Saturday, January 2, 2010

A sociedade e a ética


Cada sociedade se constitui mediante um conjunto de normas e princípios aos quais todos os membros que a compõem devem estar subordinados. Estas normas podem ou não ter um carácter jurídico, isto é, o corpo sistematizado de regras de conduta, caracterizadas pela coercibilidade e imperatividade. É um imperativo de conduta, que coage os sujeitos a se comportarem da forma por ela esperada e desejada.

A par das normas jurídicas, existe um outro corpo de normas que nos é imposto pela necessidade da vida em comum. Estas normas não têm naturalmente um carácter jurídico e a sanção estabelecida à sua violação é apenas a reprovação das pessoas que compõem o tecido social. São nada mais e nada menos que as normas éticas.

Onde estará a ética nos dias de hoje?

Assiste-se nos dias que correm, a um frenesim onde os mais assinaláveis princípios éticos sucumbem ante a anunciada necessidade de se verem realizados os interesses pessoais, sem ter em conta a importância do outro, num conjunto do qual fazemos todos parte. O princípio da alteridade se esvai a cada pôr-do-sol. Será a necessidade de satisfação de interesses egoísticos a base para a opacidade da ética, entendida como um conjunto de normas, princípios, preceitos, costumes e de valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social?

Crê-se que não! Embora se verifique a um adensar da situação nas avenidas, becos, ruas e ruelas das cidades. A ética está senil, prestes a morrer. Ela precisa urgentemente de ser reanimada para voltar à vida e fazer parte do quotidiano do ardina, do médico, do professor, do polícia de trânsito, do aluno, do ladrão do Roque Santeiro, será?

Não se quererá com isto dizer que a ética se tenha “escafedido” por completo. Estar-se-ia deste modo a tomar-se uma posição bastante radical, o que seria uma inverdade. A ética existe sim! Ela está bem aqui do nosso lado e agora. Todavia, preocupa o facto de que a medida de em que a sociedade se vai tornando mais aberta nos diversos domínios, vai pondo em perigo até os próprios ”reservatórios” da moral e da ética. O pudico e o escrupuloso quase que não existem, as fronteiras do tabu são cada vez mais ténues. Os contrários parecem, à partida, estar às portas de um verdadeiro matrimónio. Verdade e hipocrisia, pudico e obsceno, o certo e o errado, fundem-se numa única pessoa, não havendo hipótese de se saber o que é certo ou errado, tudo porque o certo parece errado e o errado dá-se como certo.

É tudo um vislumbre, uma ilusão óptica de uma sociedade que mais se parece com um trem que caminha a duas velocidades.

As marcas de comportamentos espelhos, modelos ou se quisermos padrão, de por exemplo prestar assistência a quem precise, ajudar um mais velho atravessar a rua, tratar os outros com respeito e amabilidade, ceder lugar a um adulto ou grávida nos transportes públicos, dar prioridade no trânsito, atender com edilidade as pessoas a quem se presta um determinado serviço, estão cada vez mais distantes de fazer parte da actual realidade sociocultural.

A globalização, aliada ao desenvolvimento da ciência, e uma vez abertas as comportas do comércio internacional, transfiguram-se como canais de uma cada vez maior aculturação, que de resto, consiste na introdução em determinada cultura de componentes culturais de um povo estrangeiro. Traduz-se mormente na aquisição de hábitos culturais alheios que não tinha. Este tipo de cultura é quase que criado para a pessoa se tornar ou fazer parte de uma cultura à força.

É realmente o que se passa com a nossa sociedade?

Os mais atentos olhares que se entrecruzam nas passarelas das estradas do nosso itinerário, certamente estarão de acordo no postulado segundo o qual, embora não o seja em absoluto, a sociedade actual vai-se gradualmente tornando em algo que se aparenta a um depósito de diversas culturas.

Este pressuposto não é por si só negativo, pois o intercâmbio cultural constitui um elemento saudável. Porém, são os indivíduos que o tornam pernicioso quando, tendo a faculdade de filtrar tudo aquilo que absorvido deste universo, escusam-se de assim proceder. Os resultados daí provenientes nunca foram positivos.

Por : Sawuallia

Posted by (R)EvolucaoEmAngola in 18:28:54 | Permalink | Comments (1) »

Entre a crítica e o elogio

Facto insofismável: os ndengues estão a voltar! O ritmo de aceleração da nossa economia, desde que se alcançou a paz, tem sido bastante coerente e proporcional na motivação gerada nas três gerações que me são mais próximas e mais fáceis de observar:

- a minha, da qual os regressados são maioritariamente aqueles que ficaram na vagabundagem durante anos a chular dinheiro dos pais mentindo que estudavam, sem escolha nem perspectiva de singrar lá fora, acabaram por se resignar com o castigo da inversão de marcha e vieram ocupar postos para os quais não têm competências, indigitados pelos pais, naquele movimento das cunhas que já nos é tão familiar (e prestes a tornar-se cultural);

- a do meu irmão ano e meio mais novo do que eu, por um lado, mais conscientes da sua utilidade/necessidade entre os jovens quadros que hão de começar a remendar o furo no casco deste barco chamado Angola, por outro, também eles conformados com o facto dos mercados de trabalho nos países onde estudaram serem pouco permeáveis as suas respectivas áreas de formação, encontraram em Angola uma conjuntura mais favorável e mais promissora na construção de carreiras. Beneficiaram, mais do que os retornados da geração anterior, da ploriferação dos cogumelos empresariais fruto do forte incentivo à iniciativa privada (estrangeira, nacional e mista) que se meteu em marcha há coisa de 3, 4 anos.

