Saturday, September 20, 2008

ELEIÇÕES DIA 5 de SETEMBRO

Ambiente antes das eleições

 Antes do dia 5 de Setembro o ambiente era calmo. Vivia-se, sem dúvida, num ambiente de campanha, com bandeiras de vários partidos espalhadas pela cidade (principalmente do MPLA e da UNITA). As pessoas não tinham medo de sair à rua ostentando as cores do seu partido, quer fosse do “M” quer fosse da UNITA, quer fosse outro qualquer. Depois de 1992, não me lembro de ver pessoas a abanarem bandeiras da UNITA em pleno Kinaxixe, à plena luz do dia. Isso só demonstrou que realmente, houve um respeito mútuo entre os militantes e simpatizantes dos diferentes partidos (embora toda regra tenha a sua excepção). Cada partido teve, todos os dias durante o período de campanha, direito a 5 minutos de antena na TPA. Aí, podiam expor os seus programas eleitorais de maneira a que Angola inteira visse. Foi, na sua grande maioria, um tempo deitado fora e uma demonstração da aberrante incompetência da oposição, claramente desorganizada e fraca. Mesmo a UNITA desiludiu, o partido que supostamente deveria fazer frente ao MPLA, pois apresentava programas extremamente fracos e desprovidos de conteúdo. O “M” não precisava de muita coisa para fazer melhor figura do que todos os outros. Bastava apresentar o programa “Angola em reconstrução” (que dava logo a seguir às campanhas eleitorais), onde apresentava todas as obras que têm sido feitas em Angola, e pronto, era o que bastava. Ninguém esperava uma oposição tão fraca. Contudo, houve alguns “incidentes” que “apimentaram” as campanhas, nomeadamente, o “incidente BDA”. O que aconteceu? Um indivíduo apresentou-se ao BDA (Banco de Desenvolvimento de Angola) como sendo um jornalista e dizendo que possuía consigo um documento capaz de deitar abaixo o BDA assim como o MPLA. O documento em questão, assinado pelo secretário-geral do banco, autorizava o levantamento de 44 milhões de USD, para fins de financiamento da campanha do “M”. Ora, esta história deu maka. O suposto jornalista foi preso (digo suposto porque as autoridades afirmaram que não o era), por possuir consigo um documento falso. A direcção geral do BDA fez um comunicado provando por A + B que o documento era falsíssimo, com inúmeras falhas e descuidos. O Bureau Politico do MPLA também fez um comunicado, acusando a UNITA de manipulação. Enfim, esta história não foi muito mais longe, cada um tirou as ilações que quis, uns acreditaram outros não, mas a campanha continuou… E continuou com o presidente na linha da frente. Depois de muitos e muitos anos de silêncio, o presidente estava em todo o sítio, falando para todos os órgãos de comunicação social. Viajou pelo país afora, inaugurando obras, visitando instituições, fazendo comícios, enfim, o pacote todo.

 O dia D – Eleições

O dia amanheceu cedo. Milhares de pessoas em Luanda levantaram-se com o cantar do galo e dirigiram-se para as respectivas assembleias de voto, pensando que se conseguissem votar cedo, durante o restante dia poderiam acompanhar o resto das eleições pela televisão. Enganaram-se. As assembleias de voto (que supostamente abriam as 07:00) ao meio dia ainda não estavam abertas. Foram inúmeras as assembleias que não abriram ou que abriram e voltaram a fechar por falta de material: “o papel acabou”, “Não temos cabines”, “Não temos mais tinta”. Enfim, em termos de logística, aquele começo de eleições era um autêntico desastre. Os cidadãos que podiam, percorriam a cidade toda à procura duma assembleia que funcionasse devidamente e que não tivesse uma fila de 500 pessoas. “Eu passei pelo Miramar e não vi ninguém”, “Disseram-me que na Universidade Agostinho Neto na Marginal estava bem organizado”… E assim ia sendo, cada um “desenrascava-se” como podia, até mesmo para votar, afinal não é assim que é para quase tudo em Angola? Aparentemente, esta desorganização só aconteceu em Luanda, pois nas outras províncias as pessoas puderam votar normalmente. Na televisão, o responsável do CNE, Caetano Sousa, assumiu a responsabilidade pelas inúmeras falhas e prometeu melhorias para o período da tarde. Dito e feito. Durante a tarde, foi facílimo votar em muitas assembleias de voto. Contudo, e para não existirem dúvidas que todos os luandenses poderiam votar, foi dado mais um dia de voto: o dia 6 de Setembro.

 Incidentes

Os problemas logísticos marcaram negativamente as eleições. Depois de tanto investimento, quer financeiro quer de tempo, era quase inconcebível que faltassem boletins de voto ou cabines para votar em muitas assembleias. Mas como foram as primeiras eleições em 16 anos, podemos e devemos ser condescendentes com tão debilitada organização. A UNITA pediu impugnação, que foi negada pelo CNE. Problemas mais graves aconteceram:

1- A ausência de cadernos eleitorais nas tribunas de voto, foram sem dúvida uma grave falha.

2- Foi negado pelo CNE, à última da hora, o credenciamento de cerca de 400 observadores da sociedade civil (observadores apolíticos). Ou seja, o CNE aguardou até à véspera das eleições (apesar da pressão que os observadores tentaram fazer) para dizer que havia problemas em muitos dos dossiers. Uma manhosa demonstração de má vontade por parte do CNE, que credenciou (também à última hora) centenas de observadores de associações cuja independência financeira é altamente duvidosa.

Estas falhas estiveram na base das duras críticas lançadas (talvez prematuramente) por alguns observadores internacionais (como por exemplo Luisa Morgantini). Estes observadores foram severamente criticados e descredibilizados, tendo a italiana Morgantini, chegado mesmo a alterar as suas declarações, dizendo mais tarde que “apesar de algumas falhas, as eleições em Angola foram livres e justas”. E sim, a UE declarou que foram eleições transparentes e justas. Haverá interesse estrangeiro? Ou terá sido mesmo assim? Já não interessa. O que interessa é que o vencedor não foi contestado por ninguém. Todos os partidos aceitaram condignamente a derrota e felicitaram o vencedor. E o vencedor foi…

Após Eleições

 … o inevitável, o incontornável, o único… MPLA. Por uma margem absurda: 81,64%. Obteve 191 dos 220 lugares no parlamento (mais do que suficiente para aprovar a nova constituição, assim como todas as leis que serão aprovadas nos próximos anos). Uma esmagadora maioria dos angolanos votaram no “partido do coração”. Uma enorme derrota para a UNITA, que durante a campanha demonstrou demasiada febrilidade e que pagou bem caro na hora H. O povo escolheu, seja feita a sua vontade.

N’Manga

Resultados Eleitorais:

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 13:25:45 | Permalink | Comments (2)