As guerras e as desculpas esfarrapadas que as justificam
A globalização triunfou. É um facto incontestável que só os irredutíveis optimistas podem continuar a tentar ignorar. O tomate que comemos fora de época e que chega a um preço igual ou inferior àquele que se produz localmente, fez um longo trajecto até ao nosso prato e esconde muitas tragédias pessoais de indivíduos que continuam a ser submetidos à uma escravidão moderna, para que nós possamos consumir a preço baixo. No Brasil, a Amazónia está a ser devastada para se substituirem os hectares de «pulmão do mundo», por campos de monocultura de soja, principalmente para a exportação. São inúmeros os países africanos cuja economia depende essencialmente de matérias-primas que exportam para os países desenvolvidos, que por sua vez as transformam e as remetem para nós em forma de produto consumível. Angola é um desses países claro está e, Angola tem a (des)vantagem de ser muito rica na matéria prima mais importante do mundo moderno. Isso confere-lhe um certo poder, embora limitado, pois caso assuma uma postura de defesa nacional que seja incompatível com os interesses nacionais de algum dos seus clientes, o leite pode azedar e os donos do mundo podem decidir que somos o próximo país a liberar das amarras da ditadura.
É costumeiro os governos que decidem unilateralmente atacar um país, refugiarem-se em argumentos morais para arrecadarem o apoio das massas cujo núcleo duro é constituído por pessoas de reduzido percurso académico, limitado nível de cultura geral e uma capacidade enorme para serem moralistas sem moral, tal qual o religioso devoto que desanca nos filhos e na mulher. Isto é assim em todo o lado, as massas têm de ser massas, para serem previsíveis e fáceis de manipular.
É muito mais simples ter-se aprovação popular se formos atacar um regime ditador e corrupto, onde se matam pessoas à gás e onde se deixa deliberadamente morrer à fome certas etnias, sobretudo se o país em questão não faz por dissimular o ódio irascível que nutre pelo nosso e tem em sua posse armas que nos podem destruir a todos.
Já se sente o pulsar da tensão belicosa que se vive e se cogita nos bastidores, eles vão nos dando pistas, utilizando os veículos de difusão de informação convencionais, que, adivinhe-se, são digeridos pelas massas como pílulas da verdade. Fala-se em atacar o Irão, "uma ditadura intolerável, liderada por um presidente incorrigível, que tem por apanágio avançar propostas chocantes contra o menino prodígio, o Estado protegido de Israel e que, além do mais, tem vindo a empobrecer urânio, preparando-se para, dizem, ser mais um país com a arma nuclear. Não se pode permitir isso, alguém tem de lhes mostrar os limites da soberania nacional, implícitos no organigrama da hierarquia mundial". Afinal, o polícia pode andar armado, mas esse é um privilégio que não pode ser cedido a um saloio maluco qualquer, que possa meter em risco a estabilidade e a segurança do mundo "livre".
Vamos lá analisar a questão com um pouco mais de recuo e perguntar-nos porque raios de carga d'água se escolhem países como o Iraque e o Irão de tantas outras ditaduras que existem por aí, para se liberar o povo?
O Sadaam já foi enforcado e já deve andar lá para cima com direito a algumas virgens. Menos de 7, já que não teve o bom senso de se mandar aos ares levando consigo alguns "infiéis", mas, ao invés disso, o péssimo gosto de se deixar apanhar num buraco, sendo depois devidamente enxovalhado num segmento televisivo que girou o mundo.
O que é que aqueles gajos ainda andam lá a fazer? Não há outros conflitos por resolver? Então e o Sudão? Há quanto tempo o mundo "civilizado" assiste impávido ao genocídio no Darfur incapaz de ir em seu socorro? As ditaduras do Myanmar, da Coreia do Norte, da Líbia, Cuba, Zimbabwe, não tomam medidas? Uns embargos aqui, uns boicotes ali e uns vociferanços de tempos em tempos para lhes lembrar quem manda?
Os autoproclamados justiceiros do mundo parecem ter alguns critérios discriminatórios sobre quem merece a graça da salvação e quem pode morrer esperando.
Onde ficam a Arábia Saudita e a Rússia no meio disso tudo?