- e a do meu irmão cadete, na qual identifico uma vontade tão grande de regressar que, tão logo findados os seus cursos, já têm montes de planos e ideias para levar à cabo e acabam assim por prescindir de se oferecerem a si próprios alguns anos de experiência no exterior. Experiência profissional e experiências de vida numa Europa/América onde o viajar se democratizou ao ponto de se conseguir fazê-lo praticamente sem fundos, com as Ryan Airs e os Couchsurfings dessa vida. Sem dúvida estes já virão beneficiar de um mercado de trabalho no qual a esponja aumenta exponencialmente de tamanho e a água que ela absorve não tem mais do que um crescimento linear, ficando assim longe de conseguir saturá-la. As oportunidades abundam para jovens formados (pelo menos os que vêm com formação do estrangeiro. Ainda tenho de epilogar com a rapaziada que se forma por cá para tirar ilações mais assertivas) e esses ndengues tão a morrer de vontade de se sentirem úteis.

Foi justamente enquanto discutia com um desses rapazes no outro dia, que achei relevante escrever sobre este assunto, pois ele defendia, com alguma razão, que não podemos nem devemos limitar-nos a criticar e a deitar abaixo o que está mal, que também devemos dar a mão à palmatória e louvar aquilo que está a ser bem feito. O meu argumento, que irei defender aqui, é que nós enquanto sociedade civil, temos SEMPRE de exigir mais e melhor, temos SEMPRE de mostrar que rebuçados não enchem barriga, temos e teremos SEMPRE a missão de OBRIGAR aqueles que nos representam a usar bem o dinheiro dos nossos impostos e da riqueza dos nossos solos. O mote é então elogiar pontualmente e criticar sistematicamente. A razão é muito simples: o trabalho bem feito é como deve ser feito, merece a palmadinha nas costas e um eventual “parabéns”. Quando o empregado de limpeza deixa o soalho a brilhar, ninguém vai felicitá-lo ou dar-lhe um aumento pelo facto de estar tão limpo que praticamente se vêm os espinhos faciais no reflexo dos azulejos. No entanto, se ele esquecer de passar o piaçá na pia e o utilizador seguinte encontrar na sua parede lascas de merda, haverá uma certa pressa em admoestá-lo, esquecendo o historial de limpeza até então imaculado do faltoso. É assim mesmo que as coisas são, francamente falando. Podemos transversalizar esse argumento para qualquer escala de ocorrências e, logo, não vejo porquê que deveria ser diferente quando falamos de governos e responsáveis sociais.

Podemos então à olho nu ver algumas das coisas que se estão a fazer e, depois, examiná-las com uma pequena lupa (pequena para não ampliarmos demais os defeitos) que nos permitirá saber se descambamos mais para o elogio ou para a crítica:

- As estradas nacionais. Eu próprio como utilizador de algumas dessas estradas devo dizer que é de assinalar a celeridade dos trabalhos em alguns dos troços principais. No outro dia fui à Malange e no troço que ia do Bengo à Ndalatando, tive de enfrentar 100 km de uma ligeira picada. No dia seguinte, de regresso à Luanda, já quase não reconheci a estrada. Tinha máquinas em vários blocos de algumas centenas de metros ao longo dela, e num dos lados da faixa de rodagem já se aplicava asfalto. É sem dúvida de assinalar e digno de se tirar o chapéu, mas… vamos com calma. Se formos julgar a qualidade do trabalho pelo que já nos tem sido apresentado até a data, já estaremos com o coração menos aberto de esperança na sinceridade do empenho e dedicação que os senhores decisores exibem na fachada. As primeiras estradas que foram asfaltadas já estão cheias de deficiências, deformadas pela usura e ainda não têm sequer 8 anos. Porquê que não fazem uma coisa bem feita para durar? Isso é o vício de desperdiçar que só pode ser alimentado por uma permanente facilidade de acesso à dinheiros PÚBLICOS! Enquanto a fonte jorrar e ninguém cobrar contas, a dança das comissões vai continuar. Se passarmos mais tempo a elogiar as estradas que aumentam mas que não duram, eles vão demorar a reagir e a apertar os empreiteiros e os outros beneficiários desse esquema de bolso roto.

- Tiraram a raça do BI. Palmas. Mas… espetaram-nos lá as caras dos já omnipresentes pai da nação e arquitecto da paz. O lambe-botismo continua em voga e essa parece ser uma moda intemporal, que certamente não deixa de agradar o próprio arquitecto que, regozijando-se do prazer experimentado aquando de uma massagem de ego, vai permitindo que esse tipo de absurdidade vá em frente.

- A CAN, cujos estádios, à boa moda sino-angolana a qual fomos habituados desde o último afrobasket, foram inaugurados as 3 pancadas, inacabados, “concluídos provisoriamente” citando o balofo do Higino no seu discurso de inauguração do estádio 11 de Novembro (suspiro), depois de recensear detalhadamente o volume de materiais e dinheiro (ao cêntimo) que foram dispendidos na obra. Se por um lado acho um avanço o assumir publicamente, ainda que por meias palavras, a inépcia e a incompetência que determinaram que a obra só estivesse “pronta” provisoriamente, por outro não posso deixar de me insurgir contra a mediocridade da realização que foi incapaz de melhorar os acessos até ao estádio, de proporcionar as infra-estruturas que fossem invalidar a necessidade de se usar o centro da cidade já congestionado, ou, pelo menos, de deixar a porcaria dos estádios como apresentaram nas maquetes, com parques de estacionamento e árvores à volta. Não! O 11 de Novembro é um mamarracho com um estaleiro de obras à volta!

- Finalmente estão a reabilitar as vias secundárias nos Cassendas, Cassequeis, Mártires… zonas onde as pessoas já se tinham esquecido do que era o asfalto. Muitas zonas estão a ter abastecimento da EPAL pela primeira vez em 20 anos. Bravo. Mas… a quantos golpes desses já assistimos? As fontes que são inauguradas com pompa e circunstância, com direito a corte de fita e banho de champagne e uma semana depois deixam de funcionar. Aí já não faz manchete. As obras de cosmética não devem ser celebradas com muito alarido, pelo contrário, a prudência e a contenção exigem-se para evitar desânimos. Se houver preocupação com a manutenção e durabilidade efectiva, aí sim, as palmas serão sinceras.

