Tolerância zero
O nosso apagado e já bastante desgastado presidente, teve recentemente mais um rasgo de genial homem do bem, de simples servidor do povo, rogando aos seus militantes, devidamente fardados com as cores do partido (que são também e nada por acaso as do país), que fossem mais zelosos do erário público e sugerindo uma “espécie de tolerância zero” à corrupção, aquando da última reunião plenária do M antes da realização do seu 6º congresso.
Logicamente que, no dia seguinte, a frase fez manchete dos pasquins (como ele próprio os define) que circulam por Luanda e que começam a ser tantos que já poluem. Foi e continua a ser assunto de conversa nos quintais e salões familiares e continua a ser aquele assunto que se prefere não puxar em conversas informais entre pessoas que escapam do mais apertado círculo familiar. Mas não é necessário um grande exercício intelectual para compreender que esta é mais uma intervenção inócua para juntar à pilha acumulada no período pré-eleitoral (1 milhão de casas em 4 anos?).
Vamos lá ver: se o presidente se levasse a sério, ele teria entrado naquela sala com um plano montado para a teatralização do seu suicídio político, proferindo as palavras “tolerância zero” seguidas de um gesto de cabeça afirmativo, após o qual os seus kapangas bloqueariam todas as saídas e dariam início a detenção in loco da maralha lambe-botas ali presente, sendo ele próprio o primeiro a estender os braços para baixo com os punhos encostados para que lhe fossem colocadas as algemas. Todos kuzú! Prisão preventiva! Toca a provar de onde sai o dinheiro para adquirir aquela absurdidade de bens materiais que não se cansam de esfregar desavergonhadamente na cara dos despojados deste país, legítimos donos desse dinheiro usado indevidamente para fins pessoais! E os príncipes e princesas (alguns deles desprovidos sequer de um diploma) que ao longo desses anos acumularam uma herança antecipada e começaram a comprar o país aos poucos construindo nele a perpetuidade do império “dos Santos”? E os filhos destes e daqueles que, no sempre arbitrário abuso do poder que lhes foi conferido, atropelam e partem pernas e violam e matam (por acidente ou não) comuns cidadãos e fogem para o exterior até a “poeira assentar” e depois voltam e continuam a passear-se impunes, com algum tipo de imunidade à lei que mais uma vez prova só ser concebida para os pobres e desprestigiados.
Infelizmente não podemos, nem devemos, cair na tentação de aplaudir o discurso do arquitecto da paz, pois ele não é acompanhado de consequências reais para os prevaricadores. Não foi posta em marcha uma caça às bruxas, não houve equipas especiais de contabilistas e inspectores a serem montadas para apurar desfalques, não há comissões da verdade e reconciliação, não há tabela de punições indo de multas até múltiplas penas máximas de acordo com a gravidade do desvio e impacto social na vida dos angolanos privados do seu dinheiro e da felicidade que este lhes poderia comprar em forma de carteiras, cadernos e medicamentos, na realidade, não há nada a não ser o eterno vazio das palavras.
Zé Kitumba pára já de te emocionar ao microfone e lançares promessas bonitas ao vento. Sabemos que estás já a fazer ginástica eleitoral e tens te saído bem nisso, mas não penses que a tua maínga de ilusionista pode funcionar para sempre. Queres resguardar o pouco que ainda te pode sobrar de respeito? Entrega-te à justiça! Isso é que era. Limpavas quase sozinho a má imagem dos líderes africanos incompetentes e corruptos, que ganhou terreno depois das independências. Podias até ter o teu nome ao lado do do Mandela no quadro de honra dos africanos dedicados. Até eu iria pavonear-me com a tua t-shirt com a tua foto de quando ainda ias nos teus gloriosos 40s.
KulpadoKomum