Sunday, December 16, 2007

As guerras e as desculpas esfarrapadas que as justificam, pt. II

No post passado tentei chamar a vossa atenção para a importância da manutenção do dólar como moeda referência nos intercâmbios comerciais, para a continuidade dos Estados Unidos de América na pole-position da economia mundial.

E até que ponto estariam eles preparados a ir para preservar essa hegemonia? As apostas são elevadíssimas, trata-se de defender um modus vivendi ao qual foram habituados os cidadãos americanos e que só é sustentável se estiverem asseguradas algumas comodidades económicas.

Os visitantes deste blog, que até são poucos, já se devem ter questionado como funciona essa “coisa” das dívidas externas e porque que uns países são pressionados para a pagarem quando as maiores dívidas do mundo são detidas pelos países mais desenvolvidos, correndo solitário à frente, nada mais nada menos que os EUA com 10 triliões de $. A verdade é que quanto mais “sólida” a economia, mais fiável é o devedor (pensem no rico e no pobre que se dirigem ao mesmo banco para pedir um empréstimo) e os Estados Unidos são nada mais nada menos que a entidade emissora do dinheiro mundial, podendo dar-se ao luxo de imprimir mais quando fizer falta.

Mas, há também o facto dessa dívida ser sustentada pelos detentores de dólar mundialmente, que realizam as suas compras e investimentos nessa moeda, garantindo assim a sua afirmação como moeda rainha. Ou seja, um país em vias de desenvolvimento faz-se financiar pelo FMI ou pelo Banco Mundial (empréstimos esses fixados, logicamente, em dólares), esse financiamento não vai servir para ficar parado no banco à espera de taxas de juro, será utilizado para meter em prática a estratégia de relance da economia do país debitor (comprar ou investir) e remunerado com juros. Essa circulação de dólares além-fronteiras permite aos americanos endividarem-se tranquilamente sem recear o futuro.

Quais seriam os cenários a considerar de uma possível diminuição do dólar nas reservas mundiais?

Digamos que por uma razão qualquer, os vários países do mundo começam a reduzir a quantidade de dólares que armazenam e o substituam gradualmente por outra(s) moeda(s), para negociarem com cada parceiro comercial nas moedas que melhor lhes convém.

Uma das consequências mais evidentes seria que a procura pela moeda americana diminuiria, diminuindo assim o seu valor e, se continuarmos na lógica anterior, a dívida passaria a ser mais premente do lado do seu verdadeiro detentor e isso abanaria as consciências americanas, entorpecidas pelo “american dream”, que seriam forçadas a acordar para o pesadelo da incerteza.

A incerteza faz parar o dinheiro, aqueles que o detêm têm medo de o investir e perdê-lo, os credores vão buscar o que lhes é devido com medo de os seus clientes se tornarem insolventes (incapazes de honrar a dívida contraída). Uma ilustração bem recente disto foi a crise do mercado imobiliário nos EUA onde, devido à taxa de juros baixíssimos, os bancos se meteram a emprestar dinheiro como se o amanhã não viesse e como consequência os preços dos kubicos subiram em flecha (pensem sempre na PROCURA/OFERTA, com créditos baixos o pessoal vai querer aproveitar para comprar a sua casa, só que toda a gente se mete a fazer isso e o resultado é que as casas disponíveis não acompanhando o rítmo da procura, vão se valorizar).

O dólar anda um coxe coxo!

Verdade seja dita e assumida, o dólar tem vindo a perder muito valor nos últimos tempos, sobretudo em relação ao euro, com uma tendência a acentuar-se o fenómeno no futuro próximo. Fiz-vos um quadro abaixo em que limito a comparação da taxa de câmbio do dólar com algumas moedas, recolhendo apenas o câmbio no início de Janeiro e o actual (Dezembro). Se quiserem divertir-se a fazer as vossas comparações, carreguem aqui para €, Libra, Yen e Yuan e aqui, para o nosso Kwanza.






Euro

Libras

Yen (Japão)

Yuan (China)

Kwanza

Janeiro 2007

.758

.51

119

7.8

80

Dezembro 2007

.683

.49

112

7.4

74

Isso é bom ou mau? Depende do ponto de vista de quem analisa, mas há sempre ganhadores e perdedores.