Opá, é um exercício muito dispendioso em termos de energia ficar aqui a tentar engordar essa lista de alguns dos pontos que uma parte da sociedade angolana considera como progresso, pois vejo neles mais defeitos que benfeitorias. Infelizmente, a incompetência de quem nos dirige faz com que a maior parte desses proto-projectos saiam do papel em forma de aborto, tudo torto, tudo mal amanhado, mal passado, acabando por ser inevitavelmente mal amados. Nem vou entrar no assunto da centralização, do abuso de poder, do mau uso dos fundos públicos e do descalabro urbanístico que estão a fazer de Luanda que se tivesse de ser comparada a uma mulher, seria certamente uma mamoite quarentona com excesso de peso mas que insiste em usar roupa apertada, que ficou latona queimada com mecacon e que está a ficar careca graças aos esticanços dos postiços que lhe enfiam desde que ela é criança. Quem lhe critica ama-a, quem critica não lhe quer mal, ao contrário, não se conforma com a maneira que ela é destratada, brutalizada, violentada pelas pessoas que acolhe. É imperativo elogiar pontualmente e criticar SISTEMATICAMENTE.

KulpadoKomum

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Tuesday, December 22, 2009

Tolerância zero

O nosso apagado e já bastante desgastado presidente, teve recentemente mais um rasgo de genial homem do bem, de simples servidor do povo, rogando aos seus militantes, devidamente fardados com as cores do partido (que são também e nada por acaso as do país), que fossem mais zelosos do erário público e sugerindo uma “espécie de tolerância zero” à corrupção, aquando da última reunião plenária do M antes da realização do seu 6º congresso.

Logicamente que, no dia seguinte, a frase fez manchete dos pasquins (como ele próprio os define) que circulam por Luanda e que começam a ser tantos que já poluem. Foi e continua a ser assunto de conversa nos quintais e salões familiares e continua a ser aquele assunto que se prefere não puxar em conversas informais entre pessoas que escapam do mais apertado círculo familiar. Mas não é necessário um grande exercício intelectual para compreender que esta é mais uma intervenção inócua para juntar à pilha acumulada no período pré-eleitoral (1 milhão de casas em 4 anos?).

Vamos lá ver: se o presidente se levasse a sério, ele teria entrado naquela sala com um plano montado para a teatralização do seu suicídio político, proferindo as palavras “tolerância zero” seguidas de um gesto de cabeça afirmativo, após o qual os seus kapangas bloqueariam todas as saídas e dariam início a detenção in loco da maralha lambe-botas ali presente, sendo ele próprio o primeiro a estender os braços para baixo com os punhos encostados para que lhe fossem colocadas as algemas. Todos kuzú! Prisão preventiva! Toca a provar de onde sai o dinheiro para adquirir aquela absurdidade de bens materiais que não se cansam de esfregar desavergonhadamente na cara dos despojados deste país, legítimos donos desse dinheiro usado indevidamente para fins pessoais! E os príncipes e princesas (alguns deles desprovidos sequer de um diploma) que ao longo desses anos acumularam uma herança antecipada e começaram a comprar o país aos poucos construindo nele a perpetuidade do império “dos Santos”? E os filhos destes e daqueles que, no sempre arbitrário abuso do poder que lhes foi conferido, atropelam e partem pernas e violam e matam (por acidente ou não) comuns cidadãos e fogem para o exterior até a “poeira assentar” e depois voltam e continuam a passear-se impunes, com algum tipo de imunidade à lei que mais uma vez prova só ser concebida para os pobres e desprestigiados.

Infelizmente não podemos, nem devemos, cair na tentação de aplaudir o discurso do arquitecto da paz, pois ele não é acompanhado de consequências reais para os prevaricadores. Não foi posta em marcha uma caça às bruxas, não houve equipas especiais de contabilistas e inspectores a serem montadas para apurar desfalques, não há comissões da verdade e reconciliação, não há tabela de punições indo de multas até múltiplas penas máximas de acordo com a gravidade do desvio e impacto social na vida dos angolanos privados do seu dinheiro e da felicidade que este lhes poderia comprar em forma de carteiras, cadernos e medicamentos, na realidade, não há nada a não ser o eterno vazio das palavras.

Zé Kitumba pára já de te emocionar ao microfone e lançares promessas bonitas ao vento. Sabemos que estás já a fazer ginástica eleitoral e tens te saído bem nisso, mas não penses que a tua maínga de ilusionista pode funcionar para sempre. Queres resguardar o pouco que ainda te pode sobrar de respeito? Entrega-te à justiça! Isso é que era. Limpavas quase sozinho a má imagem dos líderes africanos incompetentes e corruptos, que ganhou terreno depois das independências. Podias até ter o teu nome ao lado do do Mandela no quadro de honra dos africanos dedicados. Até eu iria pavonear-me com a tua t-shirt com a tua foto de quando ainda ias nos teus gloriosos 40s.

KulpadoKomum

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Monday, March 9, 2009

Luanda: a metarmorfose

Luanda está em plena metamorfose. Vemos  dezenas de prédios erguerem-se do solo para tocar o céu. Com um plano urbanístico pouco coerente ou mesmo inexistente, a cidade está a mudar. Decidimos então editar alguns dos muitos projectos para a cidade de Luanda. Para Luanda “pequena” e não para a “grande”. Para a Luanda do kinaxixi, da Maianga ou da Marginal, não do Golfo, do Sambizanga ou do Cazenga. Estas “obras”, ficarão todas “empilhadas”, umas em cima das outras como carros no engarrafamento. Muitos dirão “Xê, é evolução”. É transformação, sim, mas evolução…? Não sei. Deixo a cada um a oportunidade de contemplar os edifícios que em breve farão parte do nosso quotidiano.

World Trade Center Angola ~ Em construção ~ Escritórios ~ 1 x 37 And. ~ 1 x 42 and.

Edificio Rua Major Kanhangulo ~ Em construção ~ Residencial

Hotel de luxo e Escritório ~ Em construção

Torres Do Carmo ~ Aprovado ~ 2 x 22 And. ~ Residencial

Torre Kilamba ~ Escritórios ~ Aprovado ~ 26 And.

