Quénia e Angola : realidades paralelas?

A situação em que se encontra Angola hoje, não é exclusiva: um país que economicamente tem crescido bastante e muito rápido. Contudo essa riqueza poucos vêem. O governo ignora e menospreza o povo, que se tem mostrado bastante pacífico e submisso. Muitos dizem : “A situação em Angola é estável”. Sim, mas até quando? Até quando o povo ficará calado, vendo toda a sua riqueza sendo pilhada? Admito que fui uma das pessoas que ficou espantada com a notícia das manifestações violentas no Quénia, um país reputado pela sua estabilidade e pelo seu alto crescimento económico. O que aconteceu? Os média preferem reduzir tudo a um conflito etno-tribal, obviamente para continuar a passar a imagem de “esses africanos são uns selvagens”, mas a verdade é que as coisas são mais complexas do que isso. Vamos tentar mergulhar nesse país e analisar o que se passou.
As eleições de 27 de Dezembro de 2008, disputadas entre o presidente em exercício Mwai Kibaki e pelo membro da oposição Raila Odinga, foram altamente contestadas pela oposição, pelo Kenya Domestic Observation Forum, pelo KHRC e pela União Europeia. Os resultados dessas eleições foram favoráveis a Mwai Kibaki, embora o presidente da Comissão Eleitoral, Samuel Kivuitu, tenha afirmado numa entrevista ao jornal queniano The Standard, que ele foi pressionado para revelar rapidamente o vencedor, numa altura em que ele nem sequer podia afirmar se Kibaki tinha realmente ganho.

Depois de anunciado o resultado, a oposição organizou várias manifestações pelo país. Essas manifestações(que têm sido altamente reprimidas pela polícia) rapidamente saíram do controle, resultando na morte de 300 pessoas e dezenas de feridos, assim como na perseguição aos kikuys, etnia a qual pertence o presidente Kibaki. Uma igreja ocupada na sua maioria por mulheres e crianças (pertencentes à etnia kikuyu) foi queimada por jovens da etnia luo (do Raila Odinga). A repressão policial tem sido extrema: a polícia tem disparado balas verdadeiras contra os manifestantes, tendo já resultado na morte várias pessoas.

O tribalismo está sem dúvida presente, mas será ele o único motivo para tal catástrofe? Os analistas do Quénia têm outra explicação: é certo que certos grupos étnicos têm sido perseguidos, contudo a origem do problema encontra-se no sistema económico queniano: um capitalismo selvagem que privilegia a concorrência, o poder, a riqueza e que marginaliza todos os “outros”, deixando-lhes apodrecerem num musseque qualquer. Em Nairobi, 60% da população vive em musseques (que não estão muito longe das zonas mais “finas” do país). Segundo um relatório publicado pelo SID (Society for International Development) de Nairobi (Pulling Apart: Facts and Figures on inequality in Kenya), o Quénia é o 10º país no mundo com maior desigualdade entre os ricos e os pobres, 5º em África. Segundo o relatório do PNUD, os 10% mais ricos do país controlam 42% da riqueza, enquanto que os 10% mais pobres controlam 0,76%. As disparidades alastram-se por todos os sectores: saúde, educação, etc. Em certas províncias do país, há um médico para 200 000 habitantes.

É importante relembrar que o Quénia é uma das maiores economias da África subsariana. Contudo, esse crescimento económico beneficia bancos, agências de viagens, agências de comunicação, enfim, beneficia o lucro em vez de criar postos de emprego e erradicar a pobreza. Os mais pobres têm cada vez menos poder de compra. Kibaki concentrou-se no desenvolvimento económico, negligenciando as desigualdades. Vendedores ambulantes foram perseguidos (como em Angola), muitos jovens encontram-se desempregados, a corrupção (que Kibaki prometeu erradicar durante a sua primeira campanha) atingiu níveis record. Tudo isso fez do Quénia um barril de pólvora pronto a rebentar. O povo continuava a ser ignorado, em benefício do tão desejado lucro e crescimento económico, que no fim só traz mais pobreza e desespero à população, que já se sentia completamente abandonada e traída. Sou o primeiro a condenar o tribalismo que se vive hoje no Quénia (e em muitos outros países em África), mas também sou o primeiro a condenar essas discrepâncias e esse mania de imitar o ocidente e de prosseguir cegamente nessa desenfreada corrida ao “magnífico” crescimento económico, com gráficos bonitos e exponenciais, enquanto grande parte do povo passa fome e desespera todos os dias, só para poder ter um pedaço de pão. A situação económica de Angola é similar a do Quénia: o crescimento económico é óbvio, com prédios e prédios que se levantam na cidade de Luanda, cada vez mais altos e portentosos, mas que muitas vezes, ocupam terrenos aonde antes viviam pessoas, que terão de ir viver bem longe… bem longe da nossa vista. A presente situação do Quénia é uma ilustração do que eventualmente pode acontecer em Angola se continuarmos a pensar que a paciência do povo é infinita e que não há sofrimento que um Afrobasket não faça esquecer.
N’Manga