Quarta-feira, Maio 21, 2008

Reportagem TVI : "Angola, um novo sonho"

A reportagem que se segue, foi emitida na TVI em Portugal, há cerca de um ano.

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Escrito por (R)EvolucaoEmAngola em 12:12:34 | Link permanente | Comments (23) |

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Horror do vazio

O texto que se segue foi escrito pelo Pepetela, um dos mais famosos escritores angolanos. Achamos interessante e pertinente publicá-lo, abrindo espaço ao debate de mais um assunto tão polémico como contemporâneo.


"Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se
apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação
a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo
Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao
longo do mar. Não é forçosamente para amealhar umas comissões, como
imediatamente pensam os nossos cérebros borrados de preconceitos,
embora uns tantos aproveitem. Nada de novo, afinal: o mundo está cheio de
processos por causa do imobiliário e o cinema e a literatura até já
esgotaram o tema. O que me preocupa é muita gente estar sinceramente
convencida que isso é que é bonito e assim é que será viver bem. Têm
horror ao vazio que nas suas cabeças significa uma praça, um jardim, um
parque, um desperdício de espaço que ficaria melhor com uma torre no
meio (antes dizia-se arranha-céus, mas reconheço o exagero americano ao
inventar o termo, porque os céus não têm costas, são da natureza dos anjos,
e ninguém imaginaria um edifício a arranhar as costas de um anjo). Torre é
melhor, lembra logo aquelas construções onde se enfiavam os prisioneiros
para morrerem lentamente, como a célebre Torre de Londres, ou onde se
aninhava o povo da Europa medieval para se defender de ataques. Torre
sim, pois os seus utentes/prisioneiros vivem no medo de sair à rua, de viver
a cidade, enclausurados e protegidos da miséria que espalham à volta de si.
Queixamo-nos do trânsito na baixa da cidade (não só na baixa,
sejamos justos) e nem sempre escapamos de lá cair, porque ali está
concentrado mais de metade do capital financeiro e dos serviços do país. E
querem fazer mais torres, para atrair mais gente e mais carros? Que as
torres vão ter parques de estacionamento, dizem os defensores das ideias
futuristas. O problema é entrar ou sair dos parques, porque as ruas estão
atulhadas de carros. Claro que há uma solução do mesmo estilo: fazer as
ruas da baixa com andares, género auto-estrada em fatias sobrepostas, ou
até com viadutos por cima dos prédios, a arranharem as nuvens. Isso seria
um arranhanço útil. E já agora peço, façam um túnel por baixo da baía ou
uma ponte a ligar o bairro Miramar à Ilha, assim chegamos à praia em
cinco minutos, como era há vinte anos atrás. Como de todos os modos a
ideia geral é dar cabo da baía e da Ilha, também tanto faz, mais ponte
menos ponte… Suponho também que já deve haver negociações para se
tirar a Igreja da Nazaré do sítio onde está, a ocupar indevidamente um
espaço nobre para mais uma torre. Uma pequena concessão não fica mal,
mantém-se a igreja na cave do edifício. A História que se lixe, não foi a
lição da destruição do palácio de D. Ana Joaquina? Então continuemos.
Neste afã de ocupar todos os espaços, proponho também acabar com o
prédio dos correios, bem feio e sem valor arquitectónico por sinal, e já
agora com a praceta à sua frente, outro desperdício de espaço. E aquele
compacto e azul edifício que serve a polícia? Um quarteirão inutilizado! A
polícia pode ocupar um andar da nova torre. Com menos agentes, claro,
para se fazer encolher o Estado, assim mandam os compêndios do
liberalismo económico, nossa nova Bíblia.
Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções
vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar
gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da
subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser
lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os
prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os
responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem."

Pepetela
Escrito por (R)EvolucaoEmAngola em 13:54:19 | Link permanente | Comments (18) |