Tinha eu começado a reunir o material para desenvolver o meu próximo tema, “A identidade africana e a angolanidade como elementos de união e coesão entre os povos africanos” que devem, na minha singela e irrelevante opinião, escrever a sua História e não esperar encontrá-la na informação que os outros historiadores vieram recolher para as suas teses de fim de curso, quando…
Depois de uma acesa discussão com o meu queridíssimo irmão N’manga, apercebi-me que talvez estivesse a dar um passo maior que a perna, pois temos muito ainda a discutir sobre essa “angolanidade” que todos defendemos, cantamos, dançamos, mas que para além do conceito fluído de linhas imaginárias na areia, de alguns pratos típicos, umas fotografias de paisagens, antílopes em extinção, e de uma língua que nos sobrou de herança, não sabemos bem definir.
Existe uma identidade angolana?
Quantos de nós conhecemos verdadeiramente a fantástica diversidade e complexidade histórica de todos os povos que de repente se encontraram sob uma administração comum e a quem, desde então, temos vindo a tentar “impingir” uma identidade única? Quantos de nós conhecemos os hábitos e os costumes dos Koï-San (quantos sabemos que/se ainda existem, quantos sobraram? Quantos se interessam?), das Mumuílas que nos suscitaram uma mobilização mundial na reacção de repúdio visceral à maneira como foram retratadas num qualquer programa, de um qualquer Jô, que é em ocorrência, mais conhecido (e reconhecido) em Angola do que o José Sayovo?
Esse eterno falso orgulho cantado pelo meu bom amigo Keita Mayanda, de gente que nem sabia que tal povo ainda pudesse existir e que está muito menos preparada para discutir os seus hábitos do que o tuga que as “estudou” e ilustrou (e aqui junto-me ao coro) como beldades de tradições retrógadas e inferiores à ilustre cultura urbana da sociedade ocidental, merecendo por isso aquela generalizada risota de ignorantes que não conhecem mais do que Mcdonald’s e novela das oito.
O desporto seria um dos métodos talvez mais eficazes de imbuir aos elementos circunscritos por essas linhas imáginarias, em todos os seus 1 246 700 Km2, uma noção de coesão e unicidade, mas enquanto o Jô for mais conhecido que o José Sayovo, sinto muito, essa missão é um fiasco completo.
Então o que nos faz gritar com tanto orgulho VIVA ANGOLA, DE CABINDA AO CUNENE, UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO!!!?? Os nossos métodos são bons? Estão a ser bem aplicados?
Vejamos, eu ia começar o que deveria ser o meu próximo artigo comentando o facto da minha assumida vergonha aquando de discussões com os meus amigos africanos de outras nacionalidades, de não dominar, nem ao menos remotamente, nenhuma das nossas línguas nacionais (dialectos se preferirem), nem sequer a da região a qual pertenço, o kimbundu. Isto para eles é aberrante e por mais que eu tente explicar que talvez a razão da não inclusão de línguas nacionais no programa escolar tenha sido para tentar eliminar o tribalismo, a verdade é que eu próprio, ouvindo-me proferir estas palavras, não me convenço do fundamento desta justificação atabalhoada.
Não se tenta forjar uma identidade nacional ofuscando a beleza e a riqueza cultural inerentes de cada uma das partes constituintes desse território, com o risco de darmos um tiro no pé, causando um profundo desagrado da parte dos visados e uma reacção de repulsa aos novos valores comuns que lhes tentam inculcar, podendo levar a choques extremos, que servem de combustível ao fogo que se tenta arduamente extinguir: “Esses kimbundus, assimilados, vendidos ao branco, querem agora vir nos dizer os códigos comportamentais ocidentalizados que devem constituir o nosso cantinho comum? Não passam de lobos em pele de cordeiro! …” Pataty-patatá, conhecemos as sequências de adjectivos qualificativos depreciativos, normalmente nada abonatórios aos “opressores” e sabemos muito bem que as pessoas são altamente receptivas a este tipo de discurso, sobretudo quando se sentem mesmo discriminadas (e aqui falo de um ponto de vista geográfico e económico e não em relação à cor da pele) interiorizando uma raiva, um asco, um desprezo por todos os que sejam da “tribo” dominante e que tomam as decisões por eles (já aqui incluíndo todos os anteriores adicionados da côr de pele, na qual metem, não raras vezes, ênfase).
Toda esta fastidiosa introdução para chegar ao ponto essencial, que me levou a começar este artigo, preliminar ao meu próximo e que toca a uma questão muito sensível e frequentemente evitada da nossa actualidade:
CABINDA: Um assunto tabu?