O primeiro, baseia a sua constituição no alcorão e vive sob a lei da Sha'ria, sendo o país com a mais elevada taxa de penas de morte, normalmente por decapitação (ou tiro na cabeça para as mulheres, para que elas não tenham de passar pelo vexame de ter de descobrir a cabeça e as costas*) e o segundo tendo recentemente besuntado a cozinha de sangue para fazer cabidela: condenação baseada em provas muito para lá de duvidosas de Mikhail Khodorkovski, envenenamento mortal de Alexander Litvinenko, assassinato de Anna Politkovskaya, retaliações à revoluções coloridas nos ex-satélites soviéticos, a brutal repressão na Tchetchénia, podíamos passar aqui um dia inteiro a enumerar os atropelos gravíssimos à lei internacional cometidas pelo governo do senhor Putin só nos últimos seis meses e que ele nem esboçou interesse em disfarçar, mas, vamos antes concentrar-nos nos VERDADEIROS terroristas, aqueles que são piores que todos os outros, aqueles que têm de ser erradicados e afastados do poder antes que o mal prevaleça sobre o bem.
Para aqueles que não foram na cantiga do ataque ao Afeganistão se dever ao mandato de captura de Bin Laden, ficou claro desde o princípio que a guerra no médio oriente era uma tomada de posição no xadrez geopolítico, a necessidade de os Estados Unidos conservarem a sua hegemonia controlando a matéria prima que é o baldrame da sociedade moderna, sem a qual, todo o nosso modelo social e económico se desmorona. Também se sabe que o maior consumidor dessa matéria prima são os Estados Unidos (5% da população mundial consumindo 25% da produção total) e que para manter os americanos calmos nos seus SUV, não se podem dar ao luxo perder o controlo sobre os preços. Pois, esses recursos são finitos e o maior produtor do mundo, a Arábia Saudita (uma luz?), já não tem o poder que tinha em '79 quando se propôs a compensar a quebra de produção iraniana, aumentando a sua, período esse que marca o fim do diktat da OPEP na determinação dos preços, tendo esta sido transferida para a bolsa de valores (um mercado à parte) onde os preços se estabelecem por especulação. Nessa altura, a procura era mais ou menos constante porque os países desenvolvidos não sofriam mudanças abruptas na necessidade de consumo e não havia muitos países em franco crescimento.
Hoje, a história é outra, o preço do barril vai continuar a subir enquanto os dois países mais povoados do mundo continuarem a ter as taxas de crescimento que se têm verificado nos últimos anos, a China e a Índia são países com muita "sede" de petróleo e tem sido sobretudo devido ao «boom» económico da China que a procura tem vindo a indicar uma tendência crescente, a oferta mostrando-se incapaz de lhe seguir o ritmo, ou por falta de capacidade, ou por falta de vontade dos países produtores, a maior parte dos quais realizam o essencial da sua riqueza nacional exportando o bruto e, receando certamente a escassez que se anuncia, vão racionando a sua exploração.
Consequência? Os Estados Unidos, maior consumidor, logo país sobre o qual as repercussões são mais importantes economicamente (não falo em termos de sofrimento físico), precisa de controlar uns quantos poços de petróleo e não pode condescender com pessoas pouco amistosas à frente dos governos dos países produtores.
Aí reside a razão lógica da invasão ao Iraque e das ameaças que se começam a sussurrar em direcçao ao Irão. Mas o que fizeram eles para que os Estados Unidos se sentissem tão ameaçados?
Em 2002, face a queda livre do valor do dolar, o Iraque propôs à OPEP que se passasse a cotar o barril em euros, que tinha mais valor e que lhes traria mais benefícios, tendo eles próprios dado o pontapé de partida. Foi aí que os Estados Unidos tiveram um calafrio e resolveram agir rapidamente, ao risco de verem o custo/barril ser multiplicado, o que representaria um autêntico descalabro para a economia americana. A solução? Tirar essa ideia absurda da cabeça do ditador, de preferência tirar-lhe mesmo a cabeça para que servisse de exemplo aos outros vizinhos atrevidos.
Pois bem, o Irão acabou de apresentar há coisa de alguns dias a MESMA proposta à OPEP. Creio que o Ahmadinejad está a preparar-se para um puro "western" com direito a bang-bang e pipocas para a assistência e Angola, como membro integrante da OPEP e visada pelo custo de oportunidade de continuar a vender o seu petróleo em dólares, tem uma palavrinha a dizer sobre o assunto, só ainda não sei qual é. Vou desenvolver um coxe mais com uma segunda parte, esta já vai longuíssima. Abram os olhos, cuidado com os caminhos obscuros!
KulpadoKomum


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1. Por um t
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