Racismo: parte I

No decorrer dos meus estudos em psicologia social e das organizações, estudei bastante preconceitos e estereótipos. Estou certo que o tema do racismo é detentor de um estatuto lendário dentro de ambos os conceitos. Ainda assim não sou sociólogo nem antropólogo portanto não me vou estender muito sobre os aspectos científicos do racismo, a sua génese ou definição. Todos sabemos o que é, mesmo que não consigamos colocá-lo em Palavras. Todos já o sentimos ou perpetramos actos que se podem chamar de racistas.
Antes de me debruçar sobre Angola especificamente acho que faz mais sentido, dar a minha perspectiva daquilo que é o racismo e os passos que nos levam até lá. “O RACISMO É INEVITÁVEL”, a frase é certamente controversa, e analisada a superfície pode chocar. Mas aprendi que o nosso processo cognitivo, ou a forma como processamos a informação do mundo exterior é feita a partir de selecção e redução da informação, ou seja há tanta informação no mundo que é impossível conhecermos tudo, portanto seleccionamos a maior parte das coisas que sabemos e reduzimos aquilo que não podemos conhecer a partir da experiência prática com abstracções, para depois categorizarmos as coisas, ou seja, fazer com que elas façam sentido na nossa cabeça. E aí é que entram os estereótipos, que são precisamente a análise redutora de um grupo, nós percepcionamos o mundo e as coisas de uma forma necessariamente redutora pela quantidade massiva de informação que existe. Lógico que temos a capacidade de ser experts e conhecer com mestria fenomenal as coisas que nos interessam, mas tudo o resto vem em caixas de categorias, reduções e estereótipos.
Por exemplo, eu nunca fui à China, mas a noção que tenho é que os Chineses são baixinhos, bons no karaté, têm olhos rasgados, comem bué de arroz branco e que são colectivistas e trabalhadores. Assim como é essa a noção que qualquer um de vocês tem, porque há precisamente esse estereotipo, essa redução inevitável da realidade, por serem esses os dados do chinês em media. Esta linha de argumentação, diz-nos que os estereótipos ou redução de informação sobre determinado grupo ou categoria é inevitável portanto, nesse contexto “O RACISMO É INEVITÁVEL”. Todos nós somos racistas quando na bifurcação preferimos andar no lado da rua do casal caucasiano ao invés de irmos para o lado onde repousam os manos de pele escura, tu és racista quando te ris das anedotas do Fernando Rocha, eu sou racista quando um cigano vem ter comigo e dou por mim a abanar a cabeça em negação a negar trocos sem que o mesmo sequer tenha aberto a boca. A redução da realidade e inevitável.
O que não nos podemos esquecer numa abordagem mais filosófica e das coisas mais bonitas que há neste planeta. A singularidade das coisas, das pessoas. As pessoas não são grupos ou categorias são pessoas, cada um e apenas 1 e só independentemente da raça, religião cor dos olhos que partilhe com determinado grupo. O Yao Ming é chinês, assim como há bué de chineses que não gostam de arroz. Eu sou Angolano e não gosto de funge. A atitude e forma como sentimos percepcionamos um mambo, o comportamento e a manifestação da atitude. Temos de treinar a nossa atitude, e mudar o nosso comportamento em relação ao racismo. Os estereótipos estão lá, mas devem servir como uma luz, uma pista não como uma sentença ou dado adquirido. É estúpido fingir que os estereótipos não existem para evitar ser-se racista, mas é mais estúpido ainda ignorarmos a individualidade de alguém, para ser-se racista e tentar confirmar um estereotipo reduzindo-nos a ignorância.