Sabemos bem que desde antes de 1975, isto é, antes de N’gola se tornar Angola, que há um movimento de libertação activo nesta província, reivindicando a sua desanexação administrativa com o que consideram ser uma potência invasora. Também sabemos (ou imaginamos com alguma segurança arrogante) quais são os motivos principais por detrás deste ardente desejo de secessão, pelo menos da parte dos cabecilhas desses movimentos: Cabinda é pura e simplesmente a mais rica província de Angola em petróleo e Angola tem a sua economia completamente “agarrada” à este combustível fóssil.
Certamente Cabinda sentir-se-á injustiçada, achando que a riqueza do seu solo não lhe revém em forma de investimento, perdendo-se muitos dos petrodólares em negóciospouco transparentes e bolsos de uns e outros tubarões no governo central. É possível. Mas este não é o argumento principal utilizado, os argumentos raramente são os verdadeiros (normalmente económicos) porque as “massas” precisam, para se implicarem ou se aliarem à uma causa, que a luta seja nobre, por valores muito mais profundos que o poder de compra. A legitimidade vão buscá-la nas fronteiras deliberadas e impostas após a conferência de Berlim, ou por cláusulas não respeitadas do tratado de Simulambuco que estabelecia Cabinda tão somente como um protectorado português e não como parte da província ultra-marina de Angola.
A História é sempre um argumento mais eficaz atribuindo um peso solene e e dignificante à qualquer luta pela auto-determinação. Poderemos nós, do cimo da nossa arrogância sempre repleta de certezas, afirmar que tudo o que eles querem é o petróleo todo para eles, que não passam de egoístas egocêntricos, recusando ver uma parte da sua riqueza ser distribuída por gente mais necessitada com a infelicidade circunstancial de ter nascido numa zona onde as riquezas, se as houverem, ainda não começaram a ser exploradas, ou se o são, ainda não trouxeram frutos? Sinto muito, mas acho que também não podemos cair nesse erro de asserções absolutistas sem antes nos deslocarmos a Cabinda e “tirarmos a temperatura” ao povo cabindense e tentarmos entender como podem cair nesse conto do vigário, ou se caíram efectivamente, ou mesmo, se tal conto sequer existe. Também não podemos saber qual a franja dessa população que é realmente pela secessão, do âmago da sua convicção política e que apoia o movimento de libertação de coração.
Mas não será certamente escamoteando o assunto como nos habituamos a fazer na capital, evitando o debate público de uma questão tão profunda, que o governo conseguirá tornar a sua posição (justa ou injusta), mais credível para os cabindenses e para o resto dos angolanos que vão seguindo os desenvolvimentos pelos periódicos da capital, não sem uma certa dificuldade em localizar-se historicamente e compreender o cerne da questão (eu incluo-me nesse rol). Autonomia, FLEC, Mpalabanda, são as três palavras que compõem o grosso das matérias, mas elas são desesperadamente insuficientes e mostram, uma vez mais, a incapacidade, ou a falta de vontade, do Estado em fazer participar a sociedade civil nas discussões sobre problemas que nos tocam a todos, as suas dimensões e implicações reais, preferindo continuar a tratar o seu “eleitorado” como bebés de colo que não podem entender diplomacia (ou uso de artilharia), usando a sua estratégia rídicula de sempre: “Quanto menos poeira levantar, mais fácil e menos bandeiroso será “arrumar o assunto”. “
A questão para mim é esta: não terá o governo angolano as mesmas razões simplistas e puramente económicas, simétricas à dos líderes cabindas, e nos vá alimentar do nosso lado a conversa de uma união nacional que nunca existiu (plenamente, nos corações de TODOS os angolanos)? Da mesma maneira que podemos querer acreditar que há, de verdade, um fundo puro, sadio e sincero (mesmo que na sua maneira ímpar de o demonstrar) da parte do governo e que ele queira mesmo preservar essa identidade nacional, os cabindas estão no seu direito de preferir acreditar no discurso dos seus supostos libertadores que terão certamente algumas provas da má gestão da “sua” riqueza na capital do país e as usem como argumento para convencer os mais cépticos que a unidade nacional é só uma desculpa. Isto é sempre assim, as verdadeiras intenções de cada lado, não são nunca assumidas, têm de ser apontadas de um dedo acusador pelo nosso adversário. Grande dilema não é?
