuro O velho Marx dizia (cito de cor): - "Historicamente, o capitalismo nasceu com as mãos sujas de sangue". A frase pode parecer exagerada, mas basta lembrar os desenvolvimentos das revoluções burguesas na Europa para confirmá-lo. Para aqueles que acham que "ler muito atrapalha as ideias", recomendo um western qualquer, para apreciarem como nasceu o grandioso capitalismo americano.
Como é que o capitalismo angolano está a nascer? Qual o seu futuro imediato? Nos outros países, há livros sobre o surgimento do capitalismo e como se formaram as grandes famílias burguesas que até hoje controlam o respectivo poder. Por todas as razões, ainda é cedo para surgir um livro desses acerca da burguesia angolana nascente. Seja como for, gostaria de deixar aqui alguns contributos para algum estudioso que esteja interessado em escrevê-lo.
Com efeito, acho que já é possível, pelo menos, identificar os passos principais que a burguesia angolana emergente seguiu para se transformar, gradualmente, naquilo que é hoje: um grupo altamente restrito e endinheirado, com um apetite incontrolável e uma forte tendência para o exibicionismo e a arrogância, que está mais preocupado com os seus negócios do que com os problemas da sociedade, possuidor de um discurso nacionalista, mas que confunde cultura nacional com o "Caldo do Poeira" e, além disso, não hesita em aliar-se a interesses estrangeiros, para melhor prosperar.
Como aconteceu em outros países pós-coloniais, a formação dessa classe (ou é melhor dizer grupo?) teve (tem) de ser feita à sombra e com o apoio do Estado. Os raros capitalistas que sobreviveram à aventura socialista de 1975 eram de origem europeia ou seus descendentes; de resto, mais ninguém herdou nada de ninguém, pelo que, quando a aventura socialista foi dada por encerrada, só havia uma forma de enriquecer: via Estado.
Assim, o primeiro passo foi lançar mão da estratégia das comissões. O segundo foi adquirir o património estatal a preços irrisórios. O terceiro foi a especulação cambial, enquanto durou a taxa de câmbio "administrativa". O quarto foi usar informação privilegiada. O quinto foi utilizar as posições ocupadas no aparelho administrativo para fazer negócios consigo mesmo, assim como exigir participações em projectos apresentados por terceiros, pedir propinas para viabilizar esses projectos ou, pura e simplesmente, desviá-los e fazê-los em nome próprio ou de "testas-de-ferro".
Talvez com a excepção da especulação cambial, as outras "ferramentas de capitalização", digamos assim, continuam a ser utilizadas. Graças a elas, formou-se um grupo restrito, mas poderoso, que estende os seus tentáculos a praticamente todas as áreas de actividade.
O capitalismo angolano não poderia nascer de outra maneira. Do ponto de vista histórico, não há capitalismo higiénico. Daí, por conseguinte, as histórias de vigarices, trapaças, tráfico de influências e outras, que circulam nas conversas de bar, nas tertúlias, nos encontros familiares, nas farras ou nos óbitos (é aí onde os angolanos fazem a política real e não nas instâncias de tipo ocidental que, como todos os outros países periféricos, fomos forçados a adoptar).
Entretanto, a fase de acumulação primitiva de capital por parte do grupo que controla o poder efectivo em Angola está virtualmente concluída. Dois sinais apontam nesse sentido: a criação do Banco Angolano de Desenvolvimento – que é, assumidamente, uma tentativa política e financeira de criar uma classe empreendedora nacional alargada e com critérios mais ou menos democráticos e racionais, uma vez que o núcleo dominante da burguesia emergente está praticamente formado – e a entrega da gestão dos seus negócios, por parte desse núcleo, aos seus filhos e sobrinhos, muitos deles cursados no exterior, em especialidades escolhidas "estrategicamente".
O que esperar, assim, do futuro imediato do capitalismo angolano? A avaliar pela "pose" dessa nova geração – entre os 30 e 40 anos de idade – que começa a gerir os negócios dos seus antecessores, não estou muito optimista. Jovens cuja primeira ambição é ser milionários, que andam todos os dias de fato preto, gravata encarnada e óculos escuros, gostam de "estilar" de Hummer e acham que a juventude angolana é só aquela que sabe o que é "tchilar" e frequenta o Miami Beach fazem-me ficar preocupado com os meus filhos mais novos e os meus (futuros) netos.


João Melo
Escrito por (R)EvolucaoEmAngola em 11:19:21 | Link permanente | Comments (4) |
Comentário
1 - - Abaixo vos deixo um email que me enviou o meu primo de Luanda:

<<Inicio de Citaçao>>

Como é primo, espero que tudo esteja a correr bem para ti e o para o teu irmão.
Daqui a uns meses estas de volta a terra vermelha com os seus problemas e as confusões de sempre....
Vim por esse meio contar-te aquilo que vivo ao meu dia-a-dia e que tem sido bastante interessante e diferente daquilo que se lê sobre Luanda.

TAAG
Não existe....Uma vergonha de desorganização minada por dentro aonde cada
funcionário que trabalha não tem amor para empresa. A palanca perdeu os
cornos há muito tempo. O pior de tudo é que as pessoas de boa vontade nem
conseguem mudar nada. A taag chumbou nos testes em fevereiro por causa da incapacidade da INAVIC (instituto nacional de aviação civil) que depende de outros incompetentes: o ministério dos transportes. Este instituto
mudou a lei da aviação civil por decreto mas foi incapaz de avisar as companhias do país e não registou nenhuma.
Sobre 100 pontos exigidos pela União Europeia (a norma internacional)41 foram negativos contra apenas 10 na Taag. Portanto enquanto esse bando de macacos continuar a fazer a lei os nossos boeings vão ficar em terra a apanhar pó.....