Edifício Baia ~ Aprovado ~ 23 And.

Torre Siccal ~ Aprovado ~ 25 And. ~ Uso misto

Campo Do Paz ~ Aprovado

Edificio Zimbo Tower ~ Em construção ~ 21 And.

Edificio Kilamba ~ Uso Misto ~ Em construção ~ 26 And.

CIF Tower ~ Em construção

Edificio Multivsos ~ Aprovado ~ Escritórios

Edificio Rocha Monteiro ~ Aprovado ~ 24 And.

Comandante Gika ~ Em construção ~ Uso Misto

Complexo do Kinaxixi ~ Em Construção

Edificio Kianda ~ Uso Misto ~ Aprovado ~ 23 And.

Luanda Plaza ~ Em construção ~ 23 And.

Torre Residencial ~ Aprovado ~ 18 Andares.

Torre Maianga ~ Aprovado ~ 16 And.

Edifício Rua do Assalto do Moncada ~ Em construção ~ Residencial

Rua Da Missao ~ Em construção ~ Uso Misto

Complexo Multiuso ~ Aprovado ~ 3 x 26 And.

Botti Rubin Development ~ Aprovado ~ Residencial

Coqueiros ~ Aprovado


Rainha Ginga ~ Aprovado

Edificio Safira ~ Aprovado

Zona Camama ~ Em construção

Edifício Metrópolis ~ Em construção ~ 10 And. ~ Escritórios

Torre residencial de Talatona ~ Em construção ~ 9 And.

Hotel de Convençoes de Talatona ~ Em construção ~ Uso misto

Estádio de Luanda ~ Em construção ~ Desporto e recriação

Novo Estádio ~ Em construção

Cidade Universitária ~ Em construção ~ Educacional

Nova Administração Nacional e Complexo Museu ~ Em construção

 Corimba ~ Mega Projecto ~ Em construção

N’Manga

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Monday, February 9, 2009

Novo tipo de guerra civil

 

ImageLisboa - Neste tempo do Governo de José Eduardo dos Santos, as autoridades, ["competentes"], autorizaram a demolição do Mercado do Kinaxixe. Uma obra arquitectónica erigida no centro de Luanda e que foi um ícone da urbanização de Angola. O Governo desse senhor destruiu assim o património africano herdado da colonização europeia que nos co-engendrou como nação. O mercado do Kinaxixe era um marco do processo cultural que gerou a nossa identidade, portanto, também a de quem, ao mais alto nível, dirige o Governo do Estado que a destruiu.

O Mercado do kinaxixe foi transformado em escombros pela nova guerra civil em curso no território angolano. A guerra de assalto ao mercado movida contra todas as angolanas e angolanos por agentes dum poder exercido em promiscuidade com os seus negócios particulares para a construção de riqueza por via do uso abusivo de poderes e de bens públicos. É uma “guerra civil pacifica”, desinformados, pensarão muitos, mas que em vários momentos já foi manchada pelo sangue de tantas vitimas do assalto à terra, especialmente da urbana, em Luanda. Uma guerra que está suceder à que houve entre “movimentos de libertação nacional”, inaugurada para a captura do Estado, conseguida em 1975 pelo MPLA.

Poucos se aperceberam da Guerra da Terra porque, até agora, só um lado tem usado a violência, os esbulhadores que para isso se servem da autoridade e das armas do Estado contra o povo. As vítimas ainda não replicaram com o recurso á violência. Têm sido defendidos apenas pela denuncia pública desses ataques junto de entidades nacionais e internacionais. A organização que dirijo, a SOS Habitat tem sido uma das protagonistas dessa defesa pacifista que, entre outros efeitos, tem conseguido a contenção do gesto violento espontâneo de tantas vítimas desse assalto à terra. No entanto a impunidade tem sido sistematicamente garantida aos violadores.

Lembro que a guerra civil angolana foi gerada em nome da legitimidade duma revolução conduzida pelo MPLA que postulava o fim do capitalismo em Angola. Revolução que como o Mercado do Kinaxixe, e antes dele, também foi despejada na lixeira da nossa história pelos ex “revolucionários” que, entretanto, continuam a conduzir o partido-Estado que impõe a hegemonia do MPLA sobre a Administração do Estado. Desta herança da sua ditadura monopartidária é que, absolutamente, ainda não se descartaram e no entanto já não é constitucional desde 1991.

Portanto o Governo de José Eduardo dos Santos, objectivamente, destruiu e deitou fora a nossa riqueza material e cultural. Parte da memória colectiva da Cidade de Luanda e do País, em nome da realização de riqueza por particulares, foi transformada em lixo histórico. Um moderno shoping center de gente detentora e ou cliente do poder vai ser erguido no espaço do Mercado do Kinaxixe.

Antes desse cometimento, a mando do mesmo Governo, foi demolido o Palácio de D. Ana Joaquina e depois, no seu lugar, ergueram uma cópia desse edifício. Reagindo a esse delito, indignado, Lúcio Lara, deputado do MPLA, levou um pedaço secular dos escombros desse edifício à Assembleia Nacional onde, em nome de todos nós, chorou como uma das milhões de vítimas desse cometimento. Foi um gesto de protesto ousado com que, [minha percepção], contestou o Chefe do seu partido, [o MPLA], e do Governo e Estado de Angola, o senhor José Eduardo dos Santos. Afinal esse individuo é o responsável máximo pelos actos do Governo e do Estado em Angola. Portanto, esse cometimento e a impunidade com que foi agraciado não lhe são estranhos. Mas o gesto do deputado, além de serôdio, foi inócuo como demonstra a continuidade com total impunidade desse tipo de cometimento governamental.

Depois, em vários musseques, as casas do povo pobre foram demolidas e os seus habitantes abandonados ao relento nos escombros que delas restaram ou, sob ameaça das armas do Estado, despejados em depósitos de pobreza como os que o Governo do MPLA implantou na Calemba, Zango e Panguila. Os novos e mais emblemáticos bairros coloniais para indígenas construídos em Angola, paradoxalmente, no pós independência.