A solução, para mim, é muito simples, não vejo a razão de tanto “fuzwé” (para alegrar os fãs incondicionais do Jô e dos nossos queridos irmãos brasileiros) com desculpas para aqui e para ali e tentativas de negociatas que certamente envolvem promessas obscuras de maquias irrecusáveis em contas offshore se “nos entendermos todos como irmãos e amigos”: promova-se a realização de um referendo!
Dá-se um tempo de campanha para os dois lados tentarem o seu melhor para passar uma ensaboadela aos cérebros das pessoas, que eles sempre hão de julgar como sendo estúpidas, engolindo as suas ideias mal explicadas como se de papa Cerelac se tratasse e que, depois disso, se deixasse nas mãos do povo a deliberação com a sua consciência e com as suas convicções, registada em forma de voto. Não é esta a forma mais legítima de se tomarem decisões numa democracia? É numa democracia que alegamos com elevada frequência viver ou estou enganado? Ou o Chavez, que já fez 11 (!) referendos desde que foi eleito pela primeira vez em 1998, é que é o ditador?
Não posso considerar credíveis os líderes da FLEC/FLAC que “lideram” a guerrilha directamente das suas confortáveis “mansões” em Paris ou seja lá em que outras cidades da Europa se encontrem a difundir a sua causa, é muito feio decidir lutar, mas não se envolver físicamente na batalha. Também não sei a que ponto poderia reconhecer na Mpalabanda uma verdadeira representação do sentimento generalizado do povo desse enclave, mas, que raios, que alguém me explique a razão pela qual não lhes perguntamos directamente?
Se fosse eu um enviado em nome do povo angolano para tentar convencer os cabindas a não abandonarem o barco, este seria o tipo de discurso, sem papel (será que mais ninguém consegue exprimir genuinamente o que sente, com frontalidade, sem ter de recorrer a um discurso de tecnocrata apodrecido, dactilografado num papel amarelado?), com o qual tentaria convencer o povo de Cabinda a não levantar a âncora tão prematuramente:
“Querido povo de Cabinda, oh, perdão, queridos angolanos de Cabinda. Finalmente, depois de tanto sangue inútil dos nossos irmãos ter sido derramado pela luta que escolheram abraçar, resolvemos, lá na capital, parar de ignorar essa garra, essa fibra que vos caracteriza e com a qual têm diligentemente demonstrado a vossa determinação de ferro pelo direito a escolherem o vosso destino sem que este vos fosse, mais uma vez, imposto. Hoje admitimos ter sido uma estratégia infantil de tão arrogante. Deveríamos, naturalmente, tendo vindo de concluir uma luta similar pela independência dos nossos povos das garras do colonialismo, ter sabido fazer melhor do que reprimir pura e simplesmente as manifestações de descontentamento que emanavam e continuam a emanar de tantos povos por esse nosso Angola à fora, mas ao invés disso, ouvi-los, discutir com eles sobre as razões e as soluções plausíveis que nos permitissem a todos estar de bem e, juntos, lutarmos pela edificação dessa identidade comum que tão sequiosamente, mas com pouca maturidade procurámos. Não quero ser repetitivo e tocar sempre o mesmo kuduro desculpando-me com a guerra fratricida que eclodiu logo após a proclamação da independência e que impediu de gatinhar a nossa jovem Nação, obrigando-a a arrastar-se mutilada, física e mentalmente, durante 3 décadas, mas , meus irmãos, é um facto e dizer o contrário seria incorrer numa mentira grosseira pela qual não ousarei aventurar-me, ela foi a nossa prioridade primeira e por isso, o termos descurado a vossa digna luta, relegando-a para segundo plano. Não vamos fingir de avestruz o resto da vida, até porque não temos um resto de vida se não resolvermos esta nossa querela o mais rapidamente possível, entre nós, irmãos.
