Sunday, January 20, 2008

Quénia e Angola : realidades paralelas?

A situação em que se encontra Angola hoje, não é exclusiva: um país que economicamente tem crescido bastante e muito rápido. Contudo essa riqueza poucos vêem. O governo ignora e menospreza o povo, que se tem mostrado bastante pacífico e submisso. Muitos dizem : “A situação em Angola é estável”. Sim, mas até quando? Até quando o povo ficará calado, vendo toda a sua riqueza sendo pilhada? Admito que fui uma das pessoas que ficou espantada com a notícia das manifestações violentas no Quénia, um país reputado pela sua estabilidade e pelo seu alto crescimento económico. O que aconteceu? Os média preferem reduzir tudo a um conflito etno-tribal, obviamente para continuar a passar a imagem de “esses africanos são uns selvagens”, mas a verdade é que as coisas são mais complexas do que isso. Vamos tentar mergulhar nesse país e analisar o que se passou.

As eleições de 27 de Dezembro de 2008, disputadas entre o presidente em exercício Mwai Kibaki e pelo membro da oposição Raila Odinga, foram altamente contestadas pela oposição, pelo Kenya Domestic Observation Forum, pelo KHRC e pela União Europeia. Os resultados dessas eleições foram favoráveis a Mwai Kibaki, embora o presidente da Comissão Eleitoral, Samuel Kivuitu, tenha afirmado numa entrevista ao jornal queniano The Standard, que ele foi pressionado para revelar rapidamente o vencedor, numa altura em que ele nem sequer podia afirmar se Kibaki tinha realmente ganho.

Depois de anunciado o resultado, a oposição organizou várias manifestações pelo país.  Essas manifestações(que têm sido altamente reprimidas pela polícia) rapidamente saíram do controle, resultando na morte de 300 pessoas e  dezenas de feridos, assim como na  perseguição aos kikuys, etnia a qual pertence o presidente Kibaki. Uma igreja ocupada na sua maioria por mulheres e crianças (pertencentes à etnia kikuyu) foi queimada por jovens da etnia luo (do Raila Odinga). A repressão policial tem sido extrema: a polícia tem disparado balas verdadeiras contra os manifestantes, tendo já resultado na morte várias pessoas.
 

O tribalismo está sem dúvida presente, mas será ele o único motivo para tal catástrofe? Os analistas do Quénia têm outra explicação: é certo que certos grupos étnicos têm sido perseguidos, contudo a origem do problema encontra-se no sistema económico queniano: um capitalismo selvagem que privilegia a concorrência, o poder, a riqueza e que marginaliza todos os “outros”, deixando-lhes apodrecerem num musseque qualquer. Em Nairobi, 60% da população vive em musseques (que não estão muito longe das zonas mais “finas” do país). Segundo um relatório publicado pelo SID (Society for International Development) de Nairobi (Pulling Apart: Facts and Figures on inequality in Kenya), o Quénia é o 10º país no mundo com maior desigualdade entre os ricos e os pobres, 5º em África. Segundo o relatório do PNUD, os 10% mais ricos do país controlam 42% da riqueza, enquanto que os 10% mais pobres controlam 0,76%. As disparidades alastram-se por todos os sectores: saúde, educação, etc. Em certas províncias do país, há um médico para 200 000 habitantes.

É importante relembrar que o Quénia é uma das maiores economias da África subsariana. Contudo, esse crescimento económico beneficia bancos, agências de viagens, agências de comunicação, enfim, beneficia o lucro em vez de criar postos de emprego e erradicar a pobreza. Os mais pobres têm cada vez menos poder de compra. Kibaki concentrou-se no desenvolvimento económico, negligenciando as desigualdades. Vendedores ambulantes foram perseguidos (como em Angola), muitos jovens encontram-se desempregados, a corrupção (que Kibaki prometeu erradicar durante a sua primeira campanha) atingiu níveis record. Tudo isso fez do Quénia um barril de pólvora pronto a rebentar. O povo continuava a ser ignorado, em benefício do tão desejado lucro e crescimento económico, que no fim só traz mais pobreza e desespero à população, que já se sentia completamente abandonada e traída. Sou o primeiro a condenar o tribalismo que se vive hoje no Quénia (e em muitos outros países em África), mas também sou o primeiro a condenar essas discrepâncias e esse mania de imitar o ocidente e de prosseguir cegamente nessa desenfreada corrida ao “magnífico” crescimento económico, com gráficos bonitos e exponenciais, enquanto grande parte do povo passa fome e desespera todos os dias, só para poder ter um pedaço de pão. A situação económica de Angola é similar a do Quénia: o crescimento económico é óbvio, com prédios e prédios que se levantam na cidade de Luanda, cada vez mais altos e portentosos, mas que muitas vezes, ocupam terrenos aonde antes viviam pessoas, que terão de ir viver bem longe… bem longe da nossa vista. A presente situação do Quénia é uma ilustração do que eventualmente pode acontecer em Angola se continuarmos a pensar que a paciência do povo é infinita e que não há sofrimento que um Afrobasket não faça esquecer.

N’Manga

Posted by (R)EvolucaoEmAngola in 23:49:00
Comments

31 Responses

  1. Anonymous says:

    Estou plenamente de acordo com o facto de não podermos continuar neste caminho de suposto progresso economico… mas a verdade é que as eleições em Angola são ja para este ano.

    Pois bem, o que aconteceu no Quénia, pode acontecer em Angola, apesar de muita gente dizer o contrario. Os problemas sociais (semelhantes ao do Quénia) estão presentes e não vão mudar até as eleições… O que pode e deve mudar é o comportamento do politicos durante a realização das eleições.

    O Dr. Filomeno Vieira Lopes, presidente da Frente para a Democracia (FpD), propôs um pacto politico entre os partidos candidatos, pois ajudaria a conter a agressão verbal e consequentemente evitaria actos de violência durante a campanha eleitoral. O actual codigo de conduta não é suficiente para evitar este tipo de situação, já que não prevê qualquer sanção aos eventuais violadores.

    Palavras do presidente da FpD:
    «Nós temos maus precedentes. Nós temos ainda um Estado partidarizado. Nós temos um código de conduta que não envolve todos os agentes eleitorais, portanto não tem regras para todos os agentes eleitorais e não prevê sanções suficientes para aqueles que tomarem atitudes que não se compadecem com a ética que deve existir nestes processos políticos»

    A verdade é que não vi nenhuma resposta por parte do governo a este apelo que me parece sensato. O barril de polvora existe e não ha maneira de o fazer desaparecer em tão pouco tempo, por isso é importante não fazer faisca!!

    As eleições devem acontecer num ambiente de confiança… e não foi isso que aconteceu no Quénia, fazendo a tal faisca que o barril de polvora estava a espera.

    Fico a espera das cenas dos proximos capitulos…

    Um abraço,
    +1Angolano

  2. (R)EvolucaoEmAngola says:

    e o q é q tens visto nos discursos/debates politicos que possa servir de pavio (e mais tarde isqueiro) para rebentar esse barril? N me parece ser um confronto centrado em argumentos etnicistas, mas pode ser que tenhas outro ponto de vista e se assim for, que tenhas a bondade de o partilhar connosco. Ja agora, que tal deixares aqui algumas das propostas EXPLICITAS no tal de “pacto” proposto e qual seria o contexto em que colocarias “agressão verbal”?
    fica fixe
    kulpadokomum

  3. Anonymous says:

    Eu diria que ao nível de realidades paralelas o brasil seria um país mais à imagem de uma possivel futura angola. A não ser que se comece a tomar medidas profundas no modo como o país e gerido é uma questão de tempo até filmes como cidade de deus tenham o palco nos musseques de luanda.

    É triste que só se tome medidas quando a situação ja se encontra completamente fora do controle.

    Abraço
    Calvin

  4. Anonymous says:

    Considero este pacto um: “Não vale tudo”

    Como politicos temos que ter mais cuidado com o que se diz… no antes e pos as eleições. De facto o confronto centrado em argumentos etnicistas, pode sem duvida ser delicado, e proferir acusações como: “é o partido dos brancos ou é o partido dos umbundus” para além de serem pobres incitam a divisão e o medo no ceio da população. Ex: Se ganhar o partido dos umbundus, vão expulsar os congos… são ideias que podem ser germinadas por debates com argumentos etnicistas simplistas.

    Não estou a dizer que não se deve debater os problemas etnicos existentes e as injustiças criadas na sociedade Angolana, mas como pessoas responsaveis o que é dito deve ser argumentado e sem ofensas do género… é o partido dos mulatos e que não quer saber dos umbundus! (Isto dito por um candidato de um partido da oposição, parece-te correcto?)

    Não deve existir responsabilidade politica?! Podem dizer o que lhes apetecer mesmo sabendo que isto pode incentivar a violência?!

    Claro que não é apenas em relação aos aspectos etnicos… ha outra coisa importante! Logo a partida é definido o orgão regulador das eleições, que vai fazer a recolha e a contagem dos votos. Para as eleições darem inicio todos os partidos têm que demonstrar confiança nesse orgão e so apos este voto de confiança as eleições podem ter inicio. No término não deve ser permitido que estas sejam postas em causa! Parece-me fundamental que a confiança não seja abalada apos as eleições… Se houver duvidas, que sejam apontadas antes!

