Um passo coxito p’ó mangolé… um pulo do caraças p’Angola
Na filosofia do “sozinho”, daquele que se sente impotente face à imponente e imbatível realidade, que tenha decidido abandonar o sonho de grande escala para se centrar em acções individuais mais pequenas, de mais modestas ambições e impacto diminuto, tocando pouco mais de um punhado de pessoas de cada vez, a primeira etapa para deixar florir dentro de si a exuberante e esplendorosa flor do altruísmo, será o conhecimento terreno da realidade que o circunda. Aqui, por falta de estudos sociológicos, estatísticos, demográficos (pelo menos públicos, publicados ou publicamente comentados), mas também por factores de ordem “cultural” (a cultura do fechar os olhos, do preconceito, dos à priori, da generalização), somos muito rápidos a julgar os outros, escolhendo uma cestinha repleta de critérios discriminatórios como o tom de pele, a aparência, a indumentária e a apontar dedos acusadores contra os presumíveis culpados pelo estado da nação, pela corrupção, pela delinquência e tudo mais. Gastamos tantas energias procurando culpados que nos esquecemos de olhar para o espelho e por isso, ao invés de flores, estamos a esterilizar o nosso espírito deixando que as plantas daninhas da incompreensão, do ódio e do repúdio se instalem duradoiramente no nosso jardim.
Neste post, quero expor muito sucintamente um humilde passo que a princípio pode parecer absurdo na sua simplicidade e ridículo no que se propõe alcançar, não uma mudança à escala nacional, mas antes, um despertar do indivíduo, o aproximar de cada cidadão deste país, o entendimento e o bom senso.
A minha proposta para uma pequena revolução pessoal, numa micro-escala é o gesto da realização de um esforço mínimo para tentarmos perceber o que é viver nos escalões sociais mais baixos da sociedade, passar um, alguns, muitos dias com aqueles e aquelas que sofrem na pele as injustiças do capitalismo selvagem, que vêem as suas casas serem demolidas sendo recompensados com irrisórios 500 USD (“com que então, construção ilegal não é? Pois saiba que legalmente não temos sequer de indemnizá-lo caro senhor, dê-se por satisfeito e pouco pio!”), que vêem os filhos esvair-se em sangue à porta da clínica que recusa recebê-los sem o “cash in hand”, daqueles que são forçados a deixar os seus recém nascidos ao cuidado de criancinhas que ainda brincam com bonecas para que possam ir trabalhar e trazer no fim do mês aquela “ajuda humanitária”, aquela aberração a que chamamos salário. Não digo que vão “à maluca” e muito menos que vão armados em educadores, donos da razão e da verdade com um discurso moralista que aliás não será nada bem recebido, mas que vão enquanto observadores, passar uma manhã, um dia, um fim de semana com alguém que conheçam nesses bairros desfavorecidos (sugestão: as vossas empregadas), vão sentir o que poderia ser viver nas condições deles, não tivesse o acaso e a boa fortuna vos bafejado para o lado da minoria privilegiada. Será seguramente uma experiência que vos aproximará muito mais dos “outros” angolanos, os angolanos esquecidos, culpados por não terem tido filhas caçadoras de generais e filhos que pudessem ter estudado sem ter de trabalhar paralelamente no outro turno para trazer os trocos para o funji do almoço, culpados a cada dia por recolherem o seu salário paralelo aproveitando-se do “poder” conferido pelos cargos que ocupam para extorquir injustamente um ordenado mais justo à sociedade civil, porque o salário mínimo gastou-se no medicamento para a filha doente, os professores, agentes da polícia, fiscais (estes em competição cerradíssima com a polícia nacional para o título de maiores cães insensíveis e abusadores de poder), trabalhadores da função pública, do sector privado, culpados por tentarem sobreviver nesta selva onde reina o individualismo e ser pobre é sinónimo de ser fraco, subdesenvolvido, inculto. Vamos conhecê-los, vamos tentar compreender o seu percurso, as razões dos seus comportamentos, é o primeiro passo para acabar com a intolerância e a incompreensão, com o crescente racismo, com o tribalismo, sendo todos eles filhos da ignorância que continuamos a perpetuar insistindo em comportar-nos como temos feito até aqui: fechando os olhos, trancando as portas do carro e descartando-nos de toda e qualquer responsabilidade na desgraça alheia.
KulpadoKomum