SONANGOL

Uns filhos da puta. Primeiro o PCA da sonangol age como se fosse vice-presidente de Angola, faz tudo e mais alguma coisa. Agora a sonangol decidiu que ia investir noutras áreas e começou a comprar participações de empresas portuguesas tal como a EDP, a Galp, a Portugal Telecom e o BCP. Querem chegar a 20% do capital dessas empresas.
Aqui em Angola forçaram todos os bancos portugueses a ceder capitais do BFA, Millenium, TOTTA....
No entanto esse investimento não cria inteligência, basta ver o que se passou com a sede deles que não conseguiu ser inaugurada dia 25 de fevereiro. O alcatrão das estradas foi feito em uma semana e está muito alto, não criando condições para os esgotos. As chuvas começaram a dar forte e feio e aquilo já está tudo cheio de pedras que vieram com a lama. Não dou mais de seis meses para aquela merda ter buracos. Para apresentar bem até pintaram linhas no chão.... Resultado dia 25 de fevreiro o presidente não foi inaugurar porra nenhuma porque as mobílias não tinham chegado a tempo e faltava ainda muito para acabar, talvez dia 4 de Abril...


TPA 2

O melhor dos melhores. A programação da TV foi confiada a várias empresas de direito angolanas mas com capitais portugueses. Quem esta atrás dessas empresas é a Tchizé e um irmão. Um pequeno relato dos programas lançados que tu vais ter a oportunidade de assistir:
Sexolândia, apresentado pela Tatiana Durão,
Tchilar apresentado por um casal,
e festas apresentado por uma gaja com ar de puta....
A linha editorial é que Angola é um pais do caraças e que é so Tchilar. Depois entre as emissões fazem entrevista do povo que diz adorar essa vergonha nacional.
O problema foi tão grande que a assembleia nacional foi reunida a pedido dos deputados da UNITA para ter esclarcimentos sobre a pseudo privatização. A fazer zapping caí nessa tristeza. A bancada da UNITA levantou preguntas claras alguns melhores do que outros. A tristeza foi como o MPLA respondeu, cheio de arrogâncias e muitas coisas ainda. Isso tudo foi salvo pela prestação de uma deputada que conseguiu falar claramente e o vice-ministro da comunicação social.


Os ghettos

È incrível parece que crescem todos os dias, Palanca, Talatona (colados aos condomínios de luxo), Viana, Hoji ia Yenda, Cuca, Cassequel etc... É tudo louco sem água, sem luz sem condições sem posto médico, sem estrada, com lixo, com fumo, com criminalidade com confusão, com barulho, com táxis que fazem corridas cada vez mais curtas.
Temos uma empregada e porque tento ser correcto dou-lhe 26 000 akz com mais 6000 de táxi. Mas quantas pessoas trabalham aqui e que não têm dinheiro para apanhar táxi. As estradas fodidas aumentaram o valor de uma corrida. Mas se me lembro bem, nós todos pagamos taxa de circulação e tem muitos carros que pagam a taxa máxima, mas aonde é que vai esse dinheiro ????

<<fim de citação>>

Noticias alternativas e vindas da tripa
fikem bem
 (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2008/03/18 - 20:49:31
2 - Prezados angolanos! Estudem com detalhes a história recente do Brasil, a partir da década de 1970, e terão um bom retrato do que está ocorrendo agora em Angola. Infelizmente, este é o modelo capitalista de desenvolvimento com subdesenvolvimento. É difícil, mas necessário. Antes, não pensava assim. Porém, hoje concordo com Fridmann: não existe almoço grátis. Para que o Estado angolano tenha dinheiro, é preciso que a economia em geral cresça, não importa a que preço. Lembrem-se também de outro ditado perigoso: casa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.
Carlos Roberto - São Paulo - Brasil
rebelu@yahoo.com (Comentar)

Escrito por: Carlos Roberto em 2008/03/24 - 17:50:21
profile
3 - Estas a falar de Milton Friedman? O mesmo que sugeriu que se excluisse do seu posto democraticamente conquistado Salvador Allende e que apoiou Pinochet? O mentor da Thatcher? O mesmo Friedman cujo aconselhamento foi seguido tao a risca na argentina, o melhor aluno do FMI, cujo fim conhecemos bem? Qual das partes da historia das ditaduras sul americanas que se inspiraram na teoria economica deste senhor e q sao NECESSARIAS? O enriquecimento de minorias e a formaçao de uma debil classe media? Com que custos? Repressoes a manifestaçoes pacificas? Esquadroes da morte? Aumento da pobreza? Da marginalizaçao da classe plebeia? Aumento da criminalidade? Trafico de drogas com conluio de todos?

So espero que nao estejas a falar de Milton Friedman e que esses nao sejam os males necessarios q nao desenvolves no teu post.
VIVA HUGO CHAVEZ!

KulpadoKomum (Comentar)

Escrito por: (R)EvolucaoEmAngola em 2008/03/27 - 02:08:19
4 - E tas a comparar o Milton Friedman c o Ze' Du' ou quie? (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2008/05/16 - 10:45:21
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