    Pois bem, deve existir um codigo de conduta entre os politicos… pois têm uma responsabilidade extra neste processo de reconstrução e pacificação de Angola. Sinceramente não te consigo fazer uma lista expecifica com os aspectos proibidos, nem sei como ei de escrever a lista sem me tornar ambiguo.

    Achas que o pacto é desnecessario? Se concordas com a existência de um pacto quais os parâmetros que consideras relevantes?

    Pelo que percebi receias que seja um entrave a liberdade de expressão… não?

    Um abraço,
    +1Angolano

  5. Mukuolua Kinamatos says:

    Amigo Calvin,

    Essa tal realidade paralela que falas que existe entre o Brasil e Angola acho que passa um pouco ao lado. Claro, que nao posso deixar de admitir que temos sim aspectos culturais que nos são paralelos. Acredito que quando referias te a uma realidade paralela entre Angola e Brasil, tavas a falar mais dos aspectos sociais. Muito rapidamente vou falar te de duas grandes diferencas nas duas sociedades, que para mim anula os seus paralelismo sociais. Primeiro, eu acredito que em Angola nao temos um classe media e se existe ainda e extremamente, mas extremamente pequena. No Brasil ja nao, ja existe uma verdadeira estructura de classes, baixa,media e alta, apesar das suas diferencas extremas. Em relacao a violencia, no Brasil , a violencia esta ligada a droga, droga esssa que tem como seu principal cliente a classe media.Ora em Angola, a violencia nao tem origem nas drogas e nem tao pouco mais ao menos e a tal classe media nem ve-la. Portanto ja ves, se nao sao paralelas em termos sociais, poderiamos dizer que sao em termos politicos, mas nesse aspecto tambem nem perto estao,talvez na corrupcao, mas isso muito provavelmente o Brasil ganha tambem. Cultura seria o seu elo de ligacao.

    Paz,

    Mukuolua Kinamatos

  6. Anonymous says:

    Mukuola,

    se bem percebi, o Calvin não quis dizer que o Brasil é igual a Angola.
    Mas sim que se continuarmos com as mesmas politicas Angola arrisca-se a tornar um Brasil. “…no Brasil , a violencia esta ligada a droga…” tuas palavras. Se hoje não temos drogas nos musseques amanha poderemos vir a ter. Não tenho informação sobre isso (sem ser eu acredito, acho ou desconfio)se me puderes ilucidar agradecia. O objectivo de falarmos do Quénia do Brasil… é pegar nos exemplos de outros países e tentar fazer diferente, evitar os mesmos erros.
    A tua análise é estática, mas se reparares temos uma classe média crescente e ACHO q o consumo de drogas está a aumentar tb.
    Concordo que Angola caminha para o Brasil mais do que para um Quénia, e temos de ter atenção a isso. Podem chamar de crença de ingenuidade de o que quiserem mas nao quero acreditar que possamos chegar a um estado como o que se passa actualmente no quenia.

  7. N'Manga says:

    Penso que Angola tem aspectos similares ao Brasil, mas também penso que o facto de a situação do Brasil ser muito mais difundida pelo mundo inteiro (mesmo com filmes como a cidade de Deus), conseguimos encontrar semelhanças que mais facilmente veríamos na porta do lado, em vez de atravessarmos oceanos… Quanto mais conheço sobre os outros países africanos, mais relaciono com Angola. Pego o exemplo muito simples dos vendedores ambulantes, que são escorraçados pela polícia fiscal, polícia esta que se apodera das suas mercadorias e que se aproveita da situação para uns tantos desvios. Esta EXACTA situação foi vivida há alguns meses no Senegal, embora no Senegal, as pessoas tenham saído à rua para manifestarem o seu descontentamento. E também aconteceu no Quénia! Sem dúvida que os musseques no Brasil nos fazem lembrar Angola, mas se calhar se conhecêssemos os musseques do Senegal, do Mali, da Nigéria, da Etiópia, do Uganda, etc, teríamos um exemplo bem mais aproximado do caminho que Angola segue hoje.

    Um abraço,
    N’Manga

  8. N'Manga says:

    +1Angolano,

    Se bem entendi, falas dum pacto de conduta política (no pré e pós eleições). Contudo pergunto-me: Serviria a quê? Os políticos cumpririam o pacto? Porque todas essas coisas que fazem (pôr uns povos contra os outros, umas raças contra outras, etc) são feitas de legítima vontade e de plena consciência. O político que incentiva todo e qualquer tipo de discriminação, sabe muito bem o que está a fazer e porquê que o está a fazer. Penso que isso devia estar bem presente no espírito de cada político, mas não penso que um simples pacto não impediria esse tipo de “manipulação”. Embora com seja uma ideia cheia de boa vontade, não sei se é muito eficaz.

    Um abraço,
    N’Manga

  9. (R)EvolucaoEmAngola says:

    Brother +1Angolano, nas calmas, como começaste o post por anunciar o pacto do “Não vale tudo” proposto por um partido que até nem tem expressão, deduzi que estivesses ao corrente do seu conteúdo. Eu sou muito reticente quanto a esses partidos mais pequenos, acho que eles têm de passar por várias “provas” antes de começarem a ser convincentes e me conquistarem a confiança. Até agora o único pelo qual comecei a nutrir simpatia foi o PADEPA, os manos convenceram-me da militância deles (não conheço NINGUÉM que seja desse partido), apanharam muito no côco “desafiando” a autoridade semi-ditaturial cómodamente instalada no palácio e órgãos tentaculares com acções no terreno, mais além da teoria de assembleia.
    Ao contrário do N’manga, não acho que o pacto seja mais dispensável que o nosso abaixo-assinado, é uma medida que sabemos que não vai levar a nada, mas é uma amostra que existe uma preocupação tangível e uma proposta palpável para evitar que se concretizem certos receios de um “síndrome de Quénia”. Acho muito bem que seja proposto, só espero que não seja muito irrealista, isto se se desejar que ele seja levado a sério ao ponto de os partidos o assinarem e, melhor, respeitarem esse engajamento à posteriori. E logicamente que uma das cláusulas deveria ser que se EVITASSEM comentários fazendo a constumeira ligação entre competência política e origem étnica, transmitindo e perpétuando a ignorância em forma de “informação” como se de conhecimento elementar se tratasse. Os senhores que insistem em enveredar por essa via para recolher votos “étnicos” são criminosos. Esse é um tema sensível que deve ser discutido e não banalizado e prescrito em forma de pílulas de ódio como é o caso das campanhas eleitorais onde todo o golpe baixo conta.

    Calvin e Mukuolola, acho que os dois têm razão. Na verdade, podemos comparar Angola com muitos países, depende sempre dos critérios que escolhemos estudar. Há quem preveja, de maneira algo maniqueísta, dois cenários possíveis para Angola em 30 anos: o cenário Nigéria, ou o cenário Malásia (Prof. Paul Collier, Dpt. Of Economics da Universidade de Oxford), como se, imitando as políticas de um ou de outro, estivessemos condenados ao destino da Nigéria (o país mais povoado de África, 132 milhões de habitantes, mais que as da França e Espanha reunidas) ou seguros de atingir os mesmos sucessos da Malásia (beneficiária de uma situação económica muito particular naquela parte da Ásia, na altura da sua ascensão). Enfim, é sempre um bom exercício este tipo de comparações, não acho que tenha algum tipo de perigo associado, mas é preciso guardar uma certa distância e visão autocrítica das análises e não acreditar nelas como se passassem a ser religião. Temos muito que me lembra o Brasil sim senhor (o consumo de drogas pesadas na banda está a aumentar e fomos em tempos apontados como sendo um dos portos de trânsito para o tráfico internacional), também temos coisas em comum com a Nigéria, talvez menos com a Malásia, mas seja como for, o importante é termos consciência que os caminhos que trilhámos hoje já foram antes explorados por outros, era fixe que soubessemos estudá-los mais para evitar cair nos mesmos erros. Já faltou mais para nos começarmos a deslocar de helicóptero em Luanda (ver S.Paulo)!!!

    Só uma dika um coxe nada a ver… acho que a expressão “paralela” é muito pouco eficaz, pelo menos na concepção visual da coisa. Estamos a falar de coisas similares, logo CONCORDANTES, ou TANGENTES, mas linhas paralelas nunca se tocam, então nunca têm nada em comum. No entanto, todos nós caímos nessa de fazer comparações usando o termo paralelo e todos nós o interpretamos como referindo-se a traços em comum. A língua portuguesa as vezes consegue ser defeituosa né?

    Abraço a todos
    KulpadoKomum

  10. Anonymous says:

    Prezados irmãos e amigos,
    Tenho lido os vossos comentários, aprendo muito com eles, e contenho-me para não intervir no assunto porque preciso de me concentrar noutras actividades e como sei que depois de escrever aqui há sempre consequências, o direito de resposta, por isso a minha ausência. Mesmo assim vou opinar sobre este tema. Aviso já que o direito de resposta poderá ser mais longo que o normal dada a minha indisponibilidade de tempo, uma vez que escrever neste espaço requer rigor e prudência.

    No que concerne ao tema, e mais em concreto a Angola, tenho uma opinião muito pessimista, temo que em Angola se passe exactamente o mesmo, ou pior, que no Quénia.
    A falta de maturidade e a má preparação dos políticos angolanos é maior que a falta de civismo das massas e há sempre uns oportunistas que vêm maneira de lucrar facilmente com estas situações.

