Wednesday, November 19, 2008

Guerra no Congo

 Já todos devem estar a par da “nova” guerra no Congo. Nós, africanos, sentimos uma tristeza que nos invade, assim como um sentimento de exaustão. “Guerra? De novo?” Só nos apetece desligar a televisão, ou deixar de ler o jornal, fechar a cortina que dá vista para este panorama de morte que insiste em raiar à nossa frente. De tanto desalento, já nem queremos saber o porquê desta guerra, mas a vontade de perceber é sempre maior e mais forte.

O que se passa no Congo?
  
No passado…

A História do nosso continente está infelizmente manchada de sangue, e uma das suas piores páginas é o genocídio no Ruanda (que inspirou o filme americano Hotel Ruanda) em 1994, onde cerca de 800 000 tutsis foram assassinados pelos hutus. Pois bem, em 1997 quando os tutsis tomaram conta do  poder no Ruanda, eles foram atrás dos dissidentes hutus que se tinham refugiado no Congo, mais precisamente na região do Norte do Kivu. Cerca de 300 000 hutus foram dados como “desaparecidos”. Nesta altura o exército ruandês  “aproveitou o balanço” e contribuiu para o golpe de estado, tirando do poder Mobutu e pondo Laurent-Kabila.

O que tem acontecido?

O exército de rebeldes hutus ruandeses ficou no Congo. Eles são cerca de 10 000 e continuam armados. Recusam-se a sair do país para voltar para o Ruanda, e recusam-se também a largar as armas e serem integrados no exército congolês. Na região do Norte do Kivu há todos os meses cerca de 15 mulheres violadas pelos soldados. A população encontra-se completamente desprotegida, uma vez que os militares do governo, que não têm grandes condições, estão demasiado ocupados a fazer uns “biznos”: uns comandantes vendem madeira, outros carvão, etc, etc. O problema vem de cima, ou seja, se os governantes estiverem mais ocupados a porem bufunfa no bolso do que a darem todas as condições aos militares, sejam elas económicas, logísticas, etc., os militares por sua vez, vão-se preocupar com eles próprios e não com a população. Consequência: A população fica completamente desprotegida e à mercê dum exército hutu que faz a sua lei no Congo. Alem de violarem muitas mulheres da população, os rebeldes hutus pilham e roubam.  

E o que isso tem a ver com a guerra?

Tudo. Pois o líder do CNDP,(Congresso Nacional para a Defesa do Povo), Laurent Nkunda, um tutsi que lutou contra os hutus no Ruanda em 1994, diz que não vai cessar fogo enquanto os hutus permanecerem na região do Norte-Kivu. Nkunda tem uma longa lista de antecedentes de guerra e é acusado de inúmeros crimes de guerra, nomeadamente do massacre na região do Bukavu em 2004. Nkunda acusa o governo de Kabila de conivência com os rebeldes hutus e de “traição ao povo congolês” e apela a todos os congoleses a “levantarem e lutarem contra o governo de Kabila”.
Embora não sejam muito numerosos, os homens de Nkunda estão equipados com tecnologia de ponta: rádios último grito, tanques militares, etc. Como têm acesso à esse material? Fala-se do apoio do governo de Paul Kagame, presidente do Ruanda, embora este o negue peremptoriamente.

O que não se vê…

Pois bem, nada é por acaso. A região do Norte-Kivu é muito rica em minérios. BUM! Aqui está um ponto comum em todas as histórias (ou quase todas) de guerra que conhecemos. Passa-se sempre numa região com alto potencial económico e muito cobiçada. Será que o general Laurent Nkunda quer mesmo defender “os seus”, ou estará ele a pensar num cifrões? O Ruanda só ganha: o presidente tutsi “limpa” os hutus causadores do genocídio e ainda ganha uma região riquíssima.

Como em todas as guerras…

… quem paga é o povo. Cerca de 1,5 milhão de pessoas deixaram as suas casas. Mães com crianças às costas correm desesperadas, fugindo das balas. A condição de vida dessas pessoas, que já era degradante, atinge hoje um nível miserável.  Até quando essas guerras tribais vão continuar? Alimentadas por um ódio e uma ganância, elas só trazem o desespero e a morte. A vida humana tem um valor, e nós africanos, temos de aprender duma vez por todas, que antes de sermos hutus, tutsis, peuls, kimbundus, ovimbundus, somos angolanos, guineenses, ruandeses… africanos. E enquanto isto não estiver claro, as guerras não vão parar.

O conflito regionaliza-se

O governo de Angola e do Zimbabué enviaram tropas militares para ajudar o governo de Kinshasa. Provavelmente, o governo do Ruanda enviará também tropas para ajudar os rebeldes de Nkunda. A situação agrava-se.

                                    N’Manga

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 12:00:31
Comments

2 Responses to “Guerra no Congo”

  1. Obrigado pelas informações.
    Ótimo blog, vou vistar sempre!

    Saudações do Brasil

    PAZ

  2. rogér says:

    é uma pena…muito triste mesmo.

Leave a Reply