Wednesday, December 19, 2007

INDEPENDENCIA CULTURAL — I ACTO

Família Blog,

Antes de entrar no tema que pretendo abordar, quero dizer que estou extremamente contente em ver que o blog tem sido um ponto de encontro, onde se têm promovido debates intensos e frutuosos. Debates esses que têm dado origem a dois fenómenos muito importantes :

. A multiplicidade de opiniões que tem sido digerida, debatida e reconhecida pelas várias partes envolvidas;

. O estímulo à pesquisa, recorrendo às mais variadas fontes disponíveis, com intuito de aprofundar e sustentar os nossos argumentos.

Isto, por mais simples que pareça, acontece cada vez menos hoje em dia, nas nossas sociedades superficiais onde as ideias são de plástico e os argumentos tem a cor verde!

No ultimo “post” e comentários foram debatidos os mais diversos assuntos, mas lá para o fim, os mais aprofundados estavam mais ligados à economia. O tema que eu pretendo lançar para a nossa mesa de debate é um bocado diferente do anterior, mas também está ligado e tem como título :

“Despertar de consciências para uma ‘independência cultural’ em Angola”.

Arrisco-me a dizer que alguns de vocês já estarão a desenvolver um preconceito sobre o que vou falar, mas peço para manterem as vossas “tabúas em branco” e não julgarem o livro pela capa.

A MAKA

O “M.N” disse num dos seus comentários há alguns dias atrás, que nós “somos muito ocidentalizados”. Nesta frase eu tirava só o “muitos” e deixava “SOMOS OCIDENTALIZADOS” e mais nada!!! E não vale pena me virem dizer que “sei dancar kizomba e como funji, então sou Africano”. Quer queiram quer não, Angola tal como TODOS os países de Africa, foi “colonizada” (“desenvolver as condições de vida e a civilização dos indígenas”, Dicionário UNIVERSAL da Língua Portuguesa). Esta definição do dicionário mete nojo, deveriam das duas uma, ou mudá-la, ou arranjar outra palavra que pudesse exprimir mais fielmente a tamanha monstruosidade praticada pela Europa contra África.

Não venho aqui culpar a Europa pelos males todos de Angola, como fez um senhor há algum tempo, aqui no Blog. Venho relembrar este “pequeno” factor que foi a “colonização”, pois Angola e os Angolanos encontram-se num estado em que se pode dizer que conseguiram a sua independencia política há 30 anos, mas continuam dependentes de Portugal e da Europa culturalmente. Mudanças económicas, políticas e sociais positivas só poderão acontecer quando nós os Angolanos despertamos as nossas consciências e recuperarmos a nossa identidade há muito tempo perdida. O angolano não fala da sua História, continua a passar para trás as suas línguas nacionais, não é activo politicamente e tem como objectivo de vida fazer-se à imagem do homem do ocidente! Com a situação assim não chegaremos a desenvolvimento nenhum como Naçao, só se vocês concordarem que a construção de prédios de luxo com mais de 20 andares e ilhas falsas em frente à marginal de Luanda é desenvolvimento!

Então qual a minha sugestão ou palpite para realmente chegarmos a um desenvolvimento económico,político e social ?

. Eu acredito que o futuro de qualquer nação pode ser mudado se investirmos na educação e na cultura ! Porquê de não se ensinar linguas nacionais nas escolas angolanas? Poderão dizer que são línguas mortas e que não têm utilidade nenhuma no mundo de hoje. Mas uma língua vai mais além de interesses de mercado de trabalho deste mundo globalizado. A língua de um povo, é a História e a cultura do mesmo. Frantz Fanon, médico e escritor revolucionário que inspirou maior parte dos movimentos de libertação em África disse: “Eu atribuo uma importância fundamental para o fenómeno da lingua. Falar significa estar na posição de utilizar uma certa sintaxe, entender a morfologia deste ou daquele idioma, mas acima de tudo significa assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização “. Não pensem que estou aqui a pedir como fez Jomo Kenyatta antigo presidente do Quénia que disse a quem não conseguisse viver sem falar inglês poderia fazer as malas e ir-se embora. Mudar a nossa língua principal, o português, neste momento seria uma loucura, isto deveria ter sido logo após a independência e mesmo assim acho que teria sido complicado. Mas pronto, o que peço aqui é que voltem a pôr o ovimbundu, kimbundu, bakongo e as outras línguas a serem ensinadas como segunda língua nas escolas das suas regiões.