As empresas americanas que se dedicam sobretudo a exportação, ganham clientes europeus (mundiais) que vão fugir do euro forte e poupar muito dinheiro importando dos EUA, mas as empresas americanas que são essencialmente importadoras e que têm na Europa o seu fornecedor principal, vêm-se gregas para suportar o custo imposto pela taxa de câmbio desfavorável. O cenário na europa é igual, é só aplicar a lei do “vice-versa”.

No caso de Angola, os EUA e a China são dois dos seus maiores clientes, um paga em dólares porque é a sua moeda nacional e o outro porque é a moeda dos intercâmbios internacionais. Por sua vez Angola vai importar os bens mais baratos possíveis para o seu consumo e , sendo detentora de dólares, sai-lhe muito mais em conta adquirir o que falta lhe faz, nos Estados Unidos ou na China, a Europa revelando-se um mercado mais caro.

Suponhamos agora que a China queira reduzir a sua importantíssima reserva de dólares (mais de um trilião) e comece a dar primazia ao euro como moeda de troca, Angola teria mais dificuldades em negociar com a China e provavelmente procuraria outros mercados, ou então, Angola poderia, também ela, desamarrar-se mais do dólar, moeda depreciada e acumular mais euros no seu lugar, moeda mais estável e mais fiável e que lhe garantia um melhor acesso (mais barato) ao mercado europeu, cada vez mais importante (27 países, mais de 490 Milhões de habitantes). Só que essa é uma decisão que não podemos tomar de ânimo leve, porque ante ameaça à estabilidade interna do “american dream”, os “maldosos” que tiveram a audácia de o arruinar, terão de pagar as consequências e nós, penso eu, estamos fartos de ouvir as armas a falar e não creio que tenhamos a força anímica e de espírito para nos fazermos rebentar em restaurantes.

A liberdade de escolha, sedimentada na soberania nacional

Os países do Médio Oriente têm todo o interesse, economicamente falando, em dar esse salto. Todos os indicadores são favoráveis ao € e à dispensa do $, a balança comercial é excedentária, a dívida externa europeia comparada com a americana é modesta e as taxas de juro são significativamente mais altas (interessante para os investidores e credores, sector bancário e imobiliário essencialmente). Para complementar, o mercado europeu é agora o mais importante em termos de efectivos, o principal parceiro comercial dos países do Médio Oriente e, finalmente, quase tudo que se pode adquirir em $, pode-se também adquirir em €, excepto… adivinhem… o petróleo!

A experiência iraquiana mostrou o melhor e o pior. Na altura da mudança do dólar para o euro, o câmbio estava em 1$ = 0.83€, dois anos depois… preciso de dizer mais? Logicamente o pior, foram as consequências políticas, ainda hoje podemos testemunhá-las no jornal das 13 (eles são muito “chateados” esses iraquianos, não aceitam a derrota com a veleidade que gostariam os seus “libertadores”).

Mesmo assim, os outros países parecem inclinados em dar seguimento ao timoneiro Hussein. O Irão já tem a sua reserva em euros constituída, indicador mais do que evidente da sua vontade. Hugo Chavez ferrenhamente anti-americano, vê com bons olhos esse distanciamento em relação ao dinheiro do império, tendo ele próprio já tomado medidas que fizeram ranger os dentes em Washington, nomeadamente a troca de petróleo com professores e médicos cubanos.

A libertação dos povos oprimidos por ditadores

Os EUA consomem 25% da produção mundial de petróleo, são mais dependentes do bruto que qualquer outro país e, ter de adquiri-lo numa moeda apreciada em relação a sua, seria o fim da macacada, a queda do ogre, o terminus para o comboio do tio Sam. Algo tem de ser feito né? Jogue-se o ás de copas (sendo o de espadas o petróleo), a carta secreta número dois no baralho dos estadunidenses para controlarem os negócios mundiais: a acção militar.

KulpadoKomum

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 01:40:01 | Permalink | Comments (12)