    A maioria destes conflitos/tumultos/motins pós eleições em África não têm como principal objectivo a subversão do poder, não querem mudar a sede do poder nem a ideologia mas visam o saque, visam atacar o sector Burguês, o banqueiro, o empresário, o industrial, os prestadores de serviços e o comerciante que está ali na esquina e tem uma montra recheada de bens que ele deseja, uns por necessidade e outros por ganância. Muitos deles se revoltariam caso se verificasse o resultado contrário, ou seja ganhe um ou outro partido há sempre tumultos e manifestações e há sempre uns instigadores a espera de ganhar legitimidade para pilhar e matar aqueles que são os seus adversários. Não se importam pela política e só querem o caos e a anarquia.

    No caso do Quénia, penso não haver quem reclame por politicas a Esquerda ou a Direita. Só querem matar e destruir por diversão e por vinganças étnicas.

    Dito isto, podemos observar que o fosso entre o rico e o pobre em Angola é colossal, o Estado que não tem força (de vontade) para garantir o bem-estar da população, não só se descarta dessas responsabilidades como também fomenta a diferença na medida em que até emite Bilhetes de Identidade onde discrimina a raça. Se oficialmente o Estado tem esta posição, qual será a do povo?

    Todos sabemos que é crescente a tensão racial e social em Angola! – Podem ouvir a letra de Dog Morras no seu último kuduro - É um barril de pólvora que vai rebentar a qualquer momento, e o momento destas tenções despoleta sempre depois de eleições.

    O passado mostra-nos que em África, quem perde eleições não as aceita e quem as ganha, na maioria dos casos, ganha-as de uma maneira pouco transparente, por isso tenho muito medo dos dias que virão.

    O povo tem fome e não tem emprego, tem doenças e não tem acesso aos cuidados de saúde e medicamentos, vive na miséria e não tem onde estudar. Estão a espera de Milagres??? A corda estica, estica, mas um dia rompe e rompe sempre do lado mais fraco, do lado da minoria, dos desprotegidos e dos bodes expiatórios. Não vou dizer quem é o lado mais fraco, vou só dizer que nunca é a Elite Governante porque esta tem a guarda a porta.
    Quem resta???

    Espero que isto tudo que aqui escrevi não passe de pessimismo infundado e que eu esteja profundamente enganado. Espero que as eleições sejam livres e justas e que sejam observadas por entidades externas para que não haja a mínima duvida que legitime os tiranos do costume. Espero quê sejamos um povo unido, maduro, e acima de tudo consciente de que o país não aguenta mais confrontos intra-nacionais, de qualquer espécie.
    Um forte abraço.

    M.N

  11. N'Manga says:

    M.N.,

    acho que pintas demasiado o quadro de negro e que exageras um bocado na tua análise. Não concordo contigo quando dizes que “não se importam pela politica, só querem o caos e a anarquia”. Acho que é demasiado simplista explicar as coisas assim. “Só querem anarquia”. Muitas vezes a utilização de argumentos étnicos tem como objectivo a busca de poder, não fora isso o que todos os homens procuram (lembra-te dos teus argumentos de jacaré). Não é pelo caos simples e puro, como se fossem irracionais.

    Cais facilmente numa análise que é a meu ver falaciosa, e que é a que muitos média querem e transmitem: “São uns animais esses africanos” e é isso que deixas implícito quando dizes “matar e destruir por diversão”. Tenta olhar um bocado mais longe e ver um bocado melhor. Quanto à raça no B.I. de Angola: Eu pessoalmente acho que devemos todos parar com as nossas susceptibilidades e deixar de nos chocar com coisas que não têm importância. A raça é uma maneira de identificar um indivíduo. Quando descreves uma pessoa que conheces a uma outra, não mencionas a cor? O BI é para isso e não vejo porquê que cada vez que se fala de raça as pessoas encolhem-se ou indignam-se logo a seguir. Da mesma forma que se põe raça no BI, põe-se altura: para identificar. Há BI que têm cor de olhos, etc. Não quer dizer que o Estado tenha assumido o racismo. E se vires bem a História de Angola, os partido que hoje controla teve desde sempre uma política racial correcta, na minha opinião, e que mesmo até hoje se mantém, embora não seja uma tarefa fácil, sendo Angola um dos países com mais misturas de África. Eu digo que em termos de racismo, Angola podia ser bem pior…
    Um abraço,
    N’Manga

  12. Anonymous says:

    N´Manga,
    Por mais que nos custe admitir nós estamos novamente “selvagens”*
    Não defendo, como muitos, que tenhamos genes diferentes que sejam responsáveis por esse estado mas sim porque vivemos num Estado sem Ordem Social: Ordem Jurídica, Ordem Moral.

    Um Estado sem leis ou que não consegue e não tem meios de as fazer cumprir e não tem meios de coercibilidade é um Estado selvagem.

    As teorias sobre o Estado têm várias correntes: Teoria Evolucionista, Teoria contratualista, Teoria Difusionista e Teoria Conceptualista, esta última mais controversa no meu entender. Todas elas explicam que nós, em determinada altura éramos uns selvagens em bandos e evoluímos para a sociedade que existe hoje. O motor principal dessa evolução para Estados foi a necessidade de ordem e de segurança que o Estado veio impor legitimamente. O Estado em Angola é oligarca e, como disse anteriormente, não consegue impor os Fins do Estado (Segurança, Justiça e Bem-estar) empurrando a sociedade para a sua regressão primitiva de condição selvagem, onde cada um tem de olhar por sí e pelos seus interesses pois o Estado não garante nada. Causas, também já apontadas por mim, como o desemprego, a pobreza, a falta de educação académica, cívica e moral, falta de saneamento e acesso a cuidados médicos adulteram os valores morais qualquer sociedade, isso fez de Angola um “Texas” onde impera a lei do mais forte e poderoso.

    Estamos habituados a olhar para os radicais fundamentalistas Islâmicos a suicidarem-se no Médio Oriente e não só, a ver massacres étnicos no Ruanda, no Sudão, no Kosovo e agora no Quénia e achamos que eles são selvagens e nós somos um povo instruído e culto. Achas que somos diferentes? Temo que não sejamos um povo assim tão “dócil” como outrora já fomos. Hoje todos querem ser “Jacarés” e não querem ser pelo método do trabalho árduo e do sucesso. Querem o caminho mais curto, o roubo, a pilhagem, o desvio de recursos públicos.

    *SELVAGEM, adj. Selvático; inculto, bravio; bárbaro; rude; ignorante; grosseiro; intratável; malvado.

    Dizes que não somos selvagens!

    Que adjectivo empregas no dia-a-dia em Luanda quando estás no trânsito e observas todas as regras do trânsito a serem desrespeitas, muitas vezes por aqueles que têm responsabilidades públicas e de impor a ordem?

    Que adjectivo empregas quando vês agentes da ordem a roubar e agredir fisicamente vendedores (as) ambulantes, as vezes grávidas ou com bebés ao colo?

    Que adjectivo empregas quando vês homens, mulheres crianças e idosos a serem brutalmente espancados até a morte, em plena via pública, quando são acusados, muitas vezes injustamente mas não é o que está em causa neste momento, de terem roubado algo?

    Que adjectivos usas quando o nosso país é dos mais ricos do Mundo e somos o 2º país do Mundo onde as crianças até aos 10 anos mais morrem por falta de cuidados médicos e de saneamento?

    Que adjectivos empregam quando todos os dias por Angola fora se mutilam e matam crianças com acusações de feitiçaria?

    Que adjectivos empregas a um povo irmão que esteve durante mais de 30 anos mergulhado numa guerra civil, intra-nacional?

    Que adjectivo empregas quando vês pessoas a serem mortas por um telemóvel?

    Que adjectivo empregas quando vês pessoas a atirarem lixo da janela do prédio ou a depositarem o lixo no fosso do elevador?

    Já chega de perguntas e constatações. Vamos só admitir o que somos e tentar mudar para sermos um povo melhor. Enquanto fingirmos que não vemos o que somos nunca vamos mudar a nossa condição. O colono foi embora e deixou-nos sem faculdades para continuar de onde eles deixaram (não estou c isso a culpar o colono pela nossa condição 32 anos depois) agora temos de nos esforçar para atingir o Estado desejado.

    Ninguém nasce educado. Todos nascemos tábua rasa e se vivermos numa sociedade civilizada e aprendermos os valores dela temos maior probabilidade de sermos civilizados. Se nascermos numa sociedade sem lei para os fracos onde os fortes sobrevivem (a lei da selva) só temos chances se nos tornarmos selvagens e fortes.

    Perante tudo que te disse classifica-me a sociedade Angolana mas na tua resposta pensa com a razão e não com o coração.

    Um abraço de mais um “selvagem”

    M.N

  13. Anonymous says:

    Gostava de acrescentar que esse meu raciocínio é apenas aplicável a Luanda e, eventualmente a mais uma ou duas Províncias de Angola. Todos sabemos que o Poder de decisão e de investimento está concentrado na Capital, “o resto é paisagem”.

    A capital é onde eu penso que, a haver incidentes e caso não se tomem medidas contrárias, será o principal foco de desestabilização social étnico racial. Primeiro em Luanda e depois, em menor escala, em outras cidades.