. Vamos também começar a exaltar mais os nossos heróis nacionais (a independência nao foi só Agostinho Neto) e o resto dos grandes africanos que lutaram pela independência nos seus países. Pessoas como : Steve Biko, Amílcar Cabral, Patrice Lumumba, Sekou Touré, Samora Machel, Jomo Kenyatta,Kwame Nkrumah entre muitos outros, devem ser lembrados e as suas lutas estudadas. Obras literárias africanas escritas por africanos têm que ser lidas nas escolas. Foram pessoas que foram mais além do debate e da conversa, inspiraram movimentos e mudaram mentes!

. Deixemos de dizer quem “encontrou” Angola e vamos falar de quem lá estava antes, vamos investir nas pesquisas sobre a nossa História antes dos portugueses terem chegado. Não pensem que quero voltemos a viver como há 5 séculos atrás, mas pelo menos quero que os jovens de hoje em dia tomem consciência de onde viemos , quem somos, por onde passámos e aonde estamos, pois os jovens hoje vivem numa Angola na qual aspiram “ascender” à cultura da coca-cola numa mão e telemóvel na outra. Os mais velhos que sabem da História e a viveram, não falam e parecem não ter força para esta segunda e decisiva luta que é a indentificação de Angola em África e no mundo !

Precisamos de ter a nossa própria personalidade para conseguirmos lidar com o presente e enfrentar o futuro. O petróleo pode dar-nos muito dinheiro para construirmos a torto e a direito, mas só a cultura e a educação darão ao povo angolano uma ALMA!

Por agora é tudo , quero que isto sirva mais como abertura ao debate a este tema importante. Aguardo ideias,críticas e sugestões.

Deixo-vos o incio de um poema de Maurício de Almeida Gomes do livro “Poesia de Angola”

Exortação

Ribeiro Couto e Manuel Bandeira,

Poetas do Brasil,

do Brasil, nosso irmão,

disseram :

” - É preciso criar a poesia brasileira,

de versos quentes, fortes, como o Brasil,

sem macaquear a literatura lusíada”.

Angola grita pela minha voz,

pedindo a seus filhos nova poesia!

Deixemos moldes arcaicos,

ponhamos de lado,

corajosamente

suaves endeixas

brandas queixas

e cantemos a nossa terra

e toda a sua beleza

Angola, grande promessa do futuro,

forte realidade do presente,

inspira novas ideias,

encerra ricos motivos.

É preciso inventar a poesia de Angola!

(…)

E só mais uma coisa, queria relembrar a todos visitantes que estão connosco na luta pelo voto dos angolanos na diáspora, para fazerem o vosso curto vídeo e mandarem para revolucaoemangola@gmail.com

Paz,

Mukuolua Kinamatos

Posted by Mukuolua Kinamatos at 05:30:49 | Permalink | Comments (24)

Dois em um como um cosmético

Tinha eu começado a reunir o material para desenvolver o meu próximo tema, “A identidade africana e a angolanidade como elementos de união e coesão entre os povos africanos” que devem, na minha singela e irrelevante opinião, escrever a sua História e não esperar encontrá-la na informação que os outros historiadores vieram recolher para as suas teses de fim de curso, quando…

Depois de uma acesa discussão com o meu queridíssimo irmão N’manga, apercebi-me que talvez estivesse a dar um passo maior que a perna, pois temos muito ainda a discutir sobre essa “angolanidade” que todos defendemos, cantamos, dançamos, mas que para além do conceito fluído de linhas imaginárias na areia, de alguns pratos típicos, umas fotografias de paisagens, antílopes em extinção, e de uma língua que nos sobrou de herança, não sabemos bem definir.

Existe uma identidade angolana?

Quantos de nós conhecemos verdadeiramente a fantástica diversidade e complexidade histórica de todos os povos que de repente se encontraram sob uma administração comum e a quem, desde então, temos vindo a tentar “impingir” uma identidade única? Quantos de nós conhecemos os hábitos e os costumes dos Koï-San (quantos sabemos que/se ainda existem, quantos sobraram? Quantos se interessam?), das Mumuílas que nos suscitaram uma mobilização mundial na reacção de repúdio visceral à maneira como foram retratadas num qualquer programa, de um qualquer Jô, que é em ocorrência, mais conhecido (e reconhecido) em Angola do que o José Sayovo?

