China em Angola
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Informação é conhecimento.
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Um visitante pouco familiarizado com Angola poderia pensar que o país é hoje controlado pela China. Em Luanda, a capital, é difícil encontrar uma rua onde não haja uma equipa de engenheiros chineses que não esteja a restaurar alguma infra-estrutura pública. É preciso praticamente um minuto para Henrique Mendes, responsável do urbanismo no Huambo, segunda cidade do país, para enumerar todos os projectos realizados pelos chineses, desde a construção de hospitais, escolas, estádios e dum estabelecimento de ensino superior até à renovação do sistema de distribuição de água.
A Leste de Luanda, a estrada mostra sinais ainda mais evidentes da aparente dominação chinesa: não somente essa estrada asfaltada pelos chineses é a primeira via de boa qualidade construída no interior do país desde algumas dezenas de anos, como ela é cercada de casas pré-fabricadas de campanha, do tamanho de fortalezas e que abrigam os trabalhadores de empresas chinesas. É também a China que reabilita os caminhos de ferro de Benguela, que ligam a costa Atlântica à fronteira com a Zâmbia e a República Democrática do Congo.
Os analistas citam frequentemente o caso de Angola para mostrar que a China mantém relações neo-coloniais com África. Pequim não teria ajudado se não fosse em troca dum acesso privilegiado aos recursos do país em matérias-primas e dum aumento de influência. É verdade que os dois governos não fizeram nada, até agora, para dissipar esta impressão. Desde 2004, a China forneceu à Angola entre 6 à 11 biliões de dólares de linhas de crédito e enviou dezenas de milhares de trabalhadores. Ela também aumentou as suas importações de petróleo angolano (cujo montante passou de 5,6 biliões de dólares em 2005 à 9 biliões em 2006), ao ponto de tornar Angola no seu principal fornecedor.
Contudo, diplomatas e analistas perceberam, ao longo dos últimos meses, que a relação é um bocado mais equilibrada do que eles pensavam. Não somente as empresas chinesas descobrem que é mais difícil do que previsto de trabalhar em Angola, mas o governo angolano mostrou claramente que ele não era uma marioneta. A anulação, este ano, dum contrato com a sociedade chinesa de petróleo Sinopec para a construção duma refinaria no porto do Lobito (um projecto de 3 biliões de dólares) foi interpretada como um sinal que Angola está a afirmar-se.
“Todo o mundo se inquieta com a crescente influência da China em Angola”, comenta Lucy Corkin, uma analista do gabinete sul-africano Project for China Studies, que efectuou 3 “viagens de estudo” à Angola. “Não há confiança suficiente na capacidade dos angolanos em gerirem os seus próprios assuntos. O país é consciente do perigo de pôr todos os seus ovos no mesmo cesto e ele quer tirar o melhor partido possível da China, sem contudo apostar num só parceiro económico”.
Graça aos enormes recursos petrolíferos do país (1,7 milhões de barris por dia), o governo angolano pode gabar-se de ter encontrado uma “terceira via” para negociar com o resto do mundo: trata-se de colaborar com o Ocidente e com a China, mas sem ser devedor. A relação de Angola com a China, sublinham as autoridades, não se baseia numa submissão, mas sim numa estratégia. Com o orgulho ferido, consequência das reticências de doadores tradicionais e do Fundo Monetário Internacional em concluir acordos financeiros com Angola por causa de riscos de corrupção, elas (as autoridades) viram na China uma outra possível opção.
“Nós lançámos uma grande campanha diplomática no fim da guerra (em 2002), relata M. Mendes mas os doadores não vieram. Procurámos outras soluções. Temos o cuidado de lembrar aos chineses que nós não gastamos o dinheiro dos doadores, mas que somos nós mesmo os doadores e que devemos ter a última palavra.”
O governo angolano guarda em segredo os detalhes de acontecimentos que desencadearam acusações de desvios de fundos a seu encontro. O presidente Dos Santos controla directamente a afectação de empréstimos através do Governo de Reconstrução Nacional, dirigido por um aliado chegado, o general Viera Dias Kopelipa.
Há sinais de tensão. No final de 2004, depois das acusações de desvio lançadas contra altos funcionários angolanos, o ministro das finanças foi enviado a Pequim para confortar a China quanto a utilização dos seus fundos. E, em Janeiro 2006, aquando da sua tournée em 8 países africanos, o presidente Hu Jintao não passou por Angola.
Os empresários angolanos evocam muitos temas de descontentamento. Eles sublinham que o investimento chinês fora do sector petrolífero são irrisórios. E que relembram que as empresas chinesas nunca estabeleceram, ao contrário do previsto, parcerias com empresas locais, nem honraram a regra segundo a qual, estas mesmas empresas deveriam ver-se acordadas com 30% dos contratos ligados às linhas de crédito chinesas. “O mercado é activo, mas é preciso paciência”, comenta Wu Jiao, mestre de obras da Sinomach, uma sociedade chinesa de desenho industrial. “O procedimento é muito longo. Eu ouvi dizer que algumas empresas desistiram por causa das dificuldades. Nós devemos acostumar-nos à cultura e às normas locais”.
Por fim, é necessário dizer que os projectos estão frequentemente atrasados. O que exaspera o Movimento Popular de Libertação Popular, partido no poder (MPLA). Não adiou ele as eleições desde 1992, afim de poder apresentar-se diante dos seus eleitores com um sistema de caminhos de ferro e rede rodoviária reabilitada? Com os seus recursos petrolíferos, Angola dispõe hoje de potentes armas para poder resistir à potência chinesa, o que não é o caso dos países mais pobres.