    Mas como já proferi no primeiro comentário, espero que esteja errado e que apenas seja um pessimista sem fundamentos.

    Abraço

  14. N'Manga says:

    M.N.,

    Diz-me então o que é ser selvagem? Admitamos que nós SOMOS selvagens: quem são os civilizados? Quem se enquadra em todas as teorias sobre o Estado que tu mencionaste? Os EUA, a França, Alemanha, Portugal? Eles são civilizados? Eles que CONSCIENTEMENTE criam riqueza às custas de vidas humanas, que IMPÕEM a sua força bélica quando bem entendem, em qualquer parte do mundo, que colonizaram povos durante séculos, que praticaram a escravatura, que inventaram a bomba atómica, criaram doenças em laboratórios… É isso civilização? Quem são os civilizados? Os que vivem nas cidades bonitas onde não se atira lixo para o chão, onde todos têm dinheiro para comprar um telemóvel portanto não precisam de roubar, que têm todos os dias pão à mesa independentemente do trabalho que tenham, que vivem no conforto das suas casinhas, mas que apesar de tudo que têm não abdicam dum milímetro do seu conforto para olharem para o lado e partilharem, ao contrário até, que ATACAM outros países para irem pilhar riquezas (nomeadamente petróleo) sem que ninguém diga nada, que fomentam guerras, que controlam e decidem quem morre ou deixa de morrer, quem controla ou deixa de controlar, quem come ou deixa de comer? São esses os civilizados? Somos nós os selvagens??? Pergunto-te eu: que adjectivos empregas tu quando vês tudo isso??

    Falas da lei da selva como se fosse exclusiva à Angola – a meu ver ela já conquistou o mundo inteiro, só que é chamada pelo seu apelido: Liberalismo.

    Um abraço,
    N’Manga

  15. M.N. says:

    Caro N´Manga,
    Era isto que eu temia. Ficar com bicho de responder e não dar atenção a outras tarefas…

    Estás a sair do âmbito do post e da minha mensagem. Falamos de Angola e nada mais. Eu não tenho que te enumerar quais são as sociedades que são perfeitas nem quais as que não são selvagens. Se quiseres argumenta tu nesse sentido. Não tenho competências nem conhecimentos para pretensamente falar das outras sociedades e penso que não existam sociedades perfeitas.

    Fiz, na minha óptica, a interpretação do Estado da nossa Nação. Posso estar errado! (Estarei??) Não sou dono da razão e não quero que penses como eu.
    Perguntas o que é ser selvagem, já te fiz a tradução de “SELVAGEM”, retirada de um Dicionário da Língua Portuguesa, Dicionário do Estudante – Empresa Literária Fluminense. Retira as conclusões.
    Daqui a pouco estás a acusar-me, como muitos já fizeram neste Blog, que sou mau Angolano e que devia de ser banido de Angola e a perguntar qual é a minha cor…

    A pluridade é que faz deste Blog um bom local de leitura e é nessa pluralidade de opiniões que eu dei a minha. Somos sim, no meu entender, uma Nação de selvagens.

    O Estado não consegue cumprir a sua missão. Os próprios executivos são eles uma cambada de selvagens prepotentes e oligarcas. Constroem no Mussulo casas que destroem todo o ecossistema sem respeitar planos de urbanismo e impacto ambiental. Deputados que agridem agentes da ordem. Filhos de Titulares de cargos públicos e políticos que agridem cidadãos impunemente. Titulares de cargos públicos e políticos pornograficamente ricos sem ter meios que justifiquem o acumular da fortuna que possuem.
    Somos um país de pessoas que defecam e urinam em plena via pública sem pudor e com os órgãos genitais a mostra. Nunca fui aos EUA mas penso que lá não façam isso. Somos um país que se atropelam pessoas e fugimos do local porque se não a população mata-nos de pancada.

    Somos um país de fingidos que pensam que Angola é a ilha do Mussulo, o Alvalade e o Miramar - Luanda. Ignorantes que, como eu, nunca tiveram oportunidade de conhecer o restante da Nação de Cabinda ao Cunene.

    Construímos anarquicamente em qualquer lugar sem obedecer qualquer plano de urbanismo. Destruímos o Mussulo. Os condutores dos Hiaces conduzem com cervejas na mão que depois de as consumiram atiram para a via pública. Grande parte da população come com as mãos, é tradição.

    Isso que tu enumeraste no teu comentário, bombas atómicas, doenças de laboratório são verdades sim mas eu não estou a analisar essas Nações. E se estivesse tinha 2 pesos. Também me referia a todas as curas de doenças que já foram encontradas nesses mesmo laboratórios. Chama-se a isso progresso.
    Em Angola o único progresso que eu vejo é o da Sonangol e as suas participações em Empresas no estrangeiro que nós Angolanos, donos da Sonangol, não sabemos e que um dia irão essas mesmas participações parar nas mãos de particulares num passe de magia.
    O único progresso que eu vejo é o dos jovens empresários, na maioria filhos de dirigentes, com empresas geradas de capitais duvidosos.
    Ok, há estradas asfaltadas, uns estádios, uns hospitais novos (chegarão para toda a população de Angola) e tal… Quero ver depois das eleições se essas estradas ainda estão asfaltadas ou se vão voltar a ser tapadas.

    Só não vê quem não quer. Eu acho que somos selvagens, eu acho que sou selvagem!

    M.N

  16. N'Manga says:

    Caro M.N.,

    Falei-te nos outros países porque o conceito de ser “selvagem” vem acompanhado com o “outro lado”, ou seja o conceito de ser civilizado. Não se poderia falar em selvajaria sem ter o conceito de civilização. E na maneira como falas está implícito que os países desenvolvidos são os civilizados e nós os animais: pensas exactamente como querem que penses.

    Utilizas uma palavra tão forte como selvagem para depois me falares de coisas que considero, muito sinceramente, triviais e demasiado “fáceis”: disseste que somos selvagens porque matamos por telemóveis – tu, se quiseres tens os telemóveis que quiseres (no mínimo um ou dois), mas há muitos que não… Esqueces que em Angola há milhares e milhares de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. Não apontes “selvaticamente” o dedo a essas pessoas sem antes tentares perceber. As pessoas que defecam na rua: mais uma vez tu analisas as coisas de maneira leviana e bem no teu conforto. As pessoas que vivem na rua em Luanda (que não são poucas), que só têm uns cartões encostados numa parede qualquer, com uns trapos rotos e sujos, vão fazer as necessidades aonde? Mas tu só olhas de soslaio quando passas de carro com ar-condicionado e uma boa keta no rádio e murmuras entre dentes: Selvagem. E também o facto de não haverem casas de banho públicas (ou de haverem muito poucas), contribui enormemente para o facto de pessoas que têm de andar durante horas e horas a pé, não possam mais aguentar – pfff SELVAGENS.

    Como disse no princípio quando se fala de selvagens, subentende-se que existe o oposto: os civilizados. Olhamos e vemos sociedades que sim, respeitam muitas condutas que nós não respeitamos em Angola, mas que têm uma atitude selvagem no que toca à natureza que os rodeia (aquecimento global), uma indiferença selvagem pela vida humana (aquelas que se perdem longe da sua vista) e pelas relações humanas, um egoísmo feroz, um egocentrismo cego… Essas sociedades ocidentais que nos querem fazer crer, como sempre quiseram (desde que chegaram à África) que eles conhecem a civilização e que nós, pobres selvagens africanos, devemos seguir a “luz”. Por isso em alguns países colonizadores, tentaram passar uma lei que ensina nas escolas deles aquilo que eles chamam de “papel positivo da colonização” (colonização que, ela sim SELVAGEM), lei esta que eu considero vergonhosa e que exprime bem o menosprezo que esses países têm por nós africanos, assim como pela nossa História. Convido-te a procurares o discurso do presidente francês Nicolas Sarkozy, na Universidade de Dakar, no Senegal.

    O dicionário dá-nos o sentido das palavras, mas infelizmente não nos dá a sua força: a palavra SELVAGEM é uma palavra forte, muito forte para ser usada. Selvagens são os animais. Penso que dizer que somos animais é demasiado forte e é caminhar no sentido do que os “desenvolvidos” querem que pensemos de nós próprios – essa palavra é demasiado forte, arranja outra que exprima melhor essa tua indignação pelo desrespeito das regras de convivialidade num modelo de sociedade ocidental.

    Não consigo deixar de achar engraçado alguns exemplos que usas para falares de selvajaria, exemplos extremamente marcantes do teu estatuto social na sociedade:

    -”Destruímos o Mussulo”
    -”matam para roubar telemóveis”
    -”defecam e urinam em plena via pública sem pudor e com os órgãos genitais a mostra.”

    Para terminar, dizes que comer com as mãos é ser selvagem: comer com as mãos faz parte da cultura, sim. E então? Isso é ser selvagem? Porque os portugueses nos “ensinaram” a comer com garfo e faca todas as nossas tradições estavam erradas? Não é só em Angola que se come com as mãos: no Senegal, na Guiné, na Índia, no Tahiti e Guadalupe (os pratos tradicionais), etc, etc. Não penso de maneira nenhuma que seja selvagem… os ocidentais pensam.