Esse eterno falso orgulho cantado pelo meu bom amigo Keita Mayanda, de gente que nem sabia que tal povo ainda pudesse existir e que está muito menos preparada para discutir os seus hábitos do que o tuga que as “estudou” e ilustrou (e aqui junto-me ao coro) como beldades de tradições retrógadas e inferiores à ilustre cultura urbana da sociedade ocidental, merecendo por isso aquela generalizada risota de ignorantes que não conhecem mais do que Mcdonald’s e novela das oito.

O desporto seria um dos métodos talvez mais eficazes de imbuir aos elementos circunscritos por essas linhas imáginarias, em todos os seus 1 246 700 Km2, uma noção de coesão e unicidade, mas enquanto o Jô for mais conhecido que o José Sayovo, sinto muito, essa missão é um fiasco completo.

Então o que nos faz gritar com tanto orgulho VIVA ANGOLA, DE CABINDA AO CUNENE, UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO!!!?? Os nossos métodos são bons? Estão a ser bem aplicados?

Vejamos, eu ia começar o que deveria ser o meu próximo artigo comentando o facto da minha assumida vergonha aquando de discussões com os meus amigos africanos de outras nacionalidades, de não dominar, nem ao menos remotamente, nenhuma das nossas línguas nacionais (dialectos se preferirem), nem sequer a da região a qual pertenço, o kimbundu. Isto para eles é aberrante e por mais que eu tente explicar que talvez a razão da não inclusão de línguas nacionais no programa escolar tenha sido para tentar eliminar o tribalismo, a verdade é que eu próprio, ouvindo-me proferir estas palavras, não me convenço do fundamento desta justificação atabalhoada.

Não se tenta forjar uma identidade nacional ofuscando a beleza e a riqueza cultural inerentes de cada uma das partes constituintes desse território, com o risco de darmos um tiro no pé, causando um profundo desagrado da parte dos visados e uma reacção de repulsa aos novos valores comuns que lhes tentam inculcar, podendo levar a choques extremos, que servem de combustível ao fogo que se tenta arduamente extinguir: “Esses kimbundus, assimilados, vendidos ao branco, querem agora vir nos dizer os códigos comportamentais ocidentalizados que devem constituir o nosso cantinho comum? Não passam de lobos em pele de cordeiro! …” Pataty-patatá, conhecemos as sequências de adjectivos qualificativos depreciativos, normalmente nada abonatórios aos “opressores” e sabemos muito bem que as pessoas são altamente receptivas a este tipo de discurso, sobretudo quando se sentem mesmo discriminadas (e aqui falo de um ponto de vista geográfico e económico e não em relação à cor da pele) interiorizando uma raiva, um asco, um desprezo por todos os que sejam da “tribo” dominante e que tomam as decisões por eles (já aqui incluíndo todos os anteriores adicionados da côr de pele, na qual metem, não raras vezes, ênfase).

Toda esta fastidiosa introdução para chegar ao ponto essencial, que me levou a começar este artigo, preliminar ao meu próximo e que toca a uma questão muito sensível e frequentemente evitada da nossa actualidade:

CABINDA: Um assunto tabu?

Sabemos bem que desde antes de 1975, isto é, antes de N’gola se tornar Angola, que há um movimento de libertação activo nesta província, reivindicando a sua desanexação administrativa com o que consideram ser uma potência invasora. Também sabemos (ou imaginamos com alguma segurança arrogante) quais são os motivos principais por detrás deste ardente desejo de secessão, pelo menos da parte dos cabecilhas desses movimentos: Cabinda é pura e simplesmente a mais rica província de Angola em petróleo e Angola tem a sua economia completamente “agarrada” à este combustível fóssil.

Certamente Cabinda sentir-se-á injustiçada, achando que a riqueza do seu solo não lhe revém em forma de investimento, perdendo-se muitos dos petrodólares em negóciospouco transparentes e bolsos de uns e outros tubarões no governo central. É possível. Mas este não é o argumento principal utilizado, os argumentos raramente são os verdadeiros (normalmente económicos) porque as “massas” precisam, para se implicarem ou se aliarem à uma causa, que a luta seja nobre, por valores muito mais profundos que o poder de compra. A legitimidade vão buscá-la nas fronteiras deliberadas e impostas após a conferência de Berlim, ou por cláusulas não respeitadas do tratado de Simulambuco que estabelecia Cabinda tão somente como um protectorado português e não como parte da província ultra-marina de Angola.