No entanto, o cancioneiro popular a que o MPLA tanto recorreu na mobilização do povo contra o colonialismo português, cantava: “madaram-nos para os currais como se fossemos bois”. Agora o Governo do MPLA, conduzido por José Eduardo dos Santos faz exactamente o mesmo que o colonialismo português fez. Esses novos depósitos de pobreza são a concretização pelo endocolonialismo do paradigma de urbanização dos subúrbios da nossa capital adoptado por esse Governo do MPLA para afastar para além da Cidade, do Estado, [dos seus serviços e rendimentos], a maioria da população pobre e excluída que vive na capital do pais.

Concretizam a fase planificada do apartheid social com que José Eduardo dos Santos está a desenvolver o seu regime endocolonialista.

Em qualquer momento serão outras praças do povo e muitas das nossas casas já marcadas que vão ser demolidas para com a nossa expulsão serem servidos outros. Outros que a guerra que obstaculizou tudo que podia ser feito em prol do bem-estar geral, no entanto, não impediu que acumulassem riquezas faraónicas.

Os nossos espaços públicos e particulares estão a ser esbulhados e tornados servidão e ou propriedade de outros para a concretização - à sua maneira - de projectos particulares - alegadamente com “fins também públicos” – mas em cuja concepção não participamos nem mandatamos ninguém para em nosso nome os autorizar. Claro que qualquer empresa comercial serve sempre o publico, vende ao público. Mas será que esse “serviço público” de particulares, [como vem sendo implantado], tem que ser imposto pela destruição de património colectivo e a expulsão de todos os outros?

Os lugares da Cidade estão a ser objecto de apropriação particular depois de terem sido, [de modo preparatório do esbulho], sujeitos aos efeitos predadores duma - desmazelada e ou mesmo demissionista - “gestão governamental” visando a realização de fins particulares.

Aspirações e direitos dos membros de toda uma sociedade estão a ser anulados para se realizar o património e o enchimento dos cofres dos “donos da terra” com capital, assim, conseguido de modo ilícito. Esse procedimento, contra tudo e todos nós, coloca José Eduardo dos Santos, assim como os seus agentes e clientes na condição de co-proprietários, [sem papel passado por quem de direito], do nosso país transformado numa imensa “Fazenda Angola”, que está sendo o nosso espaço colectivo de sofrimento e morte. Ainda assim, pasme-se, essa “fazenda” continua a ser paradoxalmente discursada pelos seus predadores como sendo um país e um Estado de direito democrático.

A Comunidade Internacional - para quem os direitos humanos o Estado de direito e a democracia são essenciais ao desenvolvimento humano - cala-se perante o facto endocolonial. Tornou-se cúmplice, para não colocar em risco os seus negócios com a “Fazenda Angola”. “Teme a crispação da atitude do Governo de José Eduardo dos Santos caso conteste a sua delinquência predadora tão sobejamente evidenciada.

Não têm vergonha nenhuma desse cometimento contra nós, como demonstram os elogios que vêm tecendo à governação do MPLA dirigida por José Eduardo dos Santos, como recentemente fez o Primeiro Ministro português, José Sócrates, por ocasião da Feira Internacional de Luanda, FILDA. E, para esses representantes de países que são seculares predadores internacionais da humanidade, tudo fica só como uma questão de economia, de oportunidade e modernização do mercado e, alegadamente, até duma “bem intencionada” gestão urbana, como são “bem” entendidas e convenientemente acolhidas as justificações publicamente apresentadas.

Obviamente que, para os sequestradores do Estado angolano, a manutenção de marcos da historia do desenvolvimento da Cidade, da sua configuração, do seu mobiliário e cultura ancestrais, enquanto alicerces da nação angolana, não gera defesas nem receitas para a caixa dos chefes-de-posto da “democrática economia de mercado” angolana em construção que, nos dias que correm, está a ser refeita nos moldes da economia dum colonialismo.

Como há muito a história da humanidade registou, os valores identitários duma sociedade dominada são sempre perigosos para qualquer ditadura. São valores que mantêm viva a memória colectiva das comunidades sustentando a sua coesão e capacidade de resistência. Portanto, no caso angolano estão a ser apagados para em, consequência, nos apagarem enquanto cidadãos, transformando-nos num zero no computo geral duma economia politica que nos reserva no futuro o lugar consolidado de serventes dóceis duma ditadura endocolonial.

O projecto endocolonial está a reproduzir em cada um de nós o monangabê colonial que, nos dias que correm nenhum Jacinto - poeta irreverente - convoca nem ao lamento dessa situação nem à rebeldia que está a gerar.

Por este andar, no futuro, a nossa memória acabará por reter só a obra do chefe-de-posto José Eduardo dos Santos e do MPLA, o “seu” partido. O MPLA é o primeiro e o principal refém da hegemonia pessoal que exerce sobre o Estado e o país. Corremos o risco de chegarmos a um ponto em que os registos demonstrarão que antes dele não houve nada e que tudo que então viermos a ser enquanto gente e país deveremos à sua saga predadora de bens materiais e culturais da comunidade angolana. Teremos então a percepção de que Angola é uma invenção de José Eduardo dos Santos a quem a história, [se registada com rigor], no mínimo, deverá apontar como o demolidor do património e da memória colectiva de Angola.

Se deixarmos essa estratégia ser levada até às suas últimas consequências por José Eduardo dos Santos e pelo seu refém principal, o MPLA - depois da nossa memória colectiva nos ter sido totalmente arrancada - da nossa cidadania restará só a sua “casca”. Seremos então, enquanto cidadãos, um mero invólucro.

Teremos sido transformados pela nossa redução politica à aparência de sermos cidadãos como, de facto, já é o que a maioria de nós é no contexto actual. A nossa substancia cidadã que nos dias que correm já está muito mal parada, nesse futuro sombrio que o endocolonialismo de José Eduardo dos Santos perspectiva, será então o que poderá produzir o nosso abandono em depósitos de pobreza e entulho material e cultural onde, [no apartheid social eduardino], a nossa cidadania definhará vigiada pelos chimbas e outros cipaios que usam contra nós as armas do “Estado” da “Fazenda Angola”, feita terra esbulhada a “inútil gente gentia”, também, feita refém do bando desse ditador.