    Um abraço,
    N’Manga

  17. Anonymous says:

    N´Manga,

    Estás chocado com a minha perspectiva mas foste tu o primeiro a introduzir no debate a palavra “ANIMAIS”, que eu nunca mencionei. Nunca usei tal adjectivo para a nossa sociedade, mas já que o mencionaste, somos sim animais, RACIONAIS. Embora as vezes não pareça.

    Não sei se leste os meus comentários do principio ao fim ou se só leste alguns parágrafos e daí essa tua indignação e discordância. Hoje vou mais a fundo da questão para que não restem duvidas do porquê de eu considerar sermos selvagens.

    Não é um factor genético ou pelo simples facto de nascermos em África mas porque não temos um Estado com ORDEM JURÍDICA: que se ocupa dos aspectos mais importantes da convivência social, é uma ordem inter-subjectiva, assistida de coercibilidade, ou seja, o incumprimento das normas pode ser sancionado (Sanção Punitiva, Sanção Compensatória, Sanção Preventiva, Sanção Compulsória, Sanção Reconstitutiva) e visa regular a vida do Homem em sociedade. A Ordem jurídica comporta as normas, os meios de criação, os meios de as aplicar, em que situação as aplicar e quem as aplica. (É isso que falha em Angola, entre outras coisas)
    A Ordem jurídica está coadjuvada pelo Direito: Conjunto de regras ou normas de conduta obrigatórias numa sociedade, assistidas de coacção. O Direito tem 2 funções capitais a de regular/mediar as situações de conflitos entre sujeitos e a correcta execução e transmissão de poderes.
    Os meios do Direito depois dividem-se em Tutela Privada e Tutela Pública. Todos os direitos devem ser tutelados pelo Estado, nisso constituindo a tutela pública.
    Os meios de tutela privada são os meios que a Ordem jurídica permite às pessoas utilizarem para defender os seus direitos. Estes meios só podem ser utilizados quando não seja possível recorrer, de forma eficaz, a meios da tutela pública.

    Dito isto espero que agora seja mais claro para ti. É evidente que a Ordem Jurídica está altamente desfragmentada em Angola, pela guerra e pela falta de vontade dos políticos nos últimos 5 anos. Não existem cadeias para todos, os tribunais são insuficientes (estrutura e organização) a polícia de investigação criminal não tem meios técnicos ou humanos qualificados face a criminalidade que existe em Angola. O Governo tem relações promíscuas com a Policia e com os tribunais na medida que não há separação de poderes.
    As pessoas matam e roubam e ficam impunes a não ser que os populares façam “justiça” pelas próprias mãos.

    O que separa uma sociedade civilizada de uma sociedade selvagem é o direito vigente nela. Uma sociedade com Ordem jurídica eficaz e que as pessoas minimamente cumpram as regras é uma sociedade que EU considero civilizada. Uma sociedade sem Ordem jurídica, como EU considero ser a nossa, é uma sociedade no seu estado menos evoluído porque as pessoas não esperam que os mecanismos do Estado lhes resolvam os conflitos e agem pelas próprias mãos tal como os selvagens a muitos anos atrás. Nós somos um Estado sem lei. As pessoas governam sem a legitimidade do voto do povo. Os titulares dos cargos públicos e políticos e os seus filhos são a lei e lei não se aplica a eles.

    Nós somos selvagens fruto do Estado e não da nossa condição de Africanos. Qualquer sociedade no Ocidente que tenha as nossas debilidades também é, no meu entender, uma sociedade selvagem.

    Somos selvagens porque o Estado não investe no ensino geral, não investe na ordem jurídica e não é competente. Enquanto isso vamos continuar a ser um povo de iletrados sem valores Jurídicos e sem valores Morais. Enquanto isso vamos continuar num Estado em que só vence quem tem dinheiro para corromper os agentes da lei. É, como tu disseste, a lei dos animais. Só os mais fortes vencem! O Zé-povinho só tem mesmo que se comportar como um selvagem!

    Eu compro 2 telemóveis com o meu trabalho! O meu dinheiro não caiu de um poço de petróleo. Aqueles que roubam telemóveis em Angola roubam porque não têm um Estado que olhe por eles e lhes garanta um rendimento mínimo ou um emprego ou uma ocupação. É o Estado a quem compete esta tarefa e quando ele falha obriga-os a comportamentos selvagens. Os que defecam na rua não têm onde defecar porque o Estado não só não cria espaços públicos para esse efeito como também não lhes impôs normas Morais que condenassem esse acto.

    Espero ter sido claro!
    O meu Estado é selvagem! Sendo assim eu sou selvagem.
    Vou tentar ajudar para que um dia o meu Estado saia dessa condição e assim eu deixe de me sentir parte de um povo que é obrigado a ser selvagem.

    Deixa-te de demagogias a dar entender que eu defendo a colonização ou que caí nas falácias do ocidente que querem que eu pense que os africanos são selvagens. A palavra selvagem é forte se tiveres algum complexo com ela. Não tenhas! Enquanto quiseres tapar o Sol com a peneira nunca o nosso Estado vai mudar porque tu dás sempre a entender que está tudo bem como está.

    Abraço

    M.N

  18. Anonymous says:

    Caros ou baratos N’manga e M.N.
    estou meio sem tempo mas não consigo me conter e tenho mesmo de escrever algumas palavras. Acho que se estão a agredir desnecessariamente (sobretudo tu N’manga, agarra aí uma calma), felizmente educadamente, mas cuidem para que não descambar para o selvaticamente. Depois de tantos e desnecessários advérbios de modo, permitam-me servir de mediador. N’manga eu entendo perfeitamente o que tu queres dizer, mas a verdade é que estás a desviar-te da idéia de base do M.N. Ele fala de casos precisos e palpáveis fruto do comportamento individual, tu falas do crime sem cara de nações contra nações e de comportamentos de consciência colectiva. Não queiras comparar os dois com tanta leviendade, ou pelo menos, sê objectivo na resposta as perguntas propostas pelo M.N. e não respondas com outras.
    Os comportamentos, selvagens ou não, devem antes de mais ser compreendidos e, quando incómodos, (depois de previamente estudados e de possíveis causas anotadas) deve buscar-se a solução menos má para mudá-los. Lembro-me das campanhas de sensibilização na TPA, lembro-me do Luandão, lembro-me do bwé de bocas, do programa do Sebem, mas a verdade é que não se pode esperar o respeito do espaço comum quando não há espaço nenhum!!! De pouco adianta dizer que mijar na rua é feio, não serve de muito aumentar o policiamento na via pública para erradicar o crime, é inútil insultar o kandongueiro que sobe o passeio para driblar o trânsito, ou dar a igreja para que os jovens “despossuídos” não cobicem o ruca do vizinho. Sim M.N. concordo com o teu discurso, de facto temos uma panóplia de comportamentos anti cívicos que deveriam ser básicos a qualquer ser humano, mas digo-te uma coisa, pega o europeu mais “civilizado” e deixa-o a viver em Luanda por mais de um mês, sem aquele conforto que normalmente lhes é reservado (carro, ar condicionado, casa no Alvalade, cunha nas repartições para tratar da papelada,and the list goes on) e o meu palpite é que ele se “animalizará”, mesmo que para isso reconforte a sua culpa com filosóficos ditos de outrora: Em roma faz como os romanos!
    Concordo com a tua análise, concordo com a maior parte dos actos que qualificas como “selvagens”, mas os somos todos actores nesse palco e não tivemos a chance de escolher, porque “selvajaria” foi o que encontrámos ao sairmos do ventre das nossas progenitoras e num meio selvagem, quem é domesticado está condenado a sucumbir.
    Se formos perguntar por soluções, elas existem, algumas delas já foram evocadas aqui, algumas inclusivé propostas por ti, falou-se da descentralização, de estados federados, da capital rotativa, da promoção da agricultura de autosubstitência, do investimento noutras províncias, tudo o que pudesse incentivar as pessoas a SAIREM DE LUANDA e aliviar essa megalopolis que foi desenhada para albergar um punhado de gente. Falou-se do mais importante, a EDUCAÇÃO e a SAÚDE, do investimento na formação de cérebros, na qualificação de quadros, na valorização das ciências sociais e humanas. Já se avançaram palpites, mas todos eles comportam custos e sacrifícios, a questão agora é saber quem será arrojado suficiente para tentar promover uma mudança de fundo na nossa maneira aleijada de viver.

    Fiquei particularmente intrigado com uma frase tua M.N., mas responde quando tiveres tempo, não quero distrair-te dos teus afazeres mais importantes:

    ” Daqui a pouco estás a acusar-me, como muitos já fizeram neste Blog, que sou mau Angolano e que devia de ser banido de Angola e a perguntar qual é a minha cor…”

    Já te disseram essas coisas todas? Explicitamente? Eu costumo ler todos os comentários e não me lembro de alguma vez ter visto algo de tão ofensivo como o que resumes nessas 3 linhas. Ou estás, como é o nosso “bom” costume mangolê, a EXAGERAR????

    N’manga, cada um usa os termos que acha adequados, não creio que “selvagens” seja um de agressividade suficiente para ferir susceptibilidades, pelo menos a mim não me incomóda muito, excepto quando, como tu fazes, vamos querer comparar o incomparável e atribuir ao inconsciente assassino o seu simétrico (“civilizado”).