A História é sempre um argumento mais eficaz atribuindo um peso solene e e dignificante à qualquer luta pela auto-determinação. Poderemos nós, do cimo da nossa arrogância sempre repleta de certezas, afirmar que tudo o que eles querem é o petróleo todo para eles, que não passam de egoístas egocêntricos, recusando ver uma parte da sua riqueza ser distribuída por gente mais necessitada com a infelicidade circunstancial de ter nascido numa zona onde as riquezas, se as houverem, ainda não começaram a ser exploradas, ou se o são, ainda não trouxeram frutos? Sinto muito, mas acho que também não podemos cair nesse erro de asserções absolutistas sem antes nos deslocarmos a Cabinda e “tirarmos a temperatura” ao povo cabindense e tentarmos entender como podem cair nesse conto do vigário, ou se caíram efectivamente, ou mesmo, se tal conto sequer existe. Também não podemos saber qual a franja dessa população que é realmente pela secessão, do âmago da sua convicção política e que apoia o movimento de libertação de coração.

Mas não será certamente escamoteando o assunto como nos habituamos a fazer na capital, evitando o debate público de uma questão tão profunda, que o governo conseguirá tornar a sua posição (justa ou injusta), mais credível para os cabindenses e para o resto dos angolanos que vão seguindo os desenvolvimentos pelos periódicos da capital, não sem uma certa dificuldade em localizar-se historicamente e compreender o cerne da questão (eu incluo-me nesse rol). Autonomia, FLEC, Mpalabanda, são as três palavras que compõem o grosso das matérias, mas elas são desesperadamente insuficientes e mostram, uma vez mais, a incapacidade, ou a falta de vontade, do Estado em fazer participar a sociedade civil nas discussões sobre problemas que nos tocam a todos, as suas dimensões e implicações reais, preferindo continuar a tratar o seu “eleitorado” como bebés de colo que não podem entender diplomacia (ou uso de artilharia), usando a sua estratégia rídicula de sempre: “Quanto menos poeira levantar, mais fácil e menos bandeiroso será “arrumar o assunto”. “

A questão para mim é esta: não terá o governo angolano as mesmas razões simplistas e puramente económicas, simétricas à dos líderes cabindas, e nos vá alimentar do nosso lado a conversa de uma união nacional que nunca existiu (plenamente, nos corações de TODOS os angolanos)? Da mesma maneira que podemos querer acreditar que há, de verdade, um fundo puro, sadio e sincero (mesmo que na sua maneira ímpar de o demonstrar) da parte do governo e que ele queira mesmo preservar essa identidade nacional, os cabindas estão no seu direito de preferir acreditar no discurso dos seus supostos libertadores que terão certamente algumas provas da má gestão da “sua” riqueza na capital do país e as usem como argumento para convencer os mais cépticos que a unidade nacional é só uma desculpa. Isto é sempre assim, as verdadeiras intenções de cada lado, não são nunca assumidas, têm de ser apontadas de um dedo acusador pelo nosso adversário. Grande dilema não é?

A solução, para mim, é muito simples, não vejo a razão de tanto “fuzwé” (para alegrar os fãs incondicionais do Jô e dos nossos queridos irmãos brasileiros) com desculpas para aqui e para ali e tentativas de negociatas que certamente envolvem promessas obscuras de maquias irrecusáveis em contas offshore se “nos entendermos todos como irmãos e amigos”: promova-se a realização de um referendo!

Dá-se um tempo de campanha para os dois lados tentarem o seu melhor para passar uma ensaboadela aos cérebros das pessoas, que eles sempre hão de julgar como sendo estúpidas, engolindo as suas ideias mal explicadas como se de papa Cerelac se tratasse e que, depois disso, se deixasse nas mãos do povo a deliberação com a sua consciência e com as suas convicções, registada em forma de voto. Não é esta a forma mais legítima de se tomarem decisões numa democracia? É numa democracia que alegamos com elevada frequência viver ou estou enganado? Ou o Chavez, que já fez 11 (!) referendos desde que foi eleito pela primeira vez em 1998, é que é o ditador?

Não posso considerar credíveis os líderes da FLEC/FLAC que “lideram” a guerrilha directamente das suas confortáveis “mansões” em Paris ou seja lá em que outras cidades da Europa se encontrem a difundir a sua causa, é muito feio decidir lutar, mas não se envolver físicamente na batalha. Também não sei a que ponto poderia reconhecer na Mpalabanda uma verdadeira representação do sentimento generalizado do povo desse enclave, mas, que raios, que alguém me explique a razão pela qual não lhes perguntamos directamente?