Respondendo ao apelo endocolonialista, para a realização desse projecto, competentes predadores estrangeiros já instalaram parcerias com predadores angolanos pela constituição de sociedades pretensamente “nacionalistas”, em função da relação em co-propriedades onde os agentes económicos angolanos detêm mais do que 50% do respectivo capital. Parafraseando o angolano cognominado como “poeta maior”, estamos objectivamente face ao debicar no inerte corpo africano que denunciou, só que, desta feita, esse debicar é concretizado com os olhos secos sob a condução de José Eduardo dos Santos, herdeiro do ceptro do poder do poeta e médico que foi o primeiro Presidente de Angola, o Dr. Agostinho Neto.

Se todas e todos nos resignarmos, se nos anestesiarmos com as migalhas que sobram da mesa do palácio do chefe-de-posto endocolonial ou com o medo de nos darmos pela liberdade, o perverso projecto económico, político e cultural endocolonial que está a estruturar a existência de Angola, será concluído como uma bem sucedida violação, extrema e rebuscada, da nossa condição natural de seres, humanos, livres e dotados de direitos, “respeitados” na “democracia” eduardina.

E assim Angola continuará, endocolonialmente, a ser uma terra boa para todos menos para os angolanos, como denunciou o cantor angolano Dog Murras. Como a sua cumplicidade demonstra, esta situação não é preocupação dos democratas humanistas da Comunidade Internacional, particularmente da que está representada em Angola. Especial e particularmente não é preocupação dos Estados europeus e da sua Comissão, cujos agentes e investidores na economia endocolonial eduardina, há muito que estão cegos e só funcionam em função do seu apetite por petróleo, da expansão dos seus mercados e da exploração de outros recursos naturais da nossa terra. Só vêm Angola como um el dorado onde podem facilmente realizar riqueza em vês de, primeiro e acima de tudo, perceberem o nosso país como um espaço de seres humanos iguais a eles.

Parece-me que assim será até que outro Fevereiro inscreva o nome de novos heróis na história da libertação de Angola. Infelizmente disto já me restam muito poucas duvidas, porque de muito pouco têm servido os nossos honestos e destemidos protestos pacíficos e porque menos ainda nos servirá, [como fez o Deputado do MPLA Lúcio Lara], depois de cada novo golpe, de modo angélico, continuarmos a levar à Assembleia Nacional “pedaços de nós demolidos e molha-los com as nossas lágrimas” nessa catedral da produção de aparências que realizam a fantasia da “democracia angolana para inglês ver contente”. O próprio senhor José Eduardo, honestamente, já nos disse e ao Mundo que a democracia e os direitos humanos não enchem a barriga a ninguém. Portanto está a ser coerente consigo mesmo.

Chegados a este ponto e momento da afronta endocolonial que nos submete, ao senhor dos Santos, o chefe-de-posto da “Fazenda Angola”, assim como a todos os servidores e clientes do seu projecto endocolonialista, [por enquanto], só resta lembrar que quem semeia ventos colhe tempestades. Mas também, com a mais profunda convicção, aqui exprimo o meu desejo dessa colheita ter lugar num Setembro de eleitores em vês de num Fevereiro de heróis que, no entanto, objectivamente, é o que está a semear a condução predadora de Angola pelo senhor José Eduardo dos Santos. Libertemo-nos com urgência.

Luís Araújo

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Saturday, February 7, 2009

Quadros para Angola

A Elite International Careers tem o privilégio de anúnciar o seu primeiro fórum de recrutamento em Lisboa, nos dias 6, 7 e 8 de Março de 2009, direccionado para Angola, no qual vão participar cerca de 30 empresas líderes em Angola, das quais se destacam a Odebrecht e Chevron como patrocinadoras, e a Acergy, BESA, BP, Cameron, Cuca BGI, DNV, Elecnor, EMSA, FMC Technologies, Global Alliance, Halliburton, Honeywell, ITM Mining, Mota-Engil, Nalco, NDS, Oceaneering, Ofek, OPS, Panalpina, Pride, Queiroz Galvão, Saipem, Sonils, Subsea7, Technip e Zagope.

O Elite Angolan Careers vai realizar-se durante um fim-de-semana e reúne entrevistas pré-agendadas entre candidatos previamente seleccionados e os decisores-chave das empresas presentes. Durante o fórum, decorrem ainda apresentações de representantes das empresas presentes que dão a conhecer aos candidatos os seus objectivos organizacionais, a importância do regresso dos quadros angolanos e as oportunidades correntes.

Esta é uma oportunidade única dos candidatos estarem expostos a um grande número de empregadores e vice-versa.

O acesso a este Fórum é para candidatos convidados (ou seja, candidatos cujos CVs foram enviados para as empresas e que as mesmas estão interessadas em entrevistar no Fórum).

Estás interessado?

Então envia já o teu CV para angola@eliteic.net e visita o website www.eliteangolancareers.com para mais informações.

Conheces alguém que possa estar interessado?

Por favor indica os seus contactos ou passa a palavra reenviando-lhes o nosso website www.eliteangolancareers.com

Obrigada pela atenção!

http://www.eliteangolancareers.com/

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Wednesday, November 26, 2008

E se Obama fosse africano?

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
 
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
 
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
 
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: “E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
 
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
 
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
 
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
 
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado ‘ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
 
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
 
5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
 
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
 
Inconclusivas conclusões
 
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
 
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
 
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
 
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
 
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
 
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Mia Couto

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Wednesday, November 19, 2008

Guerra no Congo

 Já todos devem estar a par da “nova” guerra no Congo. Nós, africanos, sentimos uma tristeza que nos invade, assim como um sentimento de exaustão. “Guerra? De novo?” Só nos apetece desligar a televisão, ou deixar de ler o jornal, fechar a cortina que dá vista para este panorama de morte que insiste em raiar à nossa frente. De tanto desalento, já nem queremos saber o porquê desta guerra, mas a vontade de perceber é sempre maior e mais forte.