    Comer com as mãos bate muito!!!

    Abraços e não se exaltem
    KulpadoKomum

  19. Anonymous says:

    Acho que os dois vão um bocado ao extremo…

    De facto o povo Angolano como sociedade esta atrasado! E em relação as sociedades ocidentais estamos bastante atras.

    O meu desejo não é ver Angola igual a França ou Estados Unidos, como ja tinhamos debatido nos outros posts, queremos uma Angola igual a si propria! Mas sera que não temos o que aprender com eles (paises ditos civilizados)?! Temos…

    De facto M.N. os exemplos de actos selvagens não foram muito bem escolhidos. Os verdadeiros “selvagens” são aqueles que alimentam esta situação actual (incluindo alguns interesses estrangeiros):
    - As pessoas têm que viver na rua e não têm aonde fazer as necessidades,
    - Os jovens não vão a escola e não têm perspectivas de emprego, muitos acabam por entrar no crime organizado,
    - A fiscalização so funciona qdo alguém pisa no calo de um “jacaré”, e
    - Que faz festas e organiza competições desportivas para manter este estado de sitio,
    - etc etc…

    Selvagem é este modelo de governação actual… Como o N’Manga disse “SELVAGEM é uma palavra forte”, dizer que o nosso povo é selvagem, é pôr em causa a nossa capacidade! Como se tivessemos num estado de evolução, como pessoas, atrasado…

    E quanto ao comer com as mãos… acho que é uma garantia de higiene visto que o proprio lava as suas mãos e não fica dependente da bom trabalho de quem lavou os talheres ;) Não vejo nada de selvagem nisso.

    Um abraço,
    +1Angolano

  20. N'Manga says:

    Caro M.N.,

    “Estás chocado com a minha perspectiva mas foste tu o primeiro a introduzir no debate a palavra “ANIMAIS”, que eu nunca mencionei” .
    Logo de entrada achei engraçado esse teu argumento: “eu não disse isso”. Não é preciso ser superdotado para perceber no teu discurso que selvagem “escondia” “animais”. Estava implícito, aliás, como está sempre quando se usa a palavra selvagens. Os teus pomposos discursos jurídicos resumem-se numa frase: Não há ordem jurídica em Angola. Sim, as cadeias não têm lugar para todos os presos, o mesmo acontece no Brasil, também são uns animais? Sim, o Governo tem relações promíscuas com a policia, o mesmo acontece na Rússia, também são animais? Em todo o mundo as pessoas que têm poder matam e ficam impunes, mesmo nos EUA, mas não te vejo a chamá-los de animais.
    Eu acho que dizer que o direito vigente numa sociedade faz dela civilizada ou não, é redutor. Acho que os indivíduos fazem uma sociedade e o seu comportamento não depende do direito vigente mas sim da sua própria auto-consciência que lhes permite discernir o que é certo do que é errado. Neste caso, a educação entraria também na equação, assim como milhares doutros factores. Não reduzas tudo à um simples “direito penal”. O direito é importante sem dúvida, mas não é a única coisa.

    Não quero estar só a cuspir fogo sem olhar para o lado: concordo contigo que há um desrespeito pelas regras básicas duma sociedade (seja ela de que tipo for), só que discordo com essa insistente mania em reduzir a nossa sociedade (e consequentemente, a nossa natureza, porque selvagens são selvagens, e o tarzan nunca há-de sair da selva porque é lá que ele pertence) à um conjunto de animais selvagens que se comem uns aos outros, percebes? Porque essa sim é a ideia que o MUNDO tem d’África: “vocês lá em África vivem mesmo nas árvores?” – a pergunta recorrente que se pergunta fora do continente. Já que os outros nos consideram assim, se nós nos considerarmos também como selvagens, estaremos bem no trilho da auto-destruição. Dizes que não tem nada a ver com os genes e com a natureza, mas cada vez que se usa essa palavra, deixa-se bem implícito que faz parte da natureza do africano. Talvez noutro contexto, essa palavra não me incomodaria tanto, mas neste, incomoda. Ao contrário de ti, não gosto de dar lições com pretensões de Sábio, mas acho que devo dizer-te isso: na língua portuguesa, assim como em qualquer língua, cada palavra tem um sentido próprio. Não existem duas palavras com exactamente o MESMO sentido, há sempre uma pequena nuance que separa dois sinónimos. Cada palavra pertence a um nível de linguagem e cada palavra tem (importantíssimo), a sua força. Certos adjectivos vêm acompanhados de conotações negativas e que podem muitas vezes deturpar aquilo que queremos dizer. Tem de se ter muito cuidado com o que se quer dizer. Se desde o princípio tivesses usado a palavra retrógrada para classificar a nossa sociedade (ou mesmo o nosso continente), essa discussão nunca teria sequer começado. Como vês não se trata de nenhum complexo, mas sim de uma busca por um maior rigor léxico.

    Mesmo assim, já vejo uma moderação no teu discurso em comparação ao início. Estamos mais de acordo. Para finalizar, se eu achasse que tudo está bem nem sequer estaríamos a ter essa conversa.

    ” nunca o nosso Estado vai mudar porque tu dás sempre a entender que está tudo bem como está.” – Essa foi uma acusação completamente infundada e injusta. Agradecia que de agora em diante dispensasses de juízos de valor da minha pessoa como eu dispenso da tua. Estou muito longe de achar que está tudo bem, só me reservo ao direito de não usar a palavra SELVAGEM E ANIMAIS para classificar a mim ou ao meu povo. É tudo.

    Um abraço amigo,
    N’Manga

  21. (R)EvolucaoEmAngola says:

    Continuo a achar excessivo tudo isso (um pouco minuciosa demais essa exigência da escolha do léxico “apropriado”), mas vocês que sao gente que se entendam.
    abraço
    kulpadokomum

  22. M.N. says:

    Cada vez gosto mais deste espaço. É verdade!!! Por todos os temas que aqui debatemos e pela diversidade de opiniões mas sobre tudo porque no fim continuamos todos amigos respeitando as opiniões dos outros.

    N´Manga
    “nunca o nosso Estado vai mudar porque tu dás sempre a entender que está tudo bem como está.” – Essa foi uma acusação completamente infundada e injusta. Agradecia que de agora em diante dispensasses de juízos de valor da minha pessoa como eu dispenso da tua. Estou muito longe de achar que está tudo bem, só me reservo ao direito de não usar a palavra SELVAGEM E ANIMAIS para classificar a mim ou ao meu povo. É tudo.”

    Tens toda a razão! Desculpa-me a falta de clareza, não foi intencional.
    - Em minha defesa tenho a dizer-te que não soubeste interpretar o sentido da LETRA da minha frase. O que eu quis dizer foi que enquanto nós (tu) angolanos não admitirmos os nossos “handicaps” nunca poderemos tratar deles porque é como se eles não existissem e o que não existe não é para ser tratado. Quando eu disse “TU” referia-me a todos aqueles que partilham da tua opinião (que não somos “selvagens”). O “TU” foi no sentido lato e não no restrito.

    “Não é preciso ser superdotado para perceber no teu discurso que selvagem “escondia” “animais”. Estava implícito, aliás, como está sempre quando se usa a palavra “selvagens”
    - Isto é fazer aquilo que tu me condenaste no ponto anterior (acusação infundada). Eu simplesmente quis dizer selvagem e não animal. As 2 palavras nem sequer são sinónimas, tiraste conclusões precipitadas. Existem animais que não são selvagens! Mais uma vez aconselho-te a ir procurar no dicionário o significado de selvagem que pareces estar a ignorar.

    “Sim, as cadeias não têm lugar para todos os presos, o mesmo acontece no Brasil, também são uns animais? Sim, o Governo tem relações promíscuas com a polícia, o mesmo acontece na Rússia, também são animais? Em todo o mundo as pessoas que têm poder matam e ficam impunes, mesmo nos EUA, mas não te vejo a chamá-los de animais”
    - Deixa de ir buscar exemplos de outros países porque não é o que está em causa e a ser discutido. A Russia, os EUA e o Brasil não são chamados neste tema. Ainda assim, uma vez mais, acho que não lês os meus comentários do inicio ao fim. Está aqui um excerto que responde a tua dúvida:
    “Qualquer sociedade no Ocidente que tenha as nossas debilidades também é, no meu entender, uma sociedade selvagem.”
    Volto a frisar que sempre usei a palavra “SELVAGEM” nunca “ANIMAL”. A palavra “ANIMAL” foi introduzida por ti.

    “Não quero estar só a cuspir fogo sem olhar para o lado: concordo contigo que há um desrespeito pelas regras básicas duma sociedade (seja ela de que tipo for)”
    Aqui eu fazia uma pequena correcção: Não há UM desrespeito, há TOTAL DESRESPEITO!!!

    “discordo com essa insistente mania em reduzir a nossa sociedade (e consequentemente, a nossa natureza, porque selvagens são selvagens, e o tarzan nunca há-de sair da selva porque é lá que ele pertence) à um conjunto de animais selvagens que se comem uns aos outros, percebes? “
    Mais uma inverdade, volto a frizar que nunca usei a palavra ANIMAIS. A tua interpretação é livre eu não tenho comando sobre ela, mas não digas que disse coisas que não disse!