O Brasil é dos países mais ricos e diversos culturalmente que já vi, e ao mesmo tempo o pais mais racista que já vi. Angola é dos países mais ricos e diversificados que África possui e ainda assim sofre severamente de racismo. Os critérios de entrada na discoteca, são dos que mais gosto para exemplificar os estereótipos, mesmo porque já fui vitima deste exemplo varias vezes. Os estrangeiros(brancos/mulatos) têm dinheiro
Logo são os candidatos naturais para entrarem nas discotecas, porque consomem muito e são civilizados. Segundo esta lógica, quem é proveniente de Angola provavelmente não tem emprego, ou seja é pobre e não vai consumir e não tem educação, ou seja é marimbo e vai provocar lutas e partir os bens da propriedade. Faz sentido, portanto o que os porteiros das discotecas fazem, todos escuros e grossos (e cá estou eu a estereotipar dentro da explanação do estereotipo) é deixar passar todos os claros e banir todos os escuros que não são celebridades, se é que se pode dizer que Angola tem tal coisa. Não interessa a forma com que essa pessoa se apresenta, se esta bem vestida, se apenas se quer divertir como os estrangeiros. O que interessa é a cor. Portanto toca a ser racistas, e mais triste ainda, legitimar mais direitos de entretenimento aos estrangeiros do que a ti, é como se esses porteiros estivessem a dizer: “Olá estrangeiro entra na minha casa, dorme na minha cama que eu durmo no chão, bebe a minha capuca que eu bebo agua, come o meu funge que eu passo fome e não te esqueças de f**** a minha bela mulher enquanto eu fico sem nada,” e a desvirtuação do ditado “a minha casa é a tua casa” para “a minha casa deixa de ser a minha casa e passa a ser a tua casa”. Como estes casos de racismo há muitos outros. O clássico complexo de superioridade dos mulatos em relação aos negros. A redução ilusória que os negros fazem, já vi muitos e muito bem formados, a argumentarem que os mulatos é que são detentores do poder e capital, quando não é verdade e assim. O habito dos negros e mulatos Angolanos serem racistas com os brancos muitas vezes sem fundamento, o que por ser uma tema sensível pode-se justificar. O que não se justifica é o racismo para com os chineses da mesma forma que os portugueses foram racistas connosco quando trabalhámos lá. Muitos dos casos que originam racismo são reais, mas não são regras, cada individuo é singular, tem livre arbítrio e o seu carácter não deve ser automaticamente categorizado e rotulado pela raça ou grupo a que pertence. Temos de descobrir quem somos e como queremos ser vistos pelos outros. Aprender com o Ruanda com o Quénia, é ver o que é que o ódio pela diferença trouxe a essas pessoas. Pensem nisso Angolanos, o futuro do mundo passa pela globalização pela capacidade de nos relacionarmos e negociarmos com outras culturas. Se não nos conseguimos relacionar connosco como é que vamos sobreviver no mundo globalizado?
Salvamarte
Branco ou mestiço? Perguntou-me a senhora que estava a preencher o formulário do meu bilhete de identidade. Branco, mestiço e negro são as 3 raças que podem ser colocadas no bilhete de identidade Angolano. Alguém muito ingénuo poderia dizer, "não existe racismo em Angola". E eu responderia a essa pessoa : olhe para o bilhete de identidade, e veja a prova mais que oficial como o nosso pais é um pais racista e que fomenta o racismo.
Motivos por ser um pais racista? São dos mais diversos, sendo a colonização para mim o "motivo base" do racismo em Angola, e em todos países do Mundo. Todos países do mundo? Sim, todos os países do mundo! A colonização não resultou só na exploração e ocupação de um povo, mas também resultou na "migração" desse povo durante anos e anos. Os que foram ocupados e explorados fora misturados como é o caso de Angola. Misturados coisa que não aconteceu muitos com os outros países colonizadores, sendo Portugal o mais "mente aberta" quando se tratava de "conhecer" melhor o povo ocupado. E os que colonizavam e que são muitos deles conhecidos como países do primeiro mundo hoje em dia, não estavam contentes por terem sobre sua guarda os povos explorados, portanto resolveram começar a "trazê-los" para os seus países "super-desenvolvidos" onde o ser humano não era um "selvagem",mas sim um "civilizado". Isto tudo mesmo com o fim da escravatura e da colonização deixou marcas e vestígios enormes na nossa sociedade.
O "branco" hoje é olhado de lado, porque lembra os tempos da colonização e vai passar o resto da vida dele a ouvir : "vai lá p'ra tua terra seu branco de m****!!!" O mesmo "branco" ira olhar de lado para os "mestiços" e "negros", porque ainda carrega com ele inconscientemente o pensamento colonialista, onde ele é o civilizado, e os outros são um bando de selvagens que tão a destruir o pais. O "mestiço", é olhado de lado pelas outras duas "facções" porque cometeu o erro de ficar no meio, quem mandou ficar em cima do muro? E olha de lado os outros, porque se acha superior ao "negro" mas não se sente suficientemente respeitado pelo "branco". E finalmente o "negro" e olhado de lado porque sempre foi considerado inferior e o que tinha de ser "assimilado". E também olha de lado os outros dois grupos porque um ("mestiço") ta em cima do muro e o outro ( "branco") não ta na terra dele. E assim nos encontramos neste ciclo VICIOSO que fomentamos claramente em documentos oficiais.
Hum..e já me esquecia, a resposta que eu dei a senhora que tratava do bilhete foi : EU SOU ANGOLANO!! e ela deu-me um bom xoxo à moda da terra e escreveu RACA: MISTA.
Paz,
Mukuolua Kinamatos

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1. Por um t
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