O que se passa no Congo?
  
No passado…

A História do nosso continente está infelizmente manchada de sangue, e uma das suas piores páginas é o genocídio no Ruanda (que inspirou o filme americano Hotel Ruanda) em 1994, onde cerca de 800 000 tutsis foram assassinados pelos hutus. Pois bem, em 1997 quando os tutsis tomaram conta do  poder no Ruanda, eles foram atrás dos dissidentes hutus que se tinham refugiado no Congo, mais precisamente na região do Norte do Kivu. Cerca de 300 000 hutus foram dados como “desaparecidos”. Nesta altura o exército ruandês  “aproveitou o balanço” e contribuiu para o golpe de estado, tirando do poder Mobutu e pondo Laurent-Kabila.

O que tem acontecido?

O exército de rebeldes hutus ruandeses ficou no Congo. Eles são cerca de 10 000 e continuam armados. Recusam-se a sair do país para voltar para o Ruanda, e recusam-se também a largar as armas e serem integrados no exército congolês. Na região do Norte do Kivu há todos os meses cerca de 15 mulheres violadas pelos soldados. A população encontra-se completamente desprotegida, uma vez que os militares do governo, que não têm grandes condições, estão demasiado ocupados a fazer uns “biznos”: uns comandantes vendem madeira, outros carvão, etc, etc. O problema vem de cima, ou seja, se os governantes estiverem mais ocupados a porem bufunfa no bolso do que a darem todas as condições aos militares, sejam elas económicas, logísticas, etc., os militares por sua vez, vão-se preocupar com eles próprios e não com a população. Consequência: A população fica completamente desprotegida e à mercê dum exército hutu que faz a sua lei no Congo. Alem de violarem muitas mulheres da população, os rebeldes hutus pilham e roubam.  

E o que isso tem a ver com a guerra?

Tudo. Pois o líder do CNDP,(Congresso Nacional para a Defesa do Povo), Laurent Nkunda, um tutsi que lutou contra os hutus no Ruanda em 1994, diz que não vai cessar fogo enquanto os hutus permanecerem na região do Norte-Kivu. Nkunda tem uma longa lista de antecedentes de guerra e é acusado de inúmeros crimes de guerra, nomeadamente do massacre na região do Bukavu em 2004. Nkunda acusa o governo de Kabila de conivência com os rebeldes hutus e de “traição ao povo congolês” e apela a todos os congoleses a “levantarem e lutarem contra o governo de Kabila”.
Embora não sejam muito numerosos, os homens de Nkunda estão equipados com tecnologia de ponta: rádios último grito, tanques militares, etc. Como têm acesso à esse material? Fala-se do apoio do governo de Paul Kagame, presidente do Ruanda, embora este o negue peremptoriamente.

O que não se vê…

Pois bem, nada é por acaso. A região do Norte-Kivu é muito rica em minérios. BUM! Aqui está um ponto comum em todas as histórias (ou quase todas) de guerra que conhecemos. Passa-se sempre numa região com alto potencial económico e muito cobiçada. Será que o general Laurent Nkunda quer mesmo defender “os seus”, ou estará ele a pensar num cifrões? O Ruanda só ganha: o presidente tutsi “limpa” os hutus causadores do genocídio e ainda ganha uma região riquíssima.

Como em todas as guerras…

… quem paga é o povo. Cerca de 1,5 milhão de pessoas deixaram as suas casas. Mães com crianças às costas correm desesperadas, fugindo das balas. A condição de vida dessas pessoas, que já era degradante, atinge hoje um nível miserável.  Até quando essas guerras tribais vão continuar? Alimentadas por um ódio e uma ganância, elas só trazem o desespero e a morte. A vida humana tem um valor, e nós africanos, temos de aprender duma vez por todas, que antes de sermos hutus, tutsis, peuls, kimbundus, ovimbundus, somos angolanos, guineenses, ruandeses… africanos. E enquanto isto não estiver claro, as guerras não vão parar.

O conflito regionaliza-se

O governo de Angola e do Zimbabué enviaram tropas militares para ajudar o governo de Kinshasa. Provavelmente, o governo do Ruanda enviará também tropas para ajudar os rebeldes de Nkunda. A situação agrava-se.

                                    N’Manga

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Saturday, September 20, 2008

ELEIÇÕES DIA 5 de SETEMBRO

Ambiente antes das eleições

 Antes do dia 5 de Setembro o ambiente era calmo. Vivia-se, sem dúvida, num ambiente de campanha, com bandeiras de vários partidos espalhadas pela cidade (principalmente do MPLA e da UNITA). As pessoas não tinham medo de sair à rua ostentando as cores do seu partido, quer fosse do “M” quer fosse da UNITA, quer fosse outro qualquer. Depois de 1992, não me lembro de ver pessoas a abanarem bandeiras da UNITA em pleno Kinaxixe, à plena luz do dia. Isso só demonstrou que realmente, houve um respeito mútuo entre os militantes e simpatizantes dos diferentes partidos (embora toda regra tenha a sua excepção). Cada partido teve, todos os dias durante o período de campanha, direito a 5 minutos de antena na TPA. Aí, podiam expor os seus programas eleitorais de maneira a que Angola inteira visse. Foi, na sua grande maioria, um tempo deitado fora e uma demonstração da aberrante incompetência da oposição, claramente desorganizada e fraca. Mesmo a UNITA desiludiu, o partido que supostamente deveria fazer frente ao MPLA, pois apresentava programas extremamente fracos e desprovidos de conteúdo. O “M” não precisava de muita coisa para fazer melhor figura do que todos os outros. Bastava apresentar o programa “Angola em reconstrução” (que dava logo a seguir às campanhas eleitorais), onde apresentava todas as obras que têm sido feitas em Angola, e pronto, era o que bastava. Ninguém esperava uma oposição tão fraca. Contudo, houve alguns “incidentes” que “apimentaram” as campanhas, nomeadamente, o “incidente BDA”. O que aconteceu? Um indivíduo apresentou-se ao BDA (Banco de Desenvolvimento de Angola) como sendo um jornalista e dizendo que possuía consigo um documento capaz de deitar abaixo o BDA assim como o MPLA. O documento em questão, assinado pelo secretário-geral do banco, autorizava o levantamento de 44 milhões de USD, para fins de financiamento da campanha do “M”. Ora, esta história deu maka. O suposto jornalista foi preso (digo suposto porque as autoridades afirmaram que não o era), por possuir consigo um documento falso. A direcção geral do BDA fez um comunicado provando por A + B que o documento era falsíssimo, com inúmeras falhas e descuidos. O Bureau Politico do MPLA também fez um comunicado, acusando a UNITA de manipulação. Enfim, esta história não foi muito mais longe, cada um tirou as ilações que quis, uns acreditaram outros não, mas a campanha continuou… E continuou com o presidente na linha da frente. Depois de muitos e muitos anos de silêncio, o presidente estava em todo o sítio, falando para todos os órgãos de comunicação social. Viajou pelo país afora, inaugurando obras, visitando instituições, fazendo comícios, enfim, o pacote todo.