    Agora pude perceber o porquê desta confusão. A tua interpretação equivocada levou-te a focares-te numa palavra que eu não empreguei (ANIMAL) e daí ao teu desagrado e a tua persistência.
    Um abraço amigo

    MN

  23. Anónimo says:

    Até quando? Animal, Selvagem, Selvagem, Animal… Estou fora dessa.

    Só queria fazer um pequeno comentário a uma das frases do M.N. “Nós somos selvagens fruto do Estado!”, “O meu Estado é selvagem! Sendo assim sou selvagem”.
    Acho que não podemos nem devemos ter uma postura tão fatalista, e de desresponsabilização dos nossos próprios actos, se não for eu o responsável pelo que faço quem é? os meus pais? o Estado? Deus?… Nunca avançaremos!

    E quanto à falta de civismo:
    Por exemplo as pessoas que na estrada comportam-se de forma pouco civilizada ao entrarem numa instituição bancária aonde o atendimento é organizado, tiram uma senha, ordeiramente aguardam a sua vez e respeitam-se mutuamente. Mesmo que lá fora seja o caos total

    Isto só prova que é possível fazer diferente e que as pessoas não só estão preparadas para a organização e civismo como também anseiam por isso.

    Muitos de nós estudamos fora, consideramo-nos civilizados, só temos a obrigação de o continuares a ser no nosso país.
    Se pensarmos que é impossível ser diferente em Angola, Angola continuará a ser cada vez menos civilizada porque desorganização só gera mais desorganização.

    Chega de desorganização e de dizermos constantemente que somos selvagens e animais e isto ou aquilo. temos que estar conscientes que podemos fazer diferente, cada um na sua área e à sua maneira, e não comodamente tirarmos partido da desorganização e continuarmos a dizer que somos uma cambada de desorganizados selvagens.

    Mais positivismo,

    Eu Acredito.

  24. Anonymous says:

    Somos o povo especial escolhido do Sr. Engenheiro. E como povo especial escolhido por ele, não temos água nem luz na cidade.

    Temos asfalto cada dia mais esburacado. Os que, de entre nós, vivem na periferia, não têm nada. Nem asfalto.

    Só miséria, lixo, mosquitos, águas paradas. Hospitais?!!! Nem pensar. O povo especial não precisa. Não adoece.

    Morre apenas sem saber porquê. E quando se inaugura um hospital bonito e ficamos com a esperança de que as coisas vão mudar minimamente,

    descobre-se que as máquinas são chinesas, com manuais chineses sem tradução e que ninguém sabe operá-las…

    Estas são opções especiais para um povo especial.

    Educação?!! O povo especial não precisa. Cospe-se na rua ( e agora com os chineses, temos que ter cuidado para não caminharmos

    sobre escombros escarrados de fresco…), vandalizam-se costumes, ignoram-se tradições.

    Escolas para quê e para ensinar o quê?!! Que o sr.engenheiro é um herói porque fugiu ali algures da marginal acompanhado

    de outros tantos magníficos?!!! Que a Deolinda Rodrigues morreu num dia fictício que ninguém sabe qual mas nada os impediu

    de transformar um dia qualquer em feriado nacional?!!!!
    O embuste da história recente de Angola é tão completo e manipulado que até mesmo eles parecem acreditar nas mentiras que inventaram…

    Se incomodarmos o Sr. Engenheiro de qualquer forma, sai a guarda pretoriana dele e nós ficamos quietos a vê-los barrar ruas anarquicamente

    sem nos deixar alternativas para chegarmos a casa ou aos empregos. O povo especial nem precisa ir trabalhar se resolvem fechar as ruas.

    Se saírmos para almoçar e eles bloqueiam as ruas sem qualquer explicação, só temos uma hipótese : como povo especial não precisa de comer,

    dá-se meia volta de barriga vazia e volta-se para o emprego. E isto quando não ficamos horas parados, à espera que o Sr. Engenheiro e sua comitiva,

    recolham aos seus lares e nos deixem, finalmente circular.

    Entramos em casa às escuras e saímos às escuras. Tomamos banho de caneca. Sim, bem à moda do velho e antigo regime do MPLA-PT do século passado.
    Luanda, que ainda resiste a tantos maus-tratos e insiste em conservar os vestígios da sua antiga beleza, agora é violentada pelos chineses.
    Sodomizada. Sistematicamente. Dia e noite. Está exaurida; de rastos, de cócaras diante dos novos “amigos” do Sr. Engenheiro.

    Eles dão-se, inclusivé, ao luxo de erguerem dois a três restaurantes chineses numa mesma rua.

    A ilha do Cabo tem mais restaurantes chineses que qualquer outra rua de qualquer outra cidade ocidental ou africana: CINCO!!!!

    A China Town instalada em Luanda.

    As inscrições que colocam nos tapumes das obras em construção, admirem-se, estão escritas na língua deles.

    Eles são os novos senhores. Os amigos do Sr .Engenheiro. A par do Sr.Falcone… a este foi-lhe oferecido um cargo

    e passaporte diplomático. Aos outros, que andam aos bandos, é-lhes oferecido a carne fresca da nossas meninas.

    Impunemente. Alegremente. Com o olhar benevolente dos canalhas de fato e gravata.

    Lá fora, no mundo civilizado sem povos especiais, caçam os pedófilos. Aqui, criam e estimulam pedófilos. Acham graça.

    Qualidade de vida é coisa que o povo especial nem sabe o que é. Nem quantidade de vida, uma vez que morremos cedo,

    assim que fazemos 40 anos. Se vivermos mais um pouco, ficamos a dever anos à cova, pois não nos é permitida essa rebeldia.

    E quem dura mais tempo, é castigado: ou tem parentes que cuidem ou vai para a rua pedir esmola!

    Importam-se carros. E mais carros. De luxo. Esta é a imagem de marca deles: carros de luxo em estradas descartáveis, esburacadas.

    Ah… e telemóveis!!!! Qualquer Prado ou Hummer tem que levar ao volante um elemento com telemóvel.

    Lá fora, no mundo civilizado sem povos especiais, é proibido o uso do telemóvel enquanto se conduz.

    Aqui é sinal de status, de vaidade balofa!!!!!!!!!!

    Pobre povo especial. Sem transportes, sem escolas, sem hospitais. À mercê dos candongueiros, dos “dirigentes”,

    e dos remédios que não existem. Sem perspectivas de futuro. Os nossos “amanhãs” já amanhecem a gemer:

    de fome, de miséria, de subnutrição, de ignorância, de analfabetismo, de corrupção, de incompetência,

    de doenças antes erradicadas, de ira contida, de revolta recalcada.

    O grito está latente. Deixem-no sair: BASTA!!!!!!

  25. Anonymous says:

    Anonimo entendi bem o que quiseste dizer, mas esse teu exemplo do banco mete muita agua…. eu n tenho conta la, mas a cada vez q tive de ir a um banco, havia SEMPRE, MAS SEMPRE, pelo menos um ou dois espertinhos que ainda têm a mania de se aproximar do balcao naquele jeito de “tenho de ser atendido imediatamente” ou “vou tentar esgueirar-me e cruzar os dedos para que ninguém repare que eu acabei de chegar”, achando q o seu assunto é mais rapido ou mais importante e como deves imaginar, os faltosos sao normalmente gente cuja imagem temos o apanagio de associar a individuos que tiveram a sua dose de “civilizaçao”, que fizeram os estudos ou viveram fora, no entanto, a sua prepotencia e arrogancia transbordam por cada poro, ainda sao capazes de te responder mal como se tivessem razao, incapazes de dar o braço a torcer.
    De resto concordo contigo, os meus dois comentarios anteriores foram tb nesse sentido, acho q passaram de um filme classe b para um blockbuster, perdeu-se um pouco a calma, a meu ver, desnecessariamente. Mas pronto, eu sou pela discussao, acho que tambem somos capazes de sozinhos nos darmos conta que ultrapassamos uma certa linha apartir da qual a discussao deixa de ser produtiva, mas nao sou eu que vou determinar essa linha, acho que os intervenientes principais devem discutir ate se cansarem, esperando que tenham sempre a riqueza de espirito de acabar a discussao em bons termos.
    Fiquei so sem perceber a tua palavra de encerramento. “Eu Acredito”… em quê exactamente? E como?
    Um abraço a todos
    KulpadoKomum

  26. (R)EvolucaoEmAngola says:

    Anonimo 2, boas… benvindo ao forum. Achei a tua mensagem muito eloquente e até poética (“ficamos a dever anos a cova”, muito forte), mas nao pode deixar de ficar um pouco preocupado com a tua aparente insistência no facto da sua presença cada vez mais visivel e menos discreta dos chineses. Estavas a espera de quê? Eles “emprestaram-nos” 4 bilioes, certamente que esse dinheiro veio acompanhado de exigencias especiais e mesmo que nao tivesse vindo, Angola é um pais que aceita as regras mundiais erigidas pelo GATT, hoje representado pela OMC e como tal, as suas fronteiras estao abertas a capitais (investidores) estrangeiros SEM DISCRIMINAçAO ou limitações. Com os investidores vêm os nacionais desses paises (isto sim podia ser racionado, mas aqui deve entrar o acordo especial atras dos 4 bilioes), que logicamente se devem instalar no pais que lhes vai acolher pelo menos durante o periodo em que esteja vigente o contracto. Ha algumas frases particularmente chocantes para mim:

    “A China Town instalada em Luanda.”