Unidos por força das circunstâncias históricas ou não, é contraproducente negar que temos HOJE, uma História em comum. Ela depassa-nos e une-nos como jamais. Pode parecer contraditório querer escorraçar o colono e depois usar a única coisa que ele nos deixou de herança como elo de ligação para justificar as nossas fronteiras, mas, queridos irmãos, será que queremos também voltar ao período pré-colonização em que ora nos entendíamos, ora andávamos à porrada uns com os outros? Não será que, do mal o menos, deveríamos apoiar-nos na nossa História “recente” comum de 500 anos e nela fundar o nosso futuro e estreitar os nossos laços? Num primeiro tempo usando o português, mas quem sabe mais tarde, uma fusão das várias línguas nacionais que compõem este vasto, belo e rico país que agora temos a responsabilidade de, JUNTOS, dirigir? Eu sei e reconheço que, até agora, não temos demonstrado sinais de querer agir nesse sentido, sei também que vocês se sentem “justamente injustiçados” por não verem como gostariam, frutificarem-se as receitas provenientes dos lençóis de ouro preto que se estendem no vosso subsolo enriquecendo a vossa costa, mas, caros irmãos, apesar de todos nós sabermos passarem-se obscenidades com o nosso dinheiro, derivadas da fraqueza do ser humano que cede à tentação da luxúria e da aparente facilidade e impunidade com a qual se pode adquiri-la no país que estamos a tentar edificar, todos sabemos que isso não pode durar para sempre e que, com o fim da guerra, será muito mais difícil arranjar justificações para os rombos dos anos precedentes e que os malfeitores serão admoestados com penas severas por privarem os donos desse dinheiro, vocês, povo de ANGOLA, de também se alimentarem, se vestirem, se alojarem, se divertirem e o estourarem como bem entenderem.
Em breve cada um de vocês terá a ocasião, depois de todos esses anos em que vos negamos esse direito, de se exprimir por pleito eleitoral e nessa altura, queridos angolanos de Cabinda, peço-vos que pensem com o vosso coração e não com a promessa que querem vender-vos de enriquecimento pessoal vertiginoso. Porque essa riqueza pessoal não saberia fazer-se senão em detrimento do aumento da miséria dos outros, por essa Angola fora. Será que vocês querem ter isso na consciência? Povo de Cabinda, não vim aqui para dar continuidade a falsidade política que prefere usar artifícios de retórica para convencer as massas, como se de uma competição entre pseudo-intelectuais com o vocabulário mais rebuscado se tratasse. Ao invés disso, uma sincera abordagem do problema com o qual nos confrontamos, que possa ser compreendida pelo menos iluminado dos estudantes do secundário. Se estou aqui hoje com o coração aberto, assumindo os nossos erros e implorando que vocês tenham a bondade de espírito e sabedoria (coisas essas que entre nós, homens de poder, são recursos de extrema raridade) para nos perdoarem, é porque, nós precisamos de vocês, vocês não são dispensáveis, vocês não são algo do qual possamos abrir mão. É certo, precisamos da vossa riqueza para podermos dar continuidade à nossa expansão económica, isso é lógico e seria absurdo da minha parte omiti-lo, como se vocês não fossem crescidos o suficiente para se darem conta sozinhos. Mas, essencialmente, precisamos de vocês para perseverar na busca pelo sonho, sonho pelo qual tão arduamente lutámos, por quem tombaram juntos, nas mesmas frentes de combate, cabindenses, luandenses, benguelenses, malanjinos, todos esses povos corajosos do mais recôndito dos cantos, esse sonho que foi utópico e depois só irrealista e depois já tangível e hoje uma quase realidade, esse sonho que agora cabe a nós, juntos, concretizar, esse sonho chamado Angola.”
Algo do género. Acabaria por, tentando provar a minha franqueza, lhes pedir humildemente que me pusessem à prova perguntando-me o que quisessem sem receio nenhum, esse receio que se tornou uma constante quando fala um responsável político, de se lhe colocarem perguntas que possam ser constragedoras e que se generalizou aos supostos recolhedores de informação, muito por culpa da cultura de revanchismo implementada por esses mesmos políticos que odeiam ver-se confrontados por gente que “não percebe” o seu empenho e dedicação. Fá-lo-ia, insistindo que não era diferente nem superior a nenhum dos presentes, pelo contrário, um funcionário que tinha no povo a minha entidade empregadora e que me submeteria ao que ele deliberasse como sendo o melhor para a colectividade.
Se os resultados do voto fossem favoráveis à continuidade no território nacional, restaria esperar que os combatentes soubessem render-se à vontade popular e entregassem as armas, sendo-lhes prometidas as baboseiras de sempre, amnistia por todos os males e crimes cometidos e fraternidade eterna etc; Caso contrário, passariam a ser oficialmente um grupo de meliantes, pois a legitimidade política ter-lhes-ía sido subtraída pelo povo que dizem representar.
Mas imaginemos o caso inverso. Os votos dão, digamos que por larga vantagem para evitar argumentos de fraudes e essas merdas que gostamos de acusar os adversários de ter cometido para recusar a derrota, vitória para CABINDA INDEPENDENTE. Pergunto-vos caros amigos, patriotas e democratas, o que acham que deveria o Estado angolano fazer nessa situação?
Aguardo-vos na secção de comentários? (Que tal esta para estremecer um pouco os ânimos?)
KulpadoKomum