Sexta-feira, Agosto 17, 2007

Um passo coxito p’ó mangolé… um pulo do caraças p’Angola

Na filosofia do “sozinho”, daquele que se sente impotente face à imponente e imbatível realidade, que tenha decidido abandonar o sonho de grande escala para se centrar em acções individuais mais pequenas, de mais modestas ambições e impacto diminuto, tocando pouco mais de um punhado de pessoas de cada vez, a primeira etapa para deixar florir dentro de si a exuberante e esplendorosa flor do altruísmo, será o conhecimento terreno da realidade que o circunda. Aqui, por falta de estudos sociológicos, estatísticos, demográficos (pelo menos públicos, publicados ou publicamente comentados), mas também por factores de ordem “cultural” (a cultura do fechar os olhos, do preconceito, dos à priori, da generalização), somos muito rápidos a julgar os outros, escolhendo uma cestinha repleta de critérios discriminatórios como o tom de pele, a aparência, a indumentária e a apontar dedos acusadores contra os presumíveis culpados pelo estado da nação, pela corrupção, pela delinquência e tudo mais. Gastamos tantas energias procurando culpados que nos esquecemos de olhar para o espelho e por isso, ao invés de flores, estamos a esterilizar o nosso espírito deixando que as plantas daninhas da incompreensão, do ódio e do repúdio se instalem duradoiramente no nosso jardim.

Neste post, quero expor muito sucintamente um humilde passo que a princípio pode parecer absurdo na sua simplicidade e ridículo no que se propõe alcançar, não uma mudança à escala nacional, mas antes, um despertar do indivíduo, o aproximar de cada cidadão deste país, o entendimento e o bom senso.

A minha proposta para uma pequena revolução pessoal, numa micro-escala é o gesto da realização de um esforço mínimo para tentarmos perceber o que é viver nos escalões sociais mais baixos da sociedade, passar um, alguns, muitos dias com aqueles e aquelas que sofrem na pele as injustiças do capitalismo selvagem, que vêem as suas casas serem demolidas sendo recompensados com irrisórios 500 USD (“com que então, construção ilegal não é? Pois saiba que legalmente não temos sequer de indemnizá-lo caro senhor, dê-se por satisfeito e pouco pio!”), que vêem os filhos esvair-se em sangue à porta da clínica que recusa recebê-los sem o “cash in hand”, daqueles que são forçados a deixar os seus recém nascidos ao cuidado de criancinhas que ainda brincam com bonecas para que possam ir trabalhar e trazer no fim do mês aquela “ajuda humanitária”, aquela aberração a que chamamos salário. Não digo que vão “à maluca” e muito menos que vão armados em educadores, donos da razão e da verdade com um discurso moralista que aliás não será nada bem recebido, mas que vão enquanto observadores, passar uma manhã, um dia, um fim de semana com alguém que conheçam nesses bairros desfavorecidos (sugestão: as vossas empregadas), vão sentir o que poderia ser viver nas condições deles, não tivesse o acaso e a boa fortuna vos bafejado para o lado da minoria privilegiada. Será seguramente uma experiência que vos aproximará muito mais dos “outros” angolanos, os angolanos esquecidos, culpados por não terem tido filhas caçadoras de generais e filhos que pudessem ter estudado sem ter de trabalhar paralelamente no outro turno para trazer os trocos para o funji do almoço, culpados a cada dia por recolherem o seu salário paralelo aproveitando-se do “poder” conferido pelos cargos que ocupam para extorquir injustamente um ordenado mais justo à sociedade civil, porque o salário mínimo gastou-se no medicamento para a filha doente, os professores, agentes da polícia, fiscais (estes em competição cerradíssima com a polícia nacional para o título de maiores cães insensíveis e abusadores de poder), trabalhadores da função pública, do sector privado, culpados por tentarem sobreviver nesta selva onde reina o individualismo e ser pobre é sinónimo de ser fraco, subdesenvolvido, inculto. Vamos conhecê-los, vamos tentar compreender o seu percurso, as razões dos seus comportamentos, é o primeiro passo para acabar com a intolerância e a incompreensão, com o crescente racismo, com o tribalismo, sendo todos eles filhos da ignorância que continuamos a perpetuar insistindo em comportar-nos como temos feito até aqui: fechando os olhos, trancando as portas do carro e descartando-nos de toda e qualquer responsabilidade na desgraça alheia.


KulpadoKomum


Escrito por (R)EvolucaoEmAngola em 17:04:10 | Link permanente | Comments (16) |

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Continuaremos a luta!

Como já foi visto nos comentários (para aqueles que acompanham), poucas assinaturas foram recolhidas no abaixo-assinado realizado na passada semana em Lisboa. Não por negligência da nossa parte, mas por muitos factores que não vou voltar a repetir (ver comentário 1 e 2 do artigo CARTA AO CONSULADO: Abaixo-assinado). A verdade é que fizemo-nos ouvir. Talvez não pelo consulado ( que até hoje não respondeu), mas por todos aqueles que estão interessados «na edificação de um Estado Soberano e Democrático». O Semanário Angolense falou sobre a nossa iniciativa na edição desta semana (28 de Julho a 04 de Agosto de 2007) num artigo de Ana Margoso intitulado «Angolanos no exterior reivindicam», onde a jornalista fala de maneira objectiva sobre a carta que foi entregue ao Consulado, citando algumas passagens desta mesma carta. Recebemos também e-mails de várias pessoas, com palavras de incentivo e solidariedade. Não pensem que estou com isso a vangloriar-nos, pois ainda não fizemos nada e nada também obtivemos. Estamos ainda longe daquilo que pretendemos alcançar. Pois bem, meus compatriotas, tudo isso faz-nos pensar: E agora? Para aonde vamos? Se não forem prestados nenhum tipo de esclarecimentos e ou se os esclarecimentos prestados forem insuficientes para justificar tal injustiça? Até aonde estaremos dispostos a ir? Temos de estar prontos para continuar a nossa luta. Temos o direito de escolher o nosso representante ( o Presidente da República é o representante de todos os angolanos, estejam eles aonde estiverem.
 Porquê não uma manifestação pacífica e organizada? E não pensem que falo de um assunto sério de maneira leviana: Falo perfeitamente consciente do peso que tem tal afirmação e tal acção. Falo consciente da seriedade da situação e do acto. Obviamente que não seria uma coisa para hoje: precisamos de tempo para nos organizar, para mobilizar mais pessoas, para legalizar a manifestação, para espalhar a mensagem, fazer o apelo. Seria um trabalho começado do zero, mas que seria deveras importante para toda a nossa luta. Podem estar a pensar: “ Se mesmo um simples abaixo-assinado as pessoas se mostram relutantes e receosas de o fazer, imagina uma manifestação”. Questão perfeitamente legítima. Pois bem, temos de encarar essa possibilidade. Tentaríamos fazer passar a mensagem pelos media (RDP, RTP África, etc.), tentaríamos distribuir panfletos na rua, alargar esse raio de “influências”, ou seja tocando angolanos que ainda não ouviram falar nisso. E mesmo que no fim sejamos poucos, faremos com que a nossa voz seja ouvida. Não digo que seja algo fácil, mas é certamente algo que pode ser feito.
Daremos uma “deadline”, uma data limite para que nos comecemos a organizar e a mobilizar mais angolanos nesta luta. Esperaremos até dia 1 de Setembro.
Escrito por (R)EvolucaoEmAngola em 00:44:59 | Link permanente | Comments (4) |