    Eh pa, e entao mano? Em quê que isso te pode fazer confusão? Essa tua “constatação critica” esconde um autêntico slogan “CHINESES FORA DE ANGOLA”, nao posso simpatizar com sentimentos tao basicos de alguem que parece ser tao cultivado.

    “Eles dão-se, inclusivé, ao luxo de erguerem dois a três restaurantes chineses numa mesma rua”

    Isto lembra-me um pouco aquela tendência argumentaria sobre as lojas dos “malianos” que estao a vir “roubar os nossos empregos e o nosso dinheiro”. Não consigo ver o que ha de tao errado de abrirem 3 restaurantes chineses na mesma rua… tarde ou cedo um deles ha de se destacar e os outros passarao a ser vietnamitas ou tailandeses ou japoneses ou o trespasse até podera dar origem a armazens.

    “Luanda, que ainda resiste a tantos maus-tratos e insiste em conservar os vestígios da sua antiga beleza, agora é violentada pelos chineses.”

    A culpa é dos chineses ou nossa? Ha projectos nojentos e ha materiais mais que duvidosos a serem utilizados nas obras chinesas (vê-se a olho nu), mas a culpa é deles que tentam como todo o outro empresario minimizar custos para maximizar os ganhos, ou da nossa inspecçao que com a gasosa certa deixa passar aberrações que, so pelo simples facto de existirem, devem estar a violar uma qualquer lei elementar de direitos humanos? Os tugas fizeram luanda, os chineses tao a fazer luanda china town… tudo vai em ciclos, eu acho q devia fazer-se uma luanda so com jangos em vez de predios! Teriamos para isso de “violentar” a tao resistente Luanda de que falas.

    Para além do mais, de todos os imigrantes que temos em Angola, o chinês parece-me ser o q melhor se integrou… vai la ver os libaneses e os senegaleses. Em todo o mundo ha chineses, mas em sitio nenhum eu os vi tao “expostos” e tão à vontade com as gentes locais, normalmente eles fecham-se nos seus restaurantes ou nas suas lojas dos 300, por isso não consigo deixar de simpatizar com eles.

    tirando estes pequenos à partes, curti bwé ler a tua mensagem, espero que apareças mais vezes para diversificar um bocado mais o mosaico.

    Até ja
    KulpadoKomum

  27. Anonymous says:

    Okey. Tudo muito bem dito, alias, tudo inteligentemente dito, não restam quaisquer dúvidas. Se graça tanta inteligencia neste espaço só posso então chegar a conclusão que falta honestidade intelectual neste espaço para se dizer que em 5 anos mais de um milhão de crianças entraram para o sistema de ensino; que cerca de 20 escolas começaram a funcionar nos ultimos 2 anos; que por ex, que todos os municipios da provincia do bié têm uma instituição de ensino médio( o andulo tem 3); que com a recuperação das estradas em 8 horas ja se chega ao Huambo; em 6 : 30 à Benguela; em 3 horas ao Sumbe; em 4: 30 à Malange a ao Negaje… Enfim são muito inteligentes agora só vos falta mesmo a honestidade porque a intelectualidade ja a têm, sem duvidas. Bem Hajam

  28. Anonymous says:

    Pena que o Sr. Honesto tenha pouco de inteligência, caso contrário saberia que este tipo de discurso aqui não faz eco e o pouco que faz dissipa-se rapidamente pois não tem sustentação. Ainda assim, convido-o fazer equipa connosco, o Sr. o honesto e nós fazíamos uma boa equipa, como dizem os nossos irmãos brasileiros “Romeu e julieta”.

    De facto cada um tem o que merece e nós angolanos temos o que merecemos. Somos um povo Honesto mas Ignorante. O Sr. contenta-se com muito pouco, nós aqui, alem de “inteligentes”(seremos???), somos exigentes e estas melhorias que o Sr. Honesto trouxe, e bem, ao nosso conhecimento até podem ser motivos de regozijo e vaidade para o Sr., e para nós também, mas para nós é muito pouco face ao crescimento económico e aos Dólares que entram em Angola todos os dias.
    Se o Sr. tivesse a capacidade de imaginar metade do poderio económico de Angola e compara-lo com o actual estado do país de certo já se tinha atirado do cimo de uma dessas obras tipo “fast food” que são feitas para “honestos-ignorantes” verem.

    As obras que estão feitas com certeza que melhoraram, ou vão melhorar, a qualidade de vida dessas populações que vão usufruir dela. Estas obras são de direito e não são favores como as vezes se dá a entender. São construídas com os recursos do país, de todos nós. É função dos governantes. Só cumpriram com a sua obrigação pois é para isso que lá estão, servir o povo!
    Convido o Sr. Honesto a fazer uma auditoria a essas obras feitas e depois regresse aqui para partilhar connosco o valor do custo real e o valor do custo apresentado aos cofres de estado. Faça isso Sr. Honesto estaremos aqui a espera…

    “…em 5 anos mais de um milhão de crianças entraram para o sistema de ensino; que cerca de 20 escolas começaram a funcionar nos últimos 2 anos; que por ex, que todos os municípios da província do bié têm uma instituição de ensino médio (o andulo tem 3); que com a recuperação das estradas em 8 horas já se chega ao Huambo; em 6h:30min à Benguela; em 3 horas ao Sumbe; em 4:30 à Malange a ao Negaje…”

    Muito bonito para as estatísticas mas nós, os supostos “inteligentes”, estamos mais interessados no custo e qualidade dessas obras e na qualidade da formação desses alunos que a vão frequentar.
    Devagar se vai ao longe e sabemos que o caminho a percorrer é bastante longo mas por favor Sr. Honesto não seja mais alucinado igual aos que aqui piam muito e depois desapareceram por não conseguirem defender a sua posição. Não venha deturpar o carácter deste espaço dando a entender que aqui somos todos do contra e defendemos cores partidárias.

    Abra o olho, inteire-se dos seus direitos e reclame por eles… Se não o quiser fazer e preferir viver como tem vivido até aqui, deixe-nos lutar pelos nossos e pelos daqueles que não têm voz.

    O maior cego é aquele que não quer ver.
    Nunca é tarde ainda vai a tempo…

    Espero que aceite o convite para a dupla. Dormiríamos melhor a noite se o tivéssemos no Blog mais vezes.

    Cumprimentos,

    MN

  29. Anonymous says:

    O Anómnimo Honesto, tocou num bom ponto “A falta de valorização das coisas bem feitas”. Tem razão quando afirma que existem muitos novos e bons projectos. Temos hoje uma rede de estradas e caminhos de ferro muito melhoradas e em constante crescimento e todos aqueles outros casos de escolas e hospitais que vão sendo construidos ao longo do país. Este pequeno desenvolvimento não só não pode ser negligenciado como deve ser reconhecido e estimulado.

    Tenho algumas perguntas é para o anónimo honesto:
    - Estará a qualidade de vida dos angolanos a aumetar? é importante não esquecer a principal e caotica cidade de Luanda.
    - Estão os recursos de Angola a serem utilizados de modo eficiente e para o benefício de todos?
    - Estaremos a entrar numa decadência de valores aonde pouco mais importa do que ter uma conta bem recheada?
    - Estará a discrepância entre ricos e pobres a aumentar?
    - A corrupção está a diminuir?
    - Não estará o Governo a desresponsabilizar-se um bocado das suas funçoes de providenciar saúde e educação GRATUITA!
    - E o Racismo? Xenofobia? Insegurança? Criminalidade? Estará a aumentar… gostaria que desse o seu parecer.

    ´Se por um lado temos que reconhecer, e dou-lhe razão, que há muita coisa que está a melhorar e merece os nossos “esquecidos” elogios. Também tem que aceitar que há muitos aspectos que estão a piorar, não podem ser negligenciados e devem ser criticados. Esquecer isto é só querer ver o lado Romântico da história!

    Não posso é deixar de dizer que me dói abrir um qq jornal economico mundial, ver Angola como o país que mais cresce no mundo e contrastar com o que vejo nas ruas de Luanda. Talvez é daí que provem a falta de honestidade de que nos acusa.

    Eu Acredito.

  30. Anonymous says:

    Angola merece duas virtudes da parte dos seus compatriotas: delicadeza e sabedoria. A delicadeza exige que respeitemos o que outros dizem, mesmo que não concordemos. A sabedoria manda que nos calemos diante do que não entendemos e reflictamos e ouçamos e discutamos e…
    Que ninguém diga palavras inúteis, que isso será penitência! ;-)

  31. Anonymous says:

    “Não posso é deixar de dizer que me dói abrir um qq jornal economico mundial, ver Angola como o país que mais cresce no mundo e contrastar com o que vejo nas ruas de Luanda. Talvez é daí que provem a falta de honestidade de que nos acusa.” - Talvez o caminho seja não ler os jornais, *olhar* para a realidade e perguntar: que sociedade queremos? As outras sociedades podem servir-nos de modelo? Quais são as nossas (dos angolanos) raízes culturais? Que tipo de organização social se adequa ao nosso modo de viver? Podemos criar um novo modelo de organização social? Como se organizavam os nossos antepassados? Não haverá aí algo de precioso a ter em conta?…
    Ideias! ;-)
    Também Acredito.

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