 O dia D – Eleições

O dia amanheceu cedo. Milhares de pessoas em Luanda levantaram-se com o cantar do galo e dirigiram-se para as respectivas assembleias de voto, pensando que se conseguissem votar cedo, durante o restante dia poderiam acompanhar o resto das eleições pela televisão. Enganaram-se. As assembleias de voto (que supostamente abriam as 07:00) ao meio dia ainda não estavam abertas. Foram inúmeras as assembleias que não abriram ou que abriram e voltaram a fechar por falta de material: “o papel acabou”, “Não temos cabines”, “Não temos mais tinta”. Enfim, em termos de logística, aquele começo de eleições era um autêntico desastre. Os cidadãos que podiam, percorriam a cidade toda à procura duma assembleia que funcionasse devidamente e que não tivesse uma fila de 500 pessoas. “Eu passei pelo Miramar e não vi ninguém”, “Disseram-me que na Universidade Agostinho Neto na Marginal estava bem organizado”… E assim ia sendo, cada um “desenrascava-se” como podia, até mesmo para votar, afinal não é assim que é para quase tudo em Angola? Aparentemente, esta desorganização só aconteceu em Luanda, pois nas outras províncias as pessoas puderam votar normalmente. Na televisão, o responsável do CNE, Caetano Sousa, assumiu a responsabilidade pelas inúmeras falhas e prometeu melhorias para o período da tarde. Dito e feito. Durante a tarde, foi facílimo votar em muitas assembleias de voto. Contudo, e para não existirem dúvidas que todos os luandenses poderiam votar, foi dado mais um dia de voto: o dia 6 de Setembro.

 Incidentes

Os problemas logísticos marcaram negativamente as eleições. Depois de tanto investimento, quer financeiro quer de tempo, era quase inconcebível que faltassem boletins de voto ou cabines para votar em muitas assembleias. Mas como foram as primeiras eleições em 16 anos, podemos e devemos ser condescendentes com tão debilitada organização. A UNITA pediu impugnação, que foi negada pelo CNE. Problemas mais graves aconteceram:

1- A ausência de cadernos eleitorais nas tribunas de voto, foram sem dúvida uma grave falha.

2- Foi negado pelo CNE, à última da hora, o credenciamento de cerca de 400 observadores da sociedade civil (observadores apolíticos). Ou seja, o CNE aguardou até à véspera das eleições (apesar da pressão que os observadores tentaram fazer) para dizer que havia problemas em muitos dos dossiers. Uma manhosa demonstração de má vontade por parte do CNE, que credenciou (também à última hora) centenas de observadores de associações cuja independência financeira é altamente duvidosa.

Estas falhas estiveram na base das duras críticas lançadas (talvez prematuramente) por alguns observadores internacionais (como por exemplo Luisa Morgantini). Estes observadores foram severamente criticados e descredibilizados, tendo a italiana Morgantini, chegado mesmo a alterar as suas declarações, dizendo mais tarde que “apesar de algumas falhas, as eleições em Angola foram livres e justas”. E sim, a UE declarou que foram eleições transparentes e justas. Haverá interesse estrangeiro? Ou terá sido mesmo assim? Já não interessa. O que interessa é que o vencedor não foi contestado por ninguém. Todos os partidos aceitaram condignamente a derrota e felicitaram o vencedor. E o vencedor foi…

Após Eleições

 … o inevitável, o incontornável, o único… MPLA. Por uma margem absurda: 81,64%. Obteve 191 dos 220 lugares no parlamento (mais do que suficiente para aprovar a nova constituição, assim como todas as leis que serão aprovadas nos próximos anos). Uma esmagadora maioria dos angolanos votaram no “partido do coração”. Uma enorme derrota para a UNITA, que durante a campanha demonstrou demasiada febrilidade e que pagou bem caro na hora H. O povo escolheu, seja feita a sua vontade.

N’Manga

Resultados Eleitorais:

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Wednesday, August 13, 2008

Reportagem BBC: “America’s New Frontier”

Esta reportagem é de 2005, por isso algumas das informações já são ultrapassadas e temos de ser justos quanto ao trabalho que está a ser feito e reconhecido mesmo pelos mais críticos entre nós de 2005 à esta parte, nomeadamente no que toca as estradas nacionais. No entanto, a maior parte destas informações continuam a ser, para nossa grande tragédia, absolutamente actuais. Não há legendas, sinto muito. Aconselho-vos a irem ao youtube e procurarem as outras postagens do journeymanpictures, tudo super informativo e há várias reportagens sobre Angola sendo esta a mais completa.

alt : http://www.youtube.com/v/KpJ4xtwTRMY&hl=en&fs=1 alt : http://www.youtube.com/v/7P-DmmrjGGs&hl=en&fs=1 alt : http://www.youtube.com/v/JIaGywDlcv8&hl=en&fs=1

KulpadoKomum

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