Se fosse eu um enviado em nome do povo angolano para tentar convencer os cabindas a não abandonarem o barco, este seria o tipo de discurso, sem papel (será que mais ninguém consegue exprimir genuinamente o que sente, com frontalidade, sem ter de recorrer a um discurso de tecnocrata apodrecido, dactilografado num papel amarelado?), com o qual tentaria convencer o povo de Cabinda a não levantar a âncora tão prematuramente:

Querido povo de Cabinda, oh, perdão, queridos angolanos de Cabinda. Finalmente, depois de tanto sangue inútil dos nossos irmãos ter sido derramado pela luta que escolheram abraçar, resolvemos, lá na capital, parar de ignorar essa garra, essa fibra que vos caracteriza e com a qual têm diligentemente demonstrado a vossa determinação de ferro pelo direito a escolherem o vosso destino sem que este vos fosse, mais uma vez, imposto. Hoje admitimos ter sido uma estratégia infantil de tão arrogante. Deveríamos, naturalmente, tendo vindo de concluir uma luta similar pela independência dos nossos povos das garras do colonialismo, ter sabido fazer melhor do que reprimir pura e simplesmente as manifestações de descontentamento que emanavam e continuam a emanar de tantos povos por esse nosso Angola à fora, mas ao invés disso, ouvi-los, discutir com eles sobre as razões e as soluções plausíveis que nos permitissem a todos estar de bem e, juntos, lutarmos pela edificação dessa identidade comum que tão sequiosamente, mas com pouca maturidade procurámos. Não quero ser repetitivo e tocar sempre o mesmo kuduro desculpando-me com a guerra fratricida que eclodiu logo após a proclamação da independência e que impediu de gatinhar a nossa jovem Nação, obrigando-a a arrastar-se mutilada, física e mentalmente, durante 3 décadas, mas , meus irmãos, é um facto e dizer o contrário seria incorrer numa mentira grosseira pela qual não ousarei aventurar-me, ela foi a nossa prioridade primeira e por isso, o termos descurado a vossa digna luta, relegando-a para segundo plano. Não vamos fingir de avestruz o resto da vida, até porque não temos um resto de vida se não resolvermos esta nossa querela o mais rapidamente possível, entre nós, irmãos.

Unidos por força das circunstâncias históricas ou não, é contraproducente negar que temos HOJE, uma História em comum. Ela depassa-nos e une-nos como jamais. Pode parecer contraditório querer escorraçar o colono e depois usar a única coisa que ele nos deixou de herança como elo de ligação para justificar as nossas fronteiras, mas, queridos irmãos, será que queremos também voltar ao período pré-colonização em que ora nos entendíamos, ora andávamos à porrada uns com os outros? Não será que, do mal o menos, deveríamos apoiar-nos na nossa História “recente” comum de 500 anos e nela fundar o nosso futuro e estreitar os nossos laços? Num primeiro tempo usando o português, mas quem sabe mais tarde, uma fusão das várias línguas nacionais que compõem este vasto, belo e rico país que agora temos a responsabilidade de, JUNTOS, dirigir? Eu sei e reconheço que, até agora, não temos demonstrado sinais de querer agir nesse sentido, sei também que vocês se sentem “justamente injustiçados” por não verem como gostariam, frutificarem-se as receitas provenientes dos lençóis de ouro preto que se estendem no vosso subsolo enriquecendo a vossa costa, mas, caros irmãos, apesar de todos nós sabermos passarem-se obscenidades com o nosso dinheiro, derivadas da fraqueza do ser humano que cede à tentação da luxúria e da aparente facilidade e impunidade com a qual se pode adquiri-la no país que estamos a tentar edificar, todos sabemos que isso não pode durar para sempre e que, com o fim da guerra, será muito mais difícil arranjar justificações para os rombos dos anos precedentes e que os malfeitores serão admoestados com penas severas por privarem os donos desse dinheiro, vocês, povo de ANGOLA, de também se alimentarem, se vestirem, se alojarem, se divertirem e o estourarem como bem entenderem.

Em breve cada um de vocês terá a ocasião, depois de todos esses anos em que vos negamos esse direito, de se exprimir por pleito eleitoral e nessa altura, queridos angolanos de Cabinda, peço-vos que pensem com o vosso coração e não com a promessa que querem vender-vos de enriquecimento pessoal vertiginoso. Porque essa riqueza pessoal não saberia fazer-se senão em detrimento do aumento da miséria dos outros, por essa Angola fora. Será que vocês querem ter isso na consciência? Povo de Cabinda, não vim aqui para dar continuidade a falsidade política que prefere usar artifícios de retórica para convencer as massas, como se de uma competição entre pseudo-intelectuais com o vocabulário mais rebuscado se tratasse. Ao invés disso, uma sincera abordagem do problema com o qual nos confrontamos, que possa ser compreendida pelo menos iluminado dos estudantes do secundário. Se estou aqui hoje com o coração aberto, assumindo os nossos erros e implorando que vocês tenham a bondade de espírito e sabedoria (coisas essas que entre nós, homens de poder, são recursos de extrema raridade) para nos perdoarem, é porque, nós precisamos de vocês, vocês não são dispensáveis, vocês não são algo do qual possamos abrir mão. É certo, precisamos da vossa riqueza para podermos dar continuidade à nossa expansão económica, isso é lógico e seria absurdo da minha parte omiti-lo, como se vocês não fossem crescidos o suficiente para se darem conta sozinhos. Mas, essencialmente, precisamos de vocês para perseverar na busca pelo sonho, sonho pelo qual tão arduamente lutámos, por quem tombaram juntos, nas mesmas frentes de combate, cabindenses, luandenses, benguelenses, malanjinos, todos esses povos corajosos do mais recôndito dos cantos, esse sonho que foi utópico e depois só irrealista e depois já tangível e hoje uma quase realidade, esse sonho que agora cabe a nós, juntos, concretizar, esse sonho chamado Angola.”

Algo do género. Acabaria por, tentando provar a minha franqueza, lhes pedir humildemente que me pusessem à prova perguntando-me o que quisessem sem receio nenhum, esse receio que se tornou uma constante quando fala um responsável político, de se lhe colocarem perguntas que possam ser constragedoras e que se generalizou aos supostos recolhedores de informação, muito por culpa da cultura de revanchismo implementada por esses mesmos políticos que odeiam ver-se confrontados por gente que “não percebe” o seu empenho e dedicação. Fá-lo-ia, insistindo que não era diferente nem superior a nenhum dos presentes, pelo contrário, um funcionário que tinha no povo a minha entidade empregadora e que me submeteria ao que ele deliberasse como sendo o melhor para a colectividade.

Se os resultados do voto fossem favoráveis à continuidade no território nacional, restaria esperar que os combatentes soubessem render-se à vontade popular e entregassem as armas, sendo-lhes prometidas as baboseiras de sempre, amnistia por todos os males e crimes cometidos e fraternidade eterna etc; Caso contrário, passariam a ser oficialmente um grupo de meliantes, pois a legitimidade política ter-lhes-ía sido subtraída pelo povo que dizem representar.

Mas imaginemos o caso inverso. Os votos dão, digamos que por larga vantagem para evitar argumentos de fraudes e essas merdas que gostamos de acusar os adversários de ter cometido para recusar a derrota, vitória para CABINDA INDEPENDENTE. Pergunto-vos caros amigos, patriotas e democratas, o que acham que deveria o Estado angolano fazer nessa situação?

Aguardo-vos na secção de comentários? (Que tal esta para estremecer um pouco os ânimos?)

KulpadoKomum

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 02:16:03 | Permalink | Comments (11)

Sunday, December 16, 2007

As guerras e as desculpas esfarrapadas que as justificam, pt. II

No post passado tentei chamar a vossa atenção para a importância da manutenção do dólar como moeda referência nos intercâmbios comerciais, para a continuidade dos Estados Unidos de América na pole-position da economia mundial.

E até que ponto estariam eles preparados a ir para preservar essa hegemonia? As apostas são elevadíssimas, trata-se de defender um modus vivendi ao qual foram habituados os cidadãos americanos e que só é sustentável se estiverem asseguradas algumas comodidades económicas.

Os visitantes deste blog, que até são poucos, já se devem ter questionado como funciona essa “coisa” das dívidas externas e porque que uns países são pressionados para a pagarem quando as maiores dívidas do mundo são detidas pelos países mais desenvolvidos, correndo solitário à frente, nada mais nada menos que os EUA com 10 triliões de $. A verdade é que quanto mais “sólida” a economia, mais fiável é o devedor (pensem no rico e no pobre que se dirigem ao mesmo banco para pedir um empréstimo) e os Estados Unidos são nada mais nada menos que a entidade emissora do dinheiro mundial, podendo dar-se ao luxo de imprimir mais quando fizer falta.

Mas, há também o facto dessa dívida ser sustentada pelos detentores de dólar mundialmente, que realizam as suas compras e investimentos nessa moeda, garantindo assim a sua afirmação como moeda rainha. Ou seja, um país em vias de desenvolvimento faz-se financiar pelo FMI ou pelo Banco Mundial (empréstimos esses fixados, logicamente, em dólares), esse financiamento não vai servir para ficar parado no banco à espera de taxas de juro, será utilizado para meter em prática a estratégia de relance da economia do país debitor (comprar ou investir) e remunerado com juros. Essa circulação de dólares além-fronteiras permite aos americanos endividarem-se tranquilamente sem recear o futuro.

Quais seriam os cenários a considerar de uma possível diminuição do dólar nas reservas mundiais?

Digamos que por uma razão qualquer, os vários países do mundo começam a reduzir a quantidade de dólares que armazenam e o substituam gradualmente por outra(s) moeda(s), para negociarem com cada parceiro comercial nas moedas que melhor lhes convém.

Uma das consequências mais evidentes seria que a procura pela moeda americana diminuiria, diminuindo assim o seu valor e, se continuarmos na lógica anterior, a dívida passaria a ser mais premente do lado do seu verdadeiro detentor e isso abanaria as consciências americanas, entorpecidas pelo “american dream”, que seriam forçadas a acordar para o pesadelo da incerteza.

A incerteza faz parar o dinheiro, aqueles que o detêm têm medo de o investir e perdê-lo, os credores vão buscar o que lhes é devido com medo de os seus clientes se tornarem insolventes (incapazes de honrar a dívida contraída). Uma ilustração bem recente disto foi a crise do mercado imobiliário nos EUA onde, devido à taxa de juros baixíssimos, os bancos se meteram a emprestar dinheiro como se o amanhã não viesse e como consequência os preços dos kubicos subiram em flecha (pensem sempre na PROCURA/OFERTA, com créditos baixos o pessoal vai querer aproveitar para comprar a sua casa, só que toda a gente se mete a fazer isso e o resultado é que as casas disponíveis não acompanhando o rítmo da procura, vão se valorizar).

O dólar anda um coxe coxo!

Verdade seja dita e assumida, o dólar tem vindo a perder muito valor nos últimos tempos, sobretudo em relação ao euro, com uma tendência a acentuar-se o fenómeno no futuro próximo. Fiz-vos um quadro abaixo em que limito a comparação da taxa de câmbio do dólar com algumas moedas, recolhendo apenas o câmbio no início de Janeiro e o actual (Dezembro). Se quiserem divertir-se a fazer as vossas comparações, carreguem aqui para €, Libra, Yen e Yuan e aqui, para o nosso Kwanza.






Euro

Libras

Yen (Japão)

Yuan (China)

Kwanza

Janeiro 2007

.758

.51

119

7.8

80

Dezembro 2007

.683

.49

112

7.4

74

Isso é bom ou mau? Depende do ponto de vista de quem analisa, mas há sempre ganhadores e perdedores.

As empresas americanas que se dedicam sobretudo a exportação, ganham clientes europeus (mundiais) que vão fugir do euro forte e poupar muito dinheiro importando dos EUA, mas as empresas americanas que são essencialmente importadoras e que têm na Europa o seu fornecedor principal, vêm-se gregas para suportar o custo imposto pela taxa de câmbio desfavorável. O cenário na europa é igual, é só aplicar a lei do “vice-versa”.

No caso de Angola, os EUA e a China são dois dos seus maiores clientes, um paga em dólares porque é a sua moeda nacional e o outro porque é a moeda dos intercâmbios internacionais. Por sua vez Angola vai importar os bens mais baratos possíveis para o seu consumo e , sendo detentora de dólares, sai-lhe muito mais em conta adquirir o que falta lhe faz, nos Estados Unidos ou na China, a Europa revelando-se um mercado mais caro.

Suponhamos agora que a China queira reduzir a sua importantíssima reserva de dólares (mais de um trilião) e comece a dar primazia ao euro como moeda de troca, Angola teria mais dificuldades em negociar com a China e provavelmente procuraria outros mercados, ou então, Angola poderia, também ela, desamarrar-se mais do dólar, moeda depreciada e acumular mais euros no seu lugar, moeda mais estável e mais fiável e que lhe garantia um melhor acesso (mais barato) ao mercado europeu, cada vez mais importante (27 países, mais de 490 Milhões de habitantes). Só que essa é uma decisão que não podemos tomar de ânimo leve, porque ante ameaça à estabilidade interna do “american dream”, os “maldosos” que tiveram a audácia de o arruinar, terão de pagar as consequências e nós, penso eu, estamos fartos de ouvir as armas a falar e não creio que tenhamos a força anímica e de espírito para nos fazermos rebentar em restaurantes.

A liberdade de escolha, sedimentada na soberania nacional

Os países do Médio Oriente têm todo o interesse, economicamente falando, em dar esse salto. Todos os indicadores são favoráveis ao € e à dispensa do $, a balança comercial é excedentária, a dívida externa europeia comparada com a americana é modesta e as taxas de juro são significativamente mais altas (interessante para os investidores e credores, sector bancário e imobiliário essencialmente). Para complementar, o mercado europeu é agora o mais importante em termos de efectivos, o principal parceiro comercial dos países do Médio Oriente e, finalmente, quase tudo que se pode adquirir em $, pode-se também adquirir em €, excepto… adivinhem… o petróleo!

A experiência iraquiana mostrou o melhor e o pior. Na altura da mudança do dólar para o euro, o câmbio estava em 1$ = 0.83€, dois anos depois… preciso de dizer mais? Logicamente o pior, foram as consequências políticas, ainda hoje podemos testemunhá-las no jornal das 13 (eles são muito “chateados” esses iraquianos, não aceitam a derrota com a veleidade que gostariam os seus “libertadores”).

Mesmo assim, os outros países parecem inclinados em dar seguimento ao timoneiro Hussein. O Irão já tem a sua reserva em euros constituída, indicador mais do que evidente da sua vontade. Hugo Chavez ferrenhamente anti-americano, vê com bons olhos esse distanciamento em relação ao dinheiro do império, tendo ele próprio já tomado medidas que fizeram ranger os dentes em Washington, nomeadamente a troca de petróleo com professores e médicos cubanos.

A libertação dos povos oprimidos por ditadores

Os EUA consomem 25% da produção mundial de petróleo, são mais dependentes do bruto que qualquer outro país e, ter de adquiri-lo numa moeda apreciada em relação a sua, seria o fim da macacada, a queda do ogre, o terminus para o comboio do tio Sam. Algo tem de ser feito né? Jogue-se o ás de copas (sendo o de espadas o petróleo), a carta secreta número dois no baralho dos estadunidenses para controlarem os negócios mundiais: a acção militar.

KulpadoKomum

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 01:40:01 | Permalink | Comments (12)

Saturday, December 8, 2007

Abaixo assinado no YOUTUBE

Não é novidade para ninguém (porque nós insistimos muito neste ponto) que a manifestação não seria um ponto final. Pois bem, depois de muita reflexão, decidimos avançar com um abaixo-assinado “cinematográfico”, ou seja, cada angolano esteja ele aonde estiver, grava um vídeo (no qual se identifica, diz aonde está e manifesta o seu direito ao voto) e envia-nos por e-mail (revolucaoemangola@gmail.com). Nós, postaremos o vídeo em linha no YouTube. Creio que não custa muito fazê-lo – basta gravar um vídeo(mesmo com o telemóvel) e enviar por e-mail. Alguns vídeos já estão disponíveis. Qual o objectivo? Pois bem, sermos ouvidos. Se formos suficientes a fazê-lo, poderemos sem dúvida chegar longe, bem longe. Não podemos subestimar o poder da internet. Apelo à todos os angolanos a participarem. Tirem 20 minutos do vosso dia para tomarem uma atitude que pode vir a glorificar os próximos anos das nossas vidas.

P.S: Para verem alguns dos vídeos criados basta irem ao Youtube e procurarem por revolucaoemangola, ou então indo directamente ao site http://www.youtube.com/user/Revolucaoemangola

Angolanos, não é hora de recuar, levantemos a voz!

N’Manga

Posted by (R)EvolucaoEmAngola at 01:39:29 | Permalink